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ANTÓNIO
DE MACEDO

FREI GIL FAUSTIANO
OU FAUSTO EGIDIANO?
ÍNDICE
8. Amor — Poder — Ciência

No exemplum de Teófilo deparamos com dois aspectos que voltaremos a encontrar na legenda de S. Frei Gil: o pacto assinado com o próprio sangue e a posterior intercessão salvífica da Virgem Maria. Há porém uma componente fundamental na legenda de Frei Gil, que, segundo a minha óptica, irá repercutir-se mais tarde na lenda do Doutor Fausto, e que é a componente da scientia, de certo modo ausente nos anteriores exempla.

Para assentar ideias, recapitulemos os três principais modos relacionais que desde os tempos clássicos e pagãos se apresentam entre os seres humanos e o mundo (mundus): AMOR (amor), PODER (potestas, imperium), CIÊNCIA (scientia), que, na sua oitava mais elevada, traduzem, segundo Platão, as três manifestações divinas por excelência: a Ciência ou Sabedoria divina, o Poder divino e o divino Amor — que se articulam da seguinte maneira: a Ciência divina, por meio do Poder divino, exprime o divino Amor na obra da Criação.

Na homilética eclesiástica medieval o amor é sobretudo associado à flamma amoris e ao spiritus fornicationis, ou seja, o amor carnal, nos antípodas do amor cristão a que Paulo e João chamam agapê, em grego, e que Jerónimo, na sua Vulgata, hesitou em traduzir pelo termo latino amor, amoris, excessivamente conotado com o amor pagão, preferindo cunhar algo de mais expressivo. Assim, pegou no substantivo caritas, caritatis, que significa a «qualidade daquele que é caro, ou querido» (caritas vem de carus, -a, -um, que significa precisamente «caro, querido»), e pincelou-a com um cheirinho do termo grego charis, charitos, que significa «graça», originando o curioso termo latino charitas, -atis, que tanto na Vulgata como noutros autores eclesiasticos passou a designar o sublime e excelso amor cristão, hoje mal traduzido por «caridade».

Aquele amor, -oris mundano, em quanto expressão da luxúria, muitas vezes associado à ingluvies ventris (gula), era um dos temas recorrentes de tentação apresentado nos contos exemplares medievais:

«A tentação (ou tentações) oferecida aos olhos e aos sentimentos dos eremitas ou dos monges tem sobretudo uma conotação carnal e faz sempre referência ao mundus que eles abandonaram ao escolher o deserto ou o cenóbio. Todos os pecados que estes homens pios tentam por todos os meios evitar fazem parte de uma verdadeira classificação, estabelecida aos poucos durante a Era Cristã Antiga e durante muito tempo confinada ao ambiente monástico e ascético do Egipto, recebendo ao mesmo tempo consideráveis influências por parte do Gnosticismo» (Pilosu 1995, p. 45).

Encontramos assim exemplos de dois tipos, respeitantes à tentação das delectationes venereorum : o da mulher concupiscente que tenta seduzir um homem santo (como nas muitas legendas de eremitas de que uma das mais conhecidas é a Vita de Santo Antão), ou o do homem concupiscente que tenta seduzir uma virtuosa donzela (como nos citados exempla do servo de Proterius e de Cipriano).

Por sua vez a tentação do poder, ou do mando (potestas), aliada à soberba que se disfarça de falsa modéstia, vimo-la exemplificada na legenda de Teófilo.

Por último o desejo de saber, ou de dominar os conhecimentos e as ciências dos mundos visíveis e invisíveis (scientia) constitui o cerne da lenda de S. Frei Gil e mais tarde do Doutor Fausto.

Amor, potestas, scientia : por trás destas três formas de tentação encontra-se obviamente o Diabo. A mais poderosa será sem dúvida a última, que, através do conhecimento e do domínio das diversas artes (e sobretudo da «Arte Mágica», ponto fulcral tanto em Frei Gil como em Fausto), facilmente permite o acesso à potestas e ao amor. Nos capítulos 2, 3 e 4 do Génesis aprendemos que Adão e Eva, instigados pela serpente, só depois de terem comido o fruto da árvore da ciência do bem e do mal (lignum scientiae boni et mali, Gen 2, 8.17), é que se conheceram carnalmente (amor), donde resultou o nascimento de Caim e Abel. Finalmente de Caim descenderam os artífices, os criadores e os inventores (Gen 4, 17-24) que acabaram por se assenhorear do domínio do mundo (potestas, imperium).

 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


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