CUNHA DE LEIRADELLA
O CIRCO DAS
QUALIDADES HUMANAS



Longa metragem

INDEX

Nota preliminar
Narrativas
Personagens (ordem alfabética)
Figuração
Perfil dos personagens

ROTEIRO:

01-15
16-18
19-25
26-32
33-34
35-37
38-40

41-43
44-45
46-50
51-58
59-62
63-67
68-70

71-72
73-79
80-83
84-91
92-101
102-110
111-121

 

16 - COLONIAL HOTEL. INTERIOR. DIA.

 

Recepção do hotel, com hóspedes entrando e saindo. Eduardo e Fábio junto do balcão. Na extremidade oposta, o Recepcionista entrega e recebe as chaves pedidas e deixadas pelos hóspedes. A câmera aproxima-se de Eduardo, que preenche a ficha de hospedagem. Fábio, nervoso, mexe-se constantemente, mas, ao mesmo tempo, curioso, espia o que Eduardo escreve. No detalhe, lê-se o nome Eduardo da Cunha Júnior. Eduardo olha Fábio e pára de escrever.

 

EDUARDO

- Meu caro Fábio, é como já lhe disse, afobação não adianta.

FÁBIO

- É que o problema é muito urgente, Dr. Eduardo. Nós tamos com metade do nosso pessoal...

 

Eduardo olha Fábio, irônico, e ele cala-se.

 

EDUARDO

- Me diga uma coisa. Há quanto tempo você trabalha na Açominas, hem?

FÁBIO

- Dois anos, Dr. Eduardo. Fez dois anos em agosto. Me formei e...

EDUARDO (Sorrindo e acenando com a cabeça)

- Ah, então tá certo. Tá certo. Você ainda acredita em milagres.

 

Fábio olha Eduardo, como se não entendesse.

 

EDUARDO (Continuando)

- Só que engenheiro não faz milagres, não, meu caro. Na nossa profissão, ou as coisas são, ou não são. O resto...

FÁBIO

- Mas eu concordo com o senhor, Dr. Eduardo. Só que, neste caso, eu acho que o pessoal, sabendo que o senhor... É uma questão, sei lá, talvez psicológica, o senhor entende?

EDUARDO (Irônico)

- Bom. Se a questão é psicológica... Se bem que, meu caro, Engenharia com Psicologia, não tem nada a ver. Só rima. O resto... Mas, já que você tá tão preocupado...

 

Eduardo cala-se e continua preenchendo a ficha de hospedagem. Escuta-se o barulho de uma mala de mão sendo jogada em cima do balcão, na outra extremidade.

 

VOZ DE ULYSSES

- Tem apartamento?

 

Corta para Ulysses e Recepcionista. O Recepcionista pára de pendurar as chaves no quadro e volta-se.

 

RECEPCIONISTA

- O senhor tem reserva?

 

Ulysses não responde.

 

RECEPCIONISTA

É que o hotel tá lotado e...

ULYSSES

- Tem apartamento ou não tem?

RECEPCIONISTA

- Ter, eu tenho. Só que é quarto, de fundos. É que tá aqui um pessoal de São Paulo e...

ULYSSES (Cortando)

- Ótimo.

 

O Recepcionista dá a ficha de hospedagem para Ulysses preencher. Ulysses começa preenchendo. Corta para Eduardo e Fábio.

 

FÁBIO

- Quer dizer, então, que eu posso...

EDUARDO

- Mas claro!

FÁBIO

- Dr. Eduardo, eu só queria que o senhor entendesse a minha posição. Eu acho que o senhor só devia ser incomodado amanhã, mas é o que o Dr. Malaquias, que é o nosso diretor de produção...

EDUARDO

- Pra mim, tá ótimo. Quanto mais cedo eu terminar, mais cedo volto pra São Paulo.

VOZ DE ULYSSES

- A chave, por favor.

 

Corta para Ulysses e Recepcionista. O Recepcionista pega a ficha de hospedagem que Ulysses acabou de preencher e passa os olhos pelos dados. No detalhe, vê-se o nome, José Ulysses de Almeida. O Recepcionista entrega a chave a Ulysses.

 

RECEPCIONISTA

- Quarto 10. O senhor tem bagagem?

 

Ulysses não responde. Pega a mala de mão e afasta-se. Corta para Eduardo e Fábio.

 

EDUARDO (Olhando Ulysses afastar-se)

- Tá vendo? Um que, não vai demorar muito, não vai nem saber que dois e dois são quatro. Afobação, meu caro...

FÁBIO

- Eu conheço ele. Quer dizer, é parente de uma vizinha lá de casa...

 

O Recepcionista olha, ainda em cima do balcão, a ficha de hospedagem que Eduardo preencheu. Percebe-se uma ligeira hesitação, mas ele não a pega e entrega a chave a Eduardo.

 

RECEPCIONISTA

- Apartamento 6, por favor. O senhor tem bagagem?

EDUARDO (Apontando a mala e a pasta, no chão)

- Aquelas duas.

 

Escuta-se o ruído e o vozerio de várias pessoas descendo as escadas. Corta para Ulysses, parado junto das escadas, e para a equipe fotográfica, espalhando-se pelo saguão. Ulysses olha, curioso, aquela parafernália: mulheres, homens, roupas e equipamentos. Sérgi, com duas máquinas fotográficas, de modelos diferentes, penduradas no pescoço, aproxima-se de Maria Germana.

 

SÉRGI

- Chi, Maria Germana, esqueci os espotes...

MARIA GERMANA

- Não faz mal. Hoje, eu quero luz natural.

 

A equipe fotográfica começa saindo. Ulysses sobe as escadas. Corta para Eduardo e Fábio e Recepcionista. Eduardo aponta a equipe fotográfica saindo.

 

EDUARDO

- O que é que esse pessoal...

RECEPCIONISTA

- Tão fotografando. Diz que é pra uma revista de modas, lá de São Paulo. (Encolhe os ombros, num gesto desdenhoso) Coisa de paulista.

 

Eduardo olha o Recepcionista e sorri, e pega a mala e a pasta. Fábio faz o gesto de ajudar, mas Eduardo abana a cabeça, recusando.

 

FÁBIO

- Quer dizer então que eu posso...

EDUARDO

- Mas é claro, meu caro!

FÁBIO

- Depois do almoço tá bom pro senhor?

EDUARDO

- Por quê depois do almoço? Vamos agora. É só deixar isto (mostra a bagagem) lá em cima e vamos.

FÁBIO

- Então, vou pegar o carro e...

EDUARDO (Rindo)

- A questão não é psicológica?

FÁBIO

- O senhor pode ficar certo que...

EDUARDO (Superior)

- Certo, eu sempre tô, meu caro. O problema, não são as minhas certezas. O problema, são as dúvidas dos outros.

 

Eduardo afasta-se, carregando a mala e a maleta, e começa subindo as escadas.

 

17 - COLONIAL HOTEL. QUARTO DE ULYSSES. INTERIOR. DIA.

 

A mala de mão, ainda fechada, está em cima da cama. Ulysses, em pé, fala ao telefone. Gesticula e movimenta-se sem parar.

 

ULYSSES

- Silviano? Ulysses. Não, tô em Congonhas. No Colonial. Não, não, obrigado. Silviano, por favor, eu sei que você faz questão, mas eu prefiro ficar aqui. O Marcos também... Ô, Silviano, quê que há? Ô, Silviano, pelo amor de Deus, então você acha... Tá. Tá certo. Mas o eu queria te falar, é o seguinte. Não, não. Desta vez, não vim de férias, não. Não. É só uma fugida. Mas o que eu queria te dizer é que já combinei com a tia Prisciliana um almoço, e... Não. Pra hoje. Isso. E queria que você fosse. Pode ser? Não, não. Vim sozinho. Não, Silviano, a Ziza... Não. A gente separou. É. Faz mais de quatro anos. Depois, te conto. Isso, velhão. À uma, então, ok? Mas vê se não atrasa, não, que a tia Prisciliana, você sabe como ela é, quando tem convidados. Então, tá, e, ó, um abração, pra você, viu?

 

18 - RUA. EXTERIOR. DIA.

 

Bosco e Geralda saltam de um ônibus na parada do Colonial Hotel. Bosco na frente e Geralda, atrás, carregando a mala de Bosco.

 

GERALDA

- Bosco, você viu o que o médico falou. Agora, se você não se cuidar...

 

Bosco mete as mãos nos bolsos ecaminha, indiferente, como se a mãe não existisse.

 

VOZ DE BOSCO

- Só as perdas fundamentais são necessárias.

GERALDA (Continuando)

- Bosco, pelo amor de Deus, escute sua mãe. Você sabe como é seu pai. Ele não acredita que você tá doente, não. E, agora, que se aposentou, piorou. E, Jussara, sua irmã, também... Logo que soube que você ia voltar, parece até que virou outra. Até com o namorado, o Joca, aquele filho de Seu Campos, tão bom moço e tudo mais, até com ele ela brigou.

VOZ DE BOSCO

- Só as perdas fundamentais são verdadeiras.

GERALDA (Continuando)

- Se não fosse seu irmão Fábio, que seu pai ainda respeita, não sei nem o que seria da gente. Eu sei que você tá sofrendo muito, mas se seu pai vê você assim...

 

Bosco anda mais rápido e distancia-se de Geralda. Emília, carregando uma sacola de compras, sobe a calçada. Geralda apressa-se, procurando acompanhar Bosco. Emília pára na frente de Geralda que, preocupada, não a vê.

 

EMÍLIA

- Credo, comadre!

GERALDA (Ao mesmo tempo, chamando Bosco)

- Meu filho!

 

Emília segura a mala que Geralda carrega. Geralda, obrigada a parar, olha Emília, espantada, e, ao mesmo tempo, embaraçada.

 

GERALDA

- Comadre Emília...

EMÍLIA (Incisiva)

- Você não toma emenda, mulher!

GERALDA (Como que se desculpando)

- Bosco não tá bem.

 

Emília volta-se e olha Bosco, afastando-se. A câmera acompanha o olhar de Emília.

 

VOZ DE GERALDA (Ao mesmo tempo)

- O doutor falou que...

 

Corta para Emília olhando Geralda, severa.

 

EMÍLIA

- Vagabundo! (Aponta a mala que Geralda carrega.) Um cavalão daquele tamanho e a mãe é que... (Pausa. Outro tom.) Comadre, comadre, compadre Antônio é que tá certo. É meu afilhado, mas, em vez de mimo, o que aquele vagabundo precisa é de correia no lombo e de calo na mão.

 

Geralda olha na direção de Bosco. A câmera mostra a preocupação estampada no seu rosto.

 

GERALDA

- Comadre, pelo amor de Deus...

EMÍLIA (Com força)

- Vai, vai, e que Deus não te castigue, mulher!

 

Geralda afasta-se, apressada, carregando a mala. Corta para Emília, vendo Geralda afastar-se e abanando a cabeça, num gesto reprovador. Corta para Bosco. A equipe fotográfica aproxima-se e Bosco anda mais rápido. Ao cruzarem , uma das modelos sorri para Bosco.Bosco volta-se e olha-a, e, de repente, as pernas da modelo começam a distender-se e os passos ficam lentos, e ela parece flutuar. Bosco olha os outros membros da equipe fotográfica, e a mesma coisa acontece. As pernas distendem-se e os passos ficam lentos, e os corpos parecem flutuar. Bosco tapa o rosto com as mãos e fica rígido, como que pregado no chão. Corta para Geralda, aproximando-se.

 

GERALDA

- Bosco, quê que você tem? Pelo amor de Deus, escute sua mãe. Eu só tô falando pra seu bem, meu filho!

 

Num gesto brusco, Bosco tapa os ouvidos com as mãos e sai correndo.

 

VOZ DE BOSCO

- Viver não é viver!

GERALDA (Quase gritando)

- Bosco!

 
 

 

 

 


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