CUNHA DE LEIRADELLA
O CIRCO DAS
QUALIDADES HUMANAS



Longa metragem

INDEX

Nota preliminar
Narrativas
Personagens (ordem alfabética)
Figuração
Perfil dos personagens

ROTEIRO:

01-15
16-18
19-25
26-32
33-34
35-37
38-40

41-43
44-45
46-50
51-58
59-62
63-67
68-70

71-72
73-79
80-83
84-91
92-101
102-110
111-121

 

84 - RUA. EXTERIOR. NOITE.

 

Carioca sai do Bar do Campo, seguido de Chicão e de Preto. Entram no corcel. Preto atrás, com Chicão, e Carioca dirigindo. Carioca liga o motor e o corcel arranca, cantando pneu.

 

85 - RUA. EXTERIOR. NOITE.

 

Eduardo e Helena caminham de mãos dadas, continuando o clima da seqüência 73. Cruzam com Laurentina e Jussara e, pouco depois, com Janaína e Marilene, e, mais adiante, com Prisciliana e Geralda. Mas, como aconteceu nas seqüências anteriores, nenhuma delas parece ver Helena.

 

86 - ADRO DOS PROFETAS. EXTERIOR. NOITE.

 

Eduardo e Helena entram no adro e param no patamar das escadas que descem para o Largo dos Passos da Via-sacra.

 

EDUARDO

- Eu te quero, Helena! Te quero muito!

HELENA

- Se você me quisesse, mesmo, Eduardo, já teria me encontrado.

EDUARDO

- Mas eu te encontrei!

HELENA

- Não. Você não me encontrou. Eu (frisa a palavra eu) é que te encontrei.

EDUARDO (Carinhoso)

- E me prendeu.

HELENA

- Não. Eu não te prendi.

EDUARDO (Mesmo tom)

- Eu não

HELENA

- Quem é preso, asfixia, Eduardo. Só quem se prende acaba solto.

 

Eduardo abraça Helena.

 

EDUARDO

- Mas eu te amo, Helena!

HELENA (Suave)

- Então, não me prende.

 

Eduardo olha Helena, confuso, e deixa cair os braços.

 

HELENA (Sorrindo)

- Deixa que eu me prenda.

 

Helena abraça Eduardo e beija-o. É um beijo de entrega total. A câmera faz um giro em volta dos dois e fixa-se na estátua do Profeta Abdias, apontando o dedo para o céu.

 

87 - CASA COLONIAL. SALA PRINCIPAL. INTERIOR. NOITE.

 

Maria Germana diverte-se no meio de um grupo. Ulysses aproxima-se, hesitante.

 

ULYSSES

- Escuta...

 

Maria Germana pára de dançar e olha Ulysses, rindo.

 

MARIA GERMANA

- Quem é você? (Cínica.) A litania mal cantada, que não tem colo?

ULYSSES

- Maria Germana, por favor...

MARIA GERMANA (Continuando)

- Como é mesmo? Ah! Em arte, quem não sabe, ensina. Quem sabe, faz.

 

Maria Germana olha à volta e, com um gesto largo, mostra o ambiente.

 

MARIA GERMANA (Sorrindo, sarcástica)

- Como você pode ver, aqui todo mundo é artista. Todo mundo faz.

ULYSSES (Implorando)

- Por favor.

MARIA GERMANA (Com força)

- Deixa de ser criança, Ulysses!

 

Ulysses puxa Maria Germana por um braço, com força.

 

ULYSSES

- Maria Germana!

MARIA GERMANA

- Quê que você quer? Outra foda?

 

Maria Germana, num gesto brusco, solta-se.

 

MARIA GERMANA

- Colo, eu não tenho.

ULYSSES (Vencido)

- Maria Germana, escuta...

MARIA GERMANA (Seca)

- Eu já dei que podia dar. Talvez dê de novo, se você for a São Paulo. Agora...

ULYSSES (Vencido)

- Mas você me...

MARIA GERMANA (Cortando)

- Ulysses, criança é minha filha. Ela é que ainda precisa de colo, tá?

 

Maria Germana afasta-se de Ulysses.

 

MARIA GERMANA

- Tchau. Apareça por São Paulo e talvez eu repita a dose, ok?

 

Ulysses fica parado, imóvel, confuso com aquela inversão de comportamento.

 

88 - RUA. EXTERIOR. NOITE.

 

O corcel de Carioca e Preto em alta velocidade, os faróis varrendo a escuridão.

 

89 - CORCEL. INTERIOR. NOITE.

 

Close do rosto de Carioca, dirigindo, tenso, mas, satisfeito. Na banco traseiro, os rostos de Preto e Chicão, imersos na penumbra.

 

90 - COLONIAL HOTEL. INTERIOR. NOITE.

 

Eduardo e Helena entram, de mão dadas, e dirigem-se à Recepção. Eduardo usa a mesma roupa da seqüência 86. O Recepcionista age como se não visse Helena.

 

RECEPCIONISTA

- Boa noite, Dr. Eduardo.

EDUARDO

- Boa noite. O 6, por favor.

RECEPCIONISTA

- Tem um recado pro senhor.

EDUARDO

- De quem?

RECEPCIONISTA

- Do Dr. Fábio.

 

O Recepcionista entrega a chave e o recado a Eduardo.

 

HELENA (A Eduardo, ao mesmo tempo)

- Quem?

EDUARDO (Com indiferença)

- Um engenheiro aí.

 

RECEPCIONISTA (Ao mesmo tempo)

- E ele também pediu que...

 

Eduardo guarda o recado no bolso, sem ler, e pega a chave.

 

EDUARDO (Cortando)

- Boa noite.

RECEPCIONISTA

- Mas, Dr. Eduardo...

 

Eduardo não responde. Pega a mão de Helena e ambos se afastam em direção às escadas. O Recepcionista encolhe os ombros e faz um trejeito de desdém com os lábios.

 

91 - CASA COLONIAL. INTERIOR. NOITE.

 

A festa continua, cada vez mais animada e frenética. Ulysses, parado junto do vão de uma janela, ainda confuso, como no final da seqüência 87, olha Maria Germana, dançando no meio de um grupo. Ulysses sente-se, mais do que nunca, um estrangeiro. Mas, apesar disso, ainda se nota no seu olhar, permeado pelo desespero e pela angústia, uma réstea de esperança. E é essa esperança que o obriga, ainda que irracionalmente, ele sabe, a permanecer naquela festa. Uma Drag Queen, espalhafatosa, aproxima-se de Ulysses, com grandes gestos afetados.

 

DRAG QUEEN

- Mas tão sozinho, amor?!? Vem comigo! Ah, vem, eu dou tudo que você quiser!

 

Tenta agarrar Ulysses, mas tropeça na roda do vestido e quase cai. Ulysses afasta-se, o rosto crispado, denotando não só espanto mas, também, e muito marcadamente, o arrependimento de estar ali, naquele momento. Sem saber o que fazer, mas ainda agarrado àquela réstea de esperança, àquele desejo de que Maria Germana se arrependa e volte para ele, Ulysses começa andando pela casa. A câmera acompanha-o. Sem destino, Ulysses entra num corredor. Um pouco à frente, um jovem, gay, nu, chorando, esmurra uma porta.

 

GAY 1

- Eu me mato, viu!? Eu me mato!

 

A porta abre-se e aparece outro gay, mais velho, também nu.

 

GAY 2

- Pode matar! Mata mesmo!

 

Ulysses passa e escuta-se o barulho da porta, batida com força. Ulysses aproxima-se de um vão que parece ser a porta de um banheiro. Pára, como avaliando a necessidade de urinar, e abre a porta. A porta range. Ulysses vai entrar, mas pára. A câmera segue o olhar de Ulysses. Uma mulher com ar de total indiferença, debruçada na pia e vestida, deixa-se enrabar por um homem. O homem volta-se, sem parar os movimentos. A mulher continua indiferente.

 

HOMEM

- Quê que há? Nunca viu, não, porra!?!

 

Ulysses fecha a porta, num gesto rápido. Uma moça nua passa junto dele, correndo, e arrasta-o. Pegado de surpresa, Ulysses deixa-se levar. A moça abre uma porta e empurra Ulysses para dentro de um quarto. Diversas mulheres e homens, todos nus e sentados à volta de uma mesa-de-cabeceira, cheiram cocaína. No vão da janela, duas mulheres atracam-se e gemem alto. A moça mostra, com um gesto triunfante, um saquinho plástico cheio de pó. Um homem pega o saquinho e despeja-o no tampo da mesa-de-cabeceira. Ao mesmo tempo, a moça aponta Ulysses.

 

MOÇA (Gritando)

- Gente! Peguei um marciano!

 

Todos olham Ulysses, menos as lésbicas, e uma mulher tenta levantar-se.

 

MULHER

- Me dá ele! Eu quero ele!

 

A mulher não consegue levantar-se e cai por cima da mesa-de-cabeceira, espalhando as carreiras de pó. Tumulto. Todos gritam e tentam aproveitar o pó espalhado no chão. Ulysses sai do quarto e entra em outro corredor, com diversas janelas e uma porta no fundo. Ulysses pára junto de uma das janelas e olha para fora. A escuridão é total e no vidro apenas se reflete o rosto de Ulysses, pontilhado pelo brilho distante das estrelas. Ulysses tenta abrir a janela, mas não consegue. Fica imóvel durante alguns instantes e, voltando-se, olha a porta, no fundo. O barulho da festa, amortecido pela distância, é bem menor. Ulysses começa andando, pára junto da porta, volta-se e olha o corredor, e, de repente, como que tomado por uma resolução súbita, abre a porta, num gesto brusco. A câmera segue o olhar de Ulysses. A primeira imagem que Ulysses vê é a si mesmo, refletido num espelho que cobre a parede fronteira, entre duas janelas, onde estão escritas, com batom, algumas palavras. Vinda de dentro do quarto, escuta-se uma voz monocórdica entoar o que aprece ser uma ladainha ou um poema. Ulysses, parado na porta, fixa os olhos nas palavras escritas no espelho.

 

ODE METAMARÍTIMA

NAVEGAR ONDE?

EU NÃO SEI NAVEGAR, MERDA!

 

A assinatura é apenas um rabisco ilegível. Ulysses sorri e, pela primeira vez, parece descontrair-se. Ao mesmo tempo, a voz torna-se mais audível, embora ainda não se compreendam as palavras. Ulysses entra no quarto, sem fechar a porta. Sentada na cama, embrulhada num lençol, completamente imóvel e absorta, como se estivesse drogada ou em êxtase, uma mulher declama um poema. Ulysses aproxima-se e as palavras tornam-se compreensiveis.

 

DECLAMADORA

- O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

 

A Declamadora faz uma pausa, como se tentasse lembrar-se do resto do poema. Fica calada algum tempo e, de repente, ri. Corta para Ulysses, olhando a Declamadora, não só espantado, mas também fascinado. Corta para a Declamadora, que pára de rir e continua o poema.

 

DECLAMADORA

- Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

O Rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele, está só ao pé dele.(1)

Como que exausta pelo esforço, a Declamadora cala-se e deixa-se cair na cama. O lençol abre e vê-se que está nua. Ulysses aproxima-se, mas a Declamadora não o olha, nem se mexe. Ulysses ajeita-lhe o lençol sobre o corpo e olha o quarto. Numa das paredes, portas de vidro, fechadas, deixam ver uma varanda, lá fora. Ulysses começa andando. Ao passar pelo espelho, Ulysses pára e lê, mais uma vez, as palavras escritas e, vagarosamente, dirige-se para as portas de vidro.

 
(1) Fernando Pessoa (O GUARDADOR DE REBANHOS, Alberto Caeiro)
 
 

 

 

 


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