JOÃO GARÇÃO

De “OS VERSOS DO ZÉ POVÃO”

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Solfejo

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A Raul Proença

SOLFEJO

Meu menino, ino, ino

meu menino do cinzel

Se olhares para o horizonte

verás S. Pedro de Muel

 

Meu menino, meu menino

meu menino do Choupal

Se olhares para o oceano

tu verás o Cadaval

 

Meu menino, meninão

meu menino da pistola

Se olhares p’ra dentro dum morto

verás Moçambique e Angola

 

Verás o não e o sim

meu menino face preta

Se olhares para a tua imagem

‘starás no céu da Fuzeta

 

Num almoço ao pé do Douro

lá p’ró norte do país

Se olhares p’ra cima do mundo

cair-te-á o nariz

 

E se fores ao Estoril

a S.Roque e a Albufeira

um fantasma aparecerá

de repente à tua beira

 

Meu menino, ino, ino

meu menino desgraçado

Se olhares para tudo o resto

ficarás do outro lado

 

Entre um ponto circunflexo

um parêntesis e um til

Se souberes todas as letras

descobrirás o Brasil

 

Meu menino, meninote

meu menino brincalhão

Se não andares num fagote

perderás o coração

 

E hão-de partir-te a cabeça

meu menino, minha estrela

Se olhares p’ra baixo da morte

não poderás fugir dela.

 

Toma cuidado, menino

ao chegar e ao partir

Se não procurares a Vida

nem dela poderás fugir!

 
 

 




 



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