CUNHA DE LEIRADELLA
O CIRCO DAS
QUALIDADES HUMANAS



Longa metragem

INDEX

Nota preliminar
Narrativas
Personagens (ordem alfabética)
Figuração
Perfil dos personagens

ROTEIRO:

01-15
16-18
19-25
26-32
33-34
35-37
38-40

41-43
44-45
46-50
51-58
59-62
63-67
68-70

71-72
73-79
80-83
84-91
92-101
102-110
111-121

 

33 - CASA DE BOSCO. SALA. INTERIOR. DIA.

 

Jussara e Marilene continuam conversando.

 

MARILENE

- Ah, Jussara! Às vezes, até parece...

JUSSARA (Agressiva)

- Parece, o quê?

 

Marilene não responde.

 

JUSSARA (Mesmo tom)

- Parece, o quê? Diz. Diz o quê que parece!

 

Marilene continua sem responder.

 

JUSSARA (Cínica)

- Sabe o quê que parece?

 

Marilene continua calada.

 

JUSSARA (Com força)

- Parece que é você que tá a fim! Ou pensa que eu não sei?!

 

Neste momento a porta abre e entram Antônio e Ulysses. Corta para Antônio e Ulysses, entrando.

 

ANTÔNIO

- Mas, então, se o amigo não veio passar férias, só pode ter vindo, mesmo, é matar saudades. Ou não?

ULYSSES (Embaraçado)

- É. Quer dizer, não é bem isso, mas...

 

Vê-se Marilene sorrir do embaraço de Ulysses. Ulysses nota e cala-se. Antônio puxa uma cadeira.

 

ANTÔNIO

- Vamos sentar. Vamos sentar.

 

Ulysses senta-se, constrangido.

 

ANTÔNIO

- Jussara, minha filha, arruma um cafézinho.

ULYSSES

- Não, não. Muito obrigado.

ANTÔNIO (Fazendo o gesto característico)

- Nem uma... Tenho uma aí...

ULYSSES

- Não. Não. Muito obrigado.

ANTÔNIO

- Bom. Como diz o outro, gosto é gosto, e já não tá mais aqui quem falou.

 

Antônio puxa uma cadeira e senta-se.

 

ANTÔNIO

- Mas quer dizer, então, que o amigo, desta vez, só veio, mesmo, matar saudades...

ULYSSES

- É. Quer dizer...

 

ANTÔNIO (Cortando)

- Eu só perguntei porque, muito raro, o amigo aparece por aqui.

ULYSSES

- É. Já faz tempo, mesmo, que...

ANTÔNIO (Continuando)

- Eu imagino o que seja a vida por lá. Aquele corre-corre, aqueles tiros, aquela...

 

Neste momento, a porta abre, com estrondo, e entra Janaína, esbaforida.

 

JANAÍNA (Ofegando)

- Seu Antônio! Seu Antônio! Mijaram no santinho e deram cabo dele!

ANTÔNIO (Com espanto)

- Mi...

JANAÍNA (Ao mesmo tempo e mesmo tom)

- No santo lá do trevo, Seu Antônio!

 

Antônio abre a boca, mas não consegue falar, de tão espantado.

 

JUSSARA

- Credo, Janaína!

MARILENE

- Meu Deus!

JANAÍNA

- O Senhor me perdoe se peco, mas aquele desgraçado merece, mesmo, é penar nas profundas do inferno! Saiu do carro, mijou no santo e acabou com ele a tiros!

 

Todos se olham, chocados. Só Ulysses não se choca. Antes pelo contrário, esconde um sorriso, como se o susto dos outros amenizasse o seu constrangimento.

 

ANTÔNIO (Procurando refazer-se)

- E quando que...

JANAÍNA

- Agora, agora, Seu Antônio! Ai, que susto que eu levei, meu Deus do céu!

JUSSARA

- Janaína, você tem certeza?

JANAÍNA

- Claro que eu tenho! Eu vi, Jussara! Eu vi e a meninada também viu! Primeiro, mijou no santo, e, depois, foi aquela assombração!

 

Antônio, trêmulo, levanta-se, num gesto brusco.

 

ANTÔNIO

- Só matando! Só matando mesmo!

JUSSARA

- Credo, meu pai!

ANTÔNIO (A Ulysses)

- Eu sou contra qualquer tipo de violência, o senhor me conhece. Mas, numa hora destas...

ULYSSES

- Mas aquela estátua...

ANTÔNIO (Cortando, enfático)

- Meu amigo, pra quem tem fé...

 

Neste momento, a porta abre e entra Geralda.

 

GERALDA (Sem reparar em Ulysses)

- Antônio, Bosco chegou.

 

Geralda volta-se e puxa Bosco pela mão.

 

GERALDA

- Entra, meu filho, e peça a benção a seu pai.

 

Corta para Bosco, parado na porta, olhando o pai fixamente. Passa-se algum tempo e Bosco dá um passo. Nota-se a ansiedade estampada no seu rosto.

 

BOSCO

- Pai...

ANTÔNIO (Brusco, a Ulysses)

- Com licença.

 

Antônio passa por Bosco, com passos rápidos e sai, sem o olhar. Geralda nota Ulysses, olhando para Bosco, e fica sem saber o que dizer, totalmente constrangida. Ulysses, também constrangido, dirige-se para a porta.

 

34 - CASA DA TIA PRISCILIANA. COZINHA. INTERIOR. DIA

 

Prisciliana e Laurentina preparam o almoço num fogão a lenha. Ulysses, sentado num banco, fuma e olha as duas. Prisciliana mexe dentro de uma panela com uma colher de pau. Nota-se, pelo seu comportamento, que Laurentina sempre gostou de Ulysses. Ainda que furtivamente, não pára de olhar para ele.

 

PRISCILIANA (Provando o conteúdo da panela)

- Mas que idéia foi essa de vir de ônibus, meu filho? Um homem como você, agora, andar de ônibus? Isso é lá coisa que se faça, Ulysses?

 

Prisciliana prova outra vez o conteúdo da panela, joga duas pitadas de sal dentro e olha Ulysses.

 

PRISCILIANA

- Brigou com a Ziza, foi?

ULYSSES

- Ah, tia, que Ziza, que nada! Ziza já tá é...

PRISCILIANA (Com espanto)

- Ziza, o quê?

ULYSSES

- A gente separou, tia. E Ziza casou até com um grande amigo meu. Mas, o ônibus, fui eu que quis. Me deu vontade. Fazia anos que não andava mais de ônibus, entende?

LAURENTINA

- Esses ônibus são um perigo, Ulysses!

ULYSSES

- Perigo, nada, Laurentina. Avião também cai. E, além do mais, desta vez, eu...

 

Ulysses cala-se, de repente, e fixa os olhos no fogão. Fica assim alguns instantes, respira fundo e olha Prisciliana, já sorrindo.

 

ULYSSES

- Tia, a senhora lembra como é que eu saí daqui, há trinta anos? Foi de ônibus. E vou lhe dizer mais. Nunca mais esqueci aquele ônibus. Até hoje...

PRISCILIANA

- Mas, naquele tempo, você ainda era rapaz, Ulysses.

 

ULYSSES

- Tia, tia! A gente só envelhece quando esquece!

PRISCILIANA

- Mesmo assim. E, depois, também devia ter avisado que vinha. (A Laurentina.) Ficava aqui, como ficou das outras vezes. (A Ulysses.) A casa não mudou, não, viu?

LAURENTINA

- Ah, mãe, a senhora conhece Ulysses. Sempre foi de repentes.

ULYSSES

- Os repentes é que fazem a gente se sentir vivo, Laurentina. Se você soubesse como é que é a vida de professor... Todo mundo pensa que é um paraíso, mas só a gente é que sabe, viu?

 

Ulysses cala-se. Levanta-se e anda até à janela. Joga o cigarro fora e olha a rua durante alguns instantes.

 

PRISCILIANA

- Ulysses...

 

Ulysses continua olhando a rua, sem escutar. Prisciliana olha Laurentina e sorri, num gesto cúmplice.

 

ULYSSES

- Tia. Tia!

PRISCILIANA

- O que foi, meu filho?

ULYSSES

- Vem cá! Vem cá! Rápido!

 

Prisciliana e Laurentina correm para a janela. Com gestos nervosos, Ulysses aponta alguém na rua. A câmera segue o olhar de Ulysses. É uma mulher. Close rápido do rosto.

 

ULYSSES

- Quem é? Parece que eu conheço. E parece que ela também me conheceu. Pelo menos, me olhou de um jeito... Quem é, hem?

PRISCILIANA

- Você já esqueceu, Ulysses?

LAURENTINA

- É Darcília.

ULYSSES (Tentando lembrar)

- Darcília?

PRISCILIANA

- A sua primeira namorada, meu filho.

LAURENTINA (Com ênfase)

- Já tem até filhos homens, Ulysses!

 

Ulysses não diz nada. Prisciliana e Laurentina olham-no. O rosto está vincado e uma melancolia enorme toma conta dele.

 
 

 

 

 


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