JOÃO GARÇÃO

De “OS VERSOS DO ZÉ POVÃO”

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Solfejo

Sentimento

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Outrora

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Estante

A Raul Proença

OUTRORA

Ficava lá ao longe aquela serra. Ficava

ao longe muito perto da minha janela e do quintal

da madrinha Francisca. Ficava

entre as laranjeiras do quintal e às vezes

era de noite, lá estaria

pensava eu. Às vezes eu

pensava se haveria serras assim noutros lugares, mas

nem sabia que era uma serra. Lá estava entre os pinheiros

da estrada da volta à serra, que era uma outra

mais pequena ou seja

muito maior porque era mais perto e eu

ainda não sabia perspectiva

nem matemática, nem

sequer geografia: mas conhecia bem

a loja do senhor Buxita e dali

a serra à tarde encontrava-a por cima da prateleira

dos rebuçados de frutas.

 

A serra agora

ainda está no mesmo sítio, mas como em geral vou

de carro, a serra sempre a vejo junto do espelho

retrovisor e como escolho sempre a estrada

da piscina do Reguengo, a serra fica entre oliveiras e

também já a vi

entre as folhas e os ouriços dos castanheiros no outono

 

Como daquela vez há anos quando fui tirar

um retrato no dia

do baptizado do meu irmão perto daquela fonte

 

da fonte da Nave Fria e ele chorou.

 
 

 




 



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