CUNHA DE LEIRADELLA
O CIRCO DAS
QUALIDADES HUMANAS



Longa metragem

INDEX

Nota preliminar
Narrativas
Personagens (ordem alfabética)
Figuração
Perfil dos personagens

ROTEIRO:

01-15
16-18
19-25
26-32
33-34
35-37
38-40

41-43
44-45
46-50
51-58
59-62
63-67
68-70

71-72
73-79
80-83
84-91
92-101
102-110
111-121

 

41 - BAR DO CAMPO. INTERIOR. DIA.

 

Carioca e Preto continuam jogando sinuca. O bar já tem algumas mesas ocupadas. Os dois bêbados continuam junto do balcão.

 

BÊBADO 1

- Seu Jofre, bota mais uma.

 

Jofre, junto da caixa, faz de conta que não escuta.

 

BÊBADO 2

- Seu Jofre...

 

Corta para Carioca e Preto. Preto pára de jogar.

 

PRETO

- Ô! Num tá escutando, não?

CARIOCA

- Ô...

PRETO

- Ô, o cacete! (Gritando.) Atende a porra do freguês!

 

Corta para Jofre e os dois bêbados. Jofre enche os copos. O Bêbado 1 aproxima-se da mesa de sinuca com o copo na mão.

 

BÊBADO 1

- Brigado, viu, patrão?

 

Corta para Carioca e Preto. Bêbado 1 aproxima-se, pára junto de Preto e olha-o com atenção.

 

BÊBADO 1

- Eu lhe conheço?

PRETO

- Conhece, o quê, porra?!

CARIOCA (Ao Bêbado 1)

- Ô...

BÊBADO 1 (A Preto)

- Eu vou lá prás terras do Satanás...

 

Preto puxa o revólver e mete o cano na boca do Bêbado 1.

 

PRETO

- E vai, mesmo, caralho!

CARIOCA

- Ô, Preto, porra!

 

Preto guarda o revólver e Carioca dá um empurrão no Bêbado 1.

 

CARIOCA

- Vai! Vai!

 

O Bêbado 1 olha Preto com raiva e afasta-se, resmungando.

 

BÊBADO 1

- Satanás! Satanás!

VOZ DE SILVIANO

- Jofre, traz duas. Bem geladas!

 

Corta para Ulysses, Marcos e Silviano, sentados junto da porta. Ulysses acende um cigarro. Puxa uma tragada profunda e sopra o fumo com força. Marcos ri.

 

MARCOS

- Mas quer dizer que você largou aquele marzão todo e se mandou pra Congonhas, assim à toa, à toa?

 

Ulysses olha Marcos durante alguns instantes e encolhe os ombros.

 

ULYSSES

- É...

MARCOS

- E você teve coragem de largar aquelas cariocas bundudas, assim sem mais nem menos? Ah, Ulysses, tenha dó! (A Silviano.) Eu, se fosse ele, se tivesse aporrinhado, sabe o quê que eu fazia?

SILVIANO

- Chupava cana.

 

Jofre traz as cervejas, enche os copos e vai servir outra mesa.

 

MARCOS

- Ah, prá merda! Pegava três ou quatro daquelas, bem bundudas, sabe como?, e, ó, me trancava num hotel, num puta quarto, e jogava a chave na privada.

SILVIANO

- Isso, você, que só vê bundas na sua frente.

 

Ulysses bebe um gole, devagar, olhando a pracinha.

 

MARCOS

- E você, não?

SILVIANO

- Eu?

MARCOS

- Você não, porque a tua mulher te traz aqui, ó, pelo cabresto!

 

Silviano ri e levanta um braço. Jofre aproxima-se da mesa.

 

JOFRE

- Torresminho, Dr. Silviano?

 

Silviano acena com a cabeça e Jofre vai apanhar o torresmo, atrás do balcão

 

VOZ DE PRETO (Gritando)

- Ô!

 

Corta para Carioca e Preto. Preto aponta a garrafa de cerveja, na mesa ao lado do bilhar.

 

PRETO

- Ó.

 

Corta para Jofre. Jofre larga o prato do torresmo em cima do balcão e corre para pegar uma garrafa de cerveja.

 

VOZ DE MARCOS

- Volta quando?

 

Corta para Ulysses, Marcos e Silviano.

 

MARCOS

- Ulysses...

 

Ulysses não responde. Apenas encolhe os ombros. Neste momento, Darcília, acompanhada de dois filhos, passa do outro lado da rua. Marcos e Silviano não reparam, ainda olhando para Ulysses. Ulysses segue Darcília com os olhos e, quando deixa de a ver, levanta-se.

 

MARCOS

- Quê que foi, sô?! Deu formiga no seu rabo?

ULYSSES

- Vou dar uma volta.

MARCOS

- Mas quê que...

ULYSSES (Cortando)

- A gente se vê depois. Tchau.

 

Ulysses sai.

 

MARCOS

- Quê que deu nele, hem?

SILVIANO

- E eu sei?!

MARCOS

- Não tá esquisito, não?

 

Silviano não responde. Encolhe os ombros, pega o copo e bebe dois goles, devagar.

 

MARCOS (Fazendo o gesto característico)

- Ulysses só pode tar é, ó!

 

42 - LARGO DOS PASSOS DA VIA-SACRA. EXTERIOR. DIA.

 

Ulysses sobe o largo, cabisbaixo. Como se nada existisse à sua volta e ele nada encontrasse dentro de si mesmo. A câmera explora, com detalhes, a angústia estampada no seu rosto e nos seus gestos.

 

43 - ADRO DOS PROFETAS. EXTERIOR. DIA.

 

Ulysses entra no adro. Anda devagar e pára junto da estátua do Profeta Habacuc, sem perceber Antônio, sentado ao pé da estátua do Profeta Jonas. Ulysses debruça-se na mureta e fica imóvel, o olhar perdido no infinito. Antônio olha Ulysses durante alguns instantes e, depois, aproxima-se, sorridente.

 

ANTÔNIO

- Ora, veja só quem...

 

Ulysses, absorto, não responde.

 

ANTÔNIO

- Quer dizer que...

 

Ulysses continua imóvel, sem responder.

 

ANTÔNIO (Com força)

- O amigo não...

 

Ulysses permanece na mesma posição, como se não percebesse a presença de Antônio. Antônio olha Ulysses durante algum tempo, como que pensando no que deverá fazer, e, de repente, afasta-se, com passos bruscos.

 

ANTÔNIO

- Ora, onde já se viu! Não conhecer os amigos!

 
 

 

 

 


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