CUNHA DE LEIRADELLA
O CIRCO DAS
QUALIDADES HUMANAS



Longa metragem

INDEX

Nota preliminar
Narrativas
Personagens (ordem alfabética)
Figuração
Perfil dos personagens

ROTEIRO:

01-15
16-18
19-25
26-32
33-34
35-37
38-40

41-43
44-45
46-50
51-58
59-62
63-67
68-70

71-72
73-79
80-83
84-91
92-101
102-110
111-121

 

71 - BAR DO CAMPO. INTERIOR. NOITE.

 

Preto está no canto do balcão, bebendo com Lisa, mas sempre atento, ora olhando a porta, ora olhando a mesa de Carioca e Nilo.

 

VOZ DE CARIOCA (Com raiva)

- Tu num sabe quem que é Chicão, não, caralho!

 

Corta para Carioca e Nilo. Carioca abre a camisa e mostra o peito, cortado de cicatrizes.

 

CARIOCA

-Tá vendo? Cada uma tem uma estória...

 

Nilo olha Carioca, assustado, e passa a toalha na cara e no pescoço. Carioca bebe.

 

CARIOCA (Recordando)

- Chumbinho. Já escutou falar de Chumbinho, irmão de Preto? Não? Quer dizer que o bom amigo num contou o que fez cum ele? (Com força.) Num contou, mesmo, não?

 

CENA EM FLASH BACK

 

Terreno baldio. Noite. Chumbinho, nu, amarrado num poste, gritando, e Chicão cortando os bagos dele com uma faca. O sangue espirra e mancha tudo. Inclusive, a própria tela.

 

CONTINUA A SEQÜÊNCIA 71

 

CARIOCA

- Tu viu o bom amigo?!

NILO

- Seu Chicão...

CARIOCA (Cortando)

- Ele falou da Mary Gold?

NILO (Rápido, com medo)

- Não! Não! Nunca!

CARIOCA (Recordando)

- Gatona. Lá da Praça Mauá. Todo mundo parava nela.

 

Carioca tira uma fotografia amarrotada do bolso da camisa e mostra-a a Nilo. No detalhe, vê-se que é uma fotografia de Mary Gold, estrelando um show num cabaré.

 

CARIOCA

- Tá vendo? Até eu parei na dela. E ela parou na minha.

 

CENA EM FLASH BACK

 

Show de Mary Gold. Sentado numa mesa, sozinho, sorrindo, com ar sonhador, Carioca assiste. Corta para um terreno baldio. Noite. Deitada de borco no chão, nua e com as mãos amarradas nas costas, Mary Gold debate-se e grita. Chicão, rindo, enfia-lhe o cano do revólver no cu e atira. O sangue espirra e mancha tudo. Inclusive, a própria tela.

 

CONTINUA A SEQÜÊNCIA 71

 

CARIOCA (Com ódio, guardando a fotografia)

- Entendeu, agora, as nossas contas, portuga?

NILO (Implorando)

- Pelas santas almas do céu, Seu Carioca! Eu não tenho nada com isso, não!

 

72 - COLONIAL HOTEL. QUARTO DE ULYSSES. INTERIOR. NOITE.

 

Ulysses e Maria Germana estão na cama. Ulysses recostado na cabeceira, fumando, e Maria Germana deitada.

 

MARIA GERMANA

- Você é bem esquisito, sabia?

ULYSSES

- Por quê? Só porque você me viu chorar?

 

Maria Germana não responde, espantada com a franqueza de Ulysses.

 

ULYSSES

- Hem?

MARIA GERMANA

- Não. Não foi só por isso. Claro que isso também pesou, mas...

ULYSSES

- Ou foi por eu não ter corrido, quando você entrou?

 

MARIA GERMANA

- Também. Mas também não foi só isso. Você tem qualquer coisa que eu... Olha que eu não sou muito de me confundir, não, mas você...

ULYSSES

- Eu, o quê?

MARIA GERMANA

- Não sei. Parece que você tá querendo uma coisa que sabe que nunca vai ter. Quando eu vi você chorando, lá na igreja, o que eu via não era o que tava acontecendo, isso eu tenho certeza.

ULYSSES

- E que mais você pensa que viu? Você só viu um homem chorando.

MARIA GERMANA (Após uma pausa)

- Isso eu sei que foi o que eu vi. Mas o que tava, realmente, acontecendo...

 

Maria Germana cala-se e olha Ulysses.

 

ULYSSES

- Continue.

MARIA GERMANA (Após uma pausa)

- Parecia mais uma confissão, sei lá.

 

Ulysses olha Maria Germana, durante algum tempo, e puxa uma tragada profunda. Solta o fumo devagar e olha-o desfazer-se no ar.

 

ULYSSES

- Não. Não era confissão.

MARIA GERMANA

- Medo?

ULYSSES (Abanando a cabeça)

- Não.

 

Ulysses cala-se e puxa outra tragada, e sopra o fumo com força.

 

ULYSSES

Era vazio. Desencanto, consciência...

MARIA GERMANA (Com espanto)

- Consciência?!

ULYSSES

- Tomada de conhecimento, se você prefere.

MARIA GERMANA

- Tomada de conhecimento? Mas tomada de conhecimento de quê?

ULYSSES (Após uma pausa)

- Da grande merda que eu sou.

 

Maria Germana não diz nada. Recosta-se na cabeceira da cama, pega o cigarro de Ulysses e puxa uma tragada profunda. Solta o fumo devagar, pelo nariz e pela boca, e devolve o cigarro. Ulysses fica com ele na mão, como se não tivesse notado que Maria Germana o devolveu.

 

ULYSSES (Divagando)

- Sabe? Até há pouco, eu não sabia nem se tava só. Tava tão só, que não sabia nem como é que tava. Na verdade, toda a minha vida foi assim. Só que eu nunca soube. Se me sentia dêprê, como você disse há pouco, sabe o que eu fazia? Mergulhava nas minhas teorias e bancava o avestruz.

 

Ulysses cala-se e olha à volta. A câmera segue o olhar de Ulysses, mostrando as paredes, o teto, etc.

 

VOZ DE ULYSSES

- Afinal, eu era um mestre, um intelectual de escol, como diziam os meus colegas. E assim vivi. Sempre chafurdando no meu mundinho de merda, mas sempre orgulhoso de ser um mestre. A opinião definitiva. O medalhão.

 

Corta para Ulysses.

 

ULYSSES

- Só que não era nada disso. Eu só era mestre em teorias. Na prática, eu nunca criei nada. Se até há pouco me dissessem o que lhe vou dizer agora, eu acharia uma heresia. Mas não é uma heresia. É uma verdade.

 

Corta para Maria Germana. Close do rosto, com os olhos fechados.

 

VOZ DE ULYSSES

- Em arte, quem não sabe, ensina. Quem sabe, faz.

 

Corta para Ulysses.

 

ULYSSES (Continuando)

- E eu sempre ensinei. Mesmo o romance que tô escrevendo, não é um ato de criação. É uma merda de uma tese. Quando você me viu, lá na igreja, sabe o que eu tinha pensado, e foi por isso que chorei? Que, pro criador daquelas obras, as próprias obras bastavam e que, de mim, nada restará. Eu não sou nem gauche. Tudo que eu sou, é uma litania mal cantada.

 

Ulysses cala-se e olha Maria Germana durante alguns instantes.

 

ULYSSES

- Sabe o que eu queria, na verdade? Era um colo. Um encosto que me suportasse e desse paz.

 

Ulysses cala-se, puxa uma tragada profunda, sopra o fumo com força e esmaga o cigarro no cinzeiro.

 

ULYSSES

Mas foi coisa que nunca tive.

 

Ulysses cala-se e fica olhando o teto do quarto. Maria Germana olha-o durante alguns instantes, deixa-se escorregar na cama e puxa-o sobre si.

 

MARIA GERMANA

- E você acha que encontrou esse colo?

 
 

 

 

 


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