CUNHA DE LEIRADELLA
O CIRCO DAS
QUALIDADES HUMANAS



Longa metragem

INDEX

Nota preliminar
Narrativas
Personagens (ordem alfabética)
Figuração
Perfil dos personagens

ROTEIRO:

01-15
16-18
19-25
26-32
33-34
35-37
38-40

41-43
44-45
46-50
51-58
59-62
63-67
68-70

71-72
73-79
80-83
84-91
92-101
102-110
111-121

 

35 - CASA DE BOSCO. SALA. INTERIOR. DIA.

 

Bosco está junto da mesa, ainda olhando a porta por onde saíram Antônio e Ulysses. Jussara, imóvel, olha Bosco, fixamente. Marilene, nervosa, também o olha, embora tente disfarçar.

 

GERALDA

- Meu filho...

 

Bosco não responde.

VOZ DE BOSCO

- Anúncio de jornal. Aulas de silêncio. Ligue para nós e não pense. Cale-se!

GERALDA

- Bosco...

 

Bosco sai, de repente, num gesto brusco.

 

36 - CASA DA TIA PRISCILIANA. SALA. INTERIOR. DIA

 

Sentados à mesa, Ulysses, Marcos e Silviano almoçam. Prisciliana e Laurentina entram e saem, servindo as comidas e as bebidas. Os três amigos conversam e riem.

 

ULYSSES

- Essa não, Marcos! Você, ex-prefeito de Congonhas?!

MARCOS

- Quê que eu podia fazer? Nem tudo pode ser perfeito, uai.

ULYSSES

- E os profetas deixaram um comunista roxo...

SILVIANO (Ao mesmo tempo)

- Ex-comunista roxo.

ULYSSES (Continuando)

- ...governar a corte celestial?

SILVIANO (A Ulysses)

- Os Boris e os Clintons não são compadres? Nós somos irmãos. Ou não?

MARCOS (Rindo e apontando Silviano)

- E ele aproveitou o parentesco pra virar capitalista.

SILVIANO (Rindo e apontando Marcos)

- E ele pra se eleger.

ULYSSES (Rindo)

- Só eu não sou irmão de ninguém. Não sou politico, nem capitalista.

 

Os três ainda riem, quando entra Laurentina com uma garrafa de vinho.

 

ULYSSES

- Pra mim, não, Laurentina. Prefiro continuar com a loirinha.

 

Laurentina serve Marcos e Silviano.

 

MARCOS

- Se bem me lembro, nos nossos tempos de Belo Horizonte, você nunca desprezou.

SILVIANO

- E como!

ULYSSES

- Não. Realmente, não. Mas, depois de vinte anos de Rio, já viu.

SILVIANO (Irônico)

- Apurou o paladar, mestre?

ULYSSES

- Nada. Desaprendi

MARCOS

- E lá fora, hem? Duvido! Duvido, viu?, Dr. José Ulysses de Almeida, digníssimo comedor da virginada mundial!

ULYSSES

- Mas isso é lá fora, meu querido. Lá fora, sabe como é, la noblesse oblige.

SILVIANO

- Lambão!

 

Os três riem.

 

MARCOS

- Mas me diga, sô. Que raio de trovoada foi essa, que trouxe você até Congonhas, hem? Se bem me lembro, faz mais de cinco anos que...

SILVIANO

- Saudade dos amigos ou das antigas namoradas, hem?

MARCOS (Com espanto)

- Namo...

SILVIANO (Cortando)

- Bestando, sô?! Descasado, quê que você quer que ele faça, hem? (A Ulysses.) Darcília ainda tá, ó...

 

Ulysses, de repente, parece alhear-se da conversa.

 

MARCOS (Cutucando o braço de Ulysses)

- Quê que há, sô? Pensando na morte da bezerra?

ULYSSES

- Nada.

MARCOS

- Ah, Ulysses, deixa disso!

ULYSSES

- Sério. Só tava me lembrando da gente em Belo Horizonte, naquele tempo.

MARCOS

- Das missas dançantes do Minas Tênis e das putinhas enrustidas do Sion?

SILVIANO

- E dos porres do Pelicano e do Monjolo? (Com voz empostada.) Bezerrada, o negócio é o seguinte. O preço da égua é cento e vinte e aqui não tem paguinte.

 

Marcos e Silviano riem. Ulysses, sério, abana a cabeça.

 

ULYSSES

- Se eu pudesse voltar atrás...

MARCOS

- E pra quê? Voltar atrás...

ULYSSES

- Tô falando sério, Marcos. Pelo menos, não taria, agora, me questionando.

SILVIANO

- Questionando? Mas questionando o quê? Não ter levado porrada no DOPS? Eu também não levei, e não tô nem aí. Ulysses, essa coisada já passou. Já morreu. E, o pior, é que não resolveu merda nenhuma. Quem se danou, danou, e quem mamou, mamou.

ULYSSES

- Eu sei disso, Silviano.

SILVIANO

- Então?!

ULYSSES

- Mas, mesmo assim... Olha, uma coisa eu digo a você, Silviano. Se a gente não volta ao passado, nem que seja só pra lamentar o que não fez, a gente se fica sem raízes, entendeu?

MARCOS

- Foi isso que trouxe você a Congonhas? Ulysses...

 

SILVIANO (Ao mesmo tempo, rindo)

- E logo num ônibus da Cometa? Danou-se!

 

Ulysses não responde.

 

MARCOS

- Ulysses...

ULYSSES (Como se pensasse em voz alta)

- Foi num ônibus da Cometa que eu saí de Belo Horizonte, há mais de vinte anos.

 

37 - BAR DO CAMPO. INTERIOR. DIA.

 

Carioca e Preto entram. É um bar típico de cidade do interior. Garrafas de bebidas baratas nas prateleiras e vidros com balas e doces em cima do balcão, junto da caixa. No fundo, uma mesa de sinuca. O bar está vazio. Só dois bêbados bebem, num canto do balcão. Jofre está junto da caixa. Preto encosta-se no balcão, perto de Jofre.

 

PRETO

- Ô, porra...

JOFRE

- Eu não sou po...

PRETO (Cortando)

- Tu num é o quê?

JOFRE (Enfático)

- Meu nome é Jofre.

PRETO (A Carioca, rindo)

- Tu tá vendo? Essa porra tem nome.

CARIOCA (A Jofre)

- Duas branquinhas. Mas da boa.

PRETO

- Cadê o portuga?

JOFRE

- Portu...

PRETO (Cortando)

- É. O dono desta porra.

JOFRE

- Não é portuga. Chama Seu Nilo.

PRETO

- Seu Nilo? (A Carioca) O porra num é portuga, não?

JOFRE (Digno)

- Chama Seu Nilo.

CARIOCA

- A gente quer falar cum ele.

PRETO

- Que horas que...

JOFRE

- Não tem hora, não. Às vezes...

 

Preto agarra Jofre pela gola da camisa.

 

PRETO

- Num tem hora?

CARIOCA (A Preto)

- Ô...

 

Preto larga Jofre, que olha Carioca, tremendo. Carioca sorri e encolhe os ombros, como quem diz, não liga, e aponta a mesa de sinuca.

CARIOCA

- Dá prá gente... O meu amigo Preto é meio invocado, mas é gente boa.

PRETO

- Mas num dá bandeira, não. Senão, ó...

 

Preto abre a camisa e mostra o revólver na cintura. Jofre serve as cachaças, pega a caixa das bolas, debaixo do balcão, e entrega-a a Carioca.

 

CARIOCA (Bebendo)

- Quando esse tal de Seu Nilo chegar, diz que a gente quer falar cum ele.

PRETO (Bebendo)

- Mas se cuida, malandro. Se cuida. A gente num tem nada contra tu. (Frisando a palavra.) Ainda.

Carioca e Preto dirigem-se para a mesa de sinuca. Preto rindo e gingando o corpo, e Carioca, atrás, olhando Jofre.

 
 

 

 

 


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