CUNHA DE LEIRADELLA
O CIRCO DAS
QUALIDADES HUMANAS



Longa metragem

INDEX

Nota preliminar
Narrativas
Personagens (ordem alfabética)
Figuração
Perfil dos personagens

ROTEIRO:

01-15
16-18
19-25
26-32
33-34
35-37
38-40

41-43
44-45
46-50
51-58
59-62
63-67
68-70

71-72
73-79
80-83
84-91
92-101
102-110
111-121

 

46 - ADRO DOS PROFETAS. EXTERIOR. ENTARDECER.

 

Eduardo, com a mesma roupa da seqüência 44, entra no adro, vindo do Largo dos Passos da Via-sacra. Ulysses continua debruçado na mureta, junto da estátua do Profeta Habacuc. Eduardo pára e, sem parecer notar Ulysses, olha a estátua do Profeta Abdias. Olha, durante alguns instantes, o dedo do Profeta, apontando para o céu, como se fosse um sinal de advertência e, de repente, ri e desce, devagar, o Largo dos Passos da Via-sacra.

 

47 - LARGO DOS PASSOS DA VIA-SACRA. EXTERIOR. ENTARDECER.

 

Eduardo espia o interior de uma das capelas e, sem denotar maior curiosidade ou encanto, acende um cigarro e afasta-se, indiferente.

 

48 - IGREJA DO BOM JESUS. EXTERIOR. ENTARDECER.

 

Maria Germana deixa a equipe fotográfica ao lado da igreja e afasta-se, procurando novas locações. Entra no Adro dos Profetas e vê Ulysses, debruçado na mureta, chorando convulsivamente. Espantada e, ao mesmo tempo, curiosa, Maria Germana pára e observa Ulysses. Passa-se algum tempo e Ulysses continua na mesma posição, sempre chorando convulsivamente. Maria Germana aproxima-se. Ulysses percebe e afasta-se com passos rápidos. Maria Germana fica olhando o vulto de Ulysses até ele sumir na distância.

 

49 - RUA. EXTERIOR. NOITE.

 

Eduardo, com a mesma roupa da seqüência 47, anda por uma ruela. Pára e olha à volta, curioso. Acende um cigarro e puxa uma tragada, e continua andando. Um pouco à frente vê-se uma escadaria de pedra, aberta no muro. No topo, está uma mulher jovem e belíssima, vestida de branco, dividida entre a luz e a escuridão. É Helena.

 

HELENA

- Eduardo.

 

Eduardo pára e olha para cima, procurando ver de onde vem a voz. Ao ver Helena recua um passo, espantado.

 

EDUARDO (Aturdido, mas, ao mesmo tempo, curioso)

- Quem... Quem é você?

HELENA

- Eu tava te esperando.

EDUARDO (Já recomposto, rindo)

- Esperando? Por mim?

HELENA

- É. Por você.

EDUARDO

- E você sabe quem eu sou?

HELENA

- Se eu não soubesse, não poderia esperar.

 

Helena começa descendo a escadaria.

 

EDUARDO

- Foi Fábio?

HELENA

- Quem é Fábio?

EDUARDO

- Não foi ele que...

HELENA

Não se pode esperar sem conhecer, Eduardo.

EDUARDO

- Como é que você sabe o meu nome?

HELENA

- Eu sei. Eduardo. Eduardo da Cunha Júnior.

EDUARDO (Com espanto)

- Mas como...

HELENA (Suave)

- Só se deve perguntar o que se pode responder.

EDUARDO (Após uma pausa, já recomposto, rindo)

- Você acredita nisso?

HELENA

- Você, não?

EDUARDO (Seguro e incisivo)

- Claro que eu acredito!

HELENA

- Então, eu não preciso responder.

EDUARDO

- Mas você...

HELENA (Continuando)

- Se você só pergunta o que pode responder, você sabe quem eu sou.

 

Eduardo não responde. Helena desce o último degrau da escadaria e começa andando. Eduardo segue-a, ainda confuso, mas, ao mesmo tempo, fascinado. Passam Laurentina e Jussara, mas, apesar da figura belíssima de Helena, nenhuma delas parece vê-la. Mas reparam no ar aturdido de Eduardo e andam mais depressa. Eduardo aproxima-se de Helena.

 

EDUARDO

- Afinal, quem é você?

 

Helena olha Eduardo, fixamente, durante alguns instantes e, depois, sorri.

 

HELENA (Suave)

- Você sabe o que é felicidade?

EDUARDO

- Felicidade? (Incisivo, quase rude.) Claro que eu sei o que é felicidade.

HELENA (Suave)

- Eu sou feliz. Não tenho dúvidas.

 

Helena começa andando.Eduardo, após uma pequena hesitação, segue-a.

 

EDUARDO

- Nem eu!

 

Helena pára e volta-se.

 

HELENA

- Então, você devia ser feliz. (Incisiva) E você não é.

 

Eduardo pára, como que detido pelas palavras de Helena, e olha-a, ainda mais surpreso. Helena ri e começa se afastando, andando para trás, sempre de frente para Eduardo, que fica estático.

 

HELENA

- Você não perguntou quem eu era?

EDUARDO

- Perguntei. Se não sei quem você é...

HELENA (Sorrindo)

- E não quer me conhecer?

EDUARDO

- Pensando bem...

HELENA (Cortando)

- Não pense.

EDUARDO

- Mas como...

HELENA (Ao mesmo tempo)

- Queira. (Com força.) Queira, Eduardo! (Suave.) Se você me quiser, eu voltarei.

 

Helena some na escuridão de uma curva e Eduardo continua parado, estático. Após alguns instantes recupera-se e corre atrás dela. Mas, ao ultrapassar a curva, só vê o vazio. A ruela está deserta e Helena desapareceu.

 

50 - CASA DE BOSCO. SALA. INTERIOR. NOITE.

 

A família está jantando. Antônio, Geralda, Bosco, Jussara e Fábio. Todos comem em silêncio e o clima é tenso. Bosco olha, disfarçadamente, Antônio, ansioso por chamar a atenção do pai. Na realidade, Bosco sempre quis e tentou agradá-lo. Mas nunca conseguiu. Janaína aparece na porta da cozinha.

 

JANAÍNA

- Alguém quer mais arroz? Ainda tem, viu?

 

Ninguém responde e Janaína entra na cozinha. Jussara olha Bosco, fixamente. Geralda percebe o olhar de Jussara, mas baixa a cabeça e não diz nada.

 

BOSCO

- Pai...

 

Antônio não dá atenção e Bosco cala-se.

 

FÁBIO

- Hoje me aconteceu uma. Marilene...

 

Jussara olha Fábio e ele cala-se. Bosco pára de comer e coloca os talheres no prato.

 

BOSCO

- Pai...

 

Antônio não dá atenção e Bosco cala-se. Jussara olha Bosco. Antônio pára de comer e circunvaga o olhar pela mesa, sem fixar ninguém.

 

ANTÔNIO

- Hoje também foi o meu dia.

BOSCO (Ansioso, tentando agradar)

- Por quê, pai? Quê que...

ANTÔNIO (Continuando, sem olhar Bosco)

- De manhã, aquela barbaridade lá no trevo, e, agora, à tarde...

 

Bosco abre a boca, mas baixa a cabeça e não diz nada. Jussara continua a olhá-lo, fixamente.

 

ANTÔNIO (Continuando)

- Ô trem mais esquisito, sô!

FÁBIO

- Algum problema, papai?

ANTÔNIO

- Uma bobagem, filho. Uma bobagem.

FÁBIO

- Mas quê que foi? Algum...

 

Bosco mexe-se na cadeira, como se procurasse criar coragem.

 

ANTÔNIO

- Foi lá no adro. Imagina que, um sujeito que eu conheço...

BOSCO (Sem poder controlar-se)

- Quem que foi, pai?

 

Antônio não responde, nem olha Bosco. Olha Geralda, que continua de cabeça baixa.

 

ANTÔNIO

- Comadre Emília é que...

 

Geralda continua de cabeça baixa e não responde.

 

BOSCO (Nervoso, ao mesmo tempo)

- Pai...

 

Antônio olha Bosco, o rosto contraído num ricto de furor.

 

ANTÔNIO

- Quer saber, mesmo? Foi um louco. Um vagabundo que nem você!

 
 

 

 

 


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