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ANTÓNIO
DE MACEDO

FREI GIL FAUSTIANO
OU FAUSTO EGIDIANO?
ÍNDICE
2. Frei Gil e o «nosso» Fausto
— Teófilo Braga e o «nosso» Goethe

Enfim, passemos por alto estes extravios e retomemos o fio da história. Dizia eu que desde a minha juventude me fascinara com as mirabolâncias de Frei Gil de Santarém, «santo feiticeiro, antigo pactuário do Demónio», como lhe chamou Camilo Castelo Branco no capítulo X do seu romance O Esqueleto (1865). Nesses meus tempos de frequência estudantil da Biblioteca Nacional, antes das restrições etárias, pecuniárias e outras, recordo-me que um dos alfarrábios onde me entretive a averiguar pingues informações sobre Frei Gil foi um calhamaço intitulado Primeira Parte da História de S. Domingos particular do Reino e conquistas de Portugal (1623), escrita pelo dominicano Frei Luís de Sousa (1555-1632), em cujo Livro Segundo, Capítulos XIII a XXXV, as tremendas aventuras e andanças do «santo feiticeiro» são esmiuçadas com palpitantes pormenores. Desconfio que foi também por este cartapácio que Almeida Garrett teve o seu primeiro encontro com Frei Gil — é o que deduzo do que ele refere no capítulo XXXIX das suas Viagens na Minha Terra (1846):

«Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno — diz Almeida Garrett — quando me faziam ler a História de S. Domingos, tão rabugenta e sensabor às vezes, apesar do encantado estilo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros capítulos, para ler e reler somente as aventuras do santo feiticeiro, que tanto me interessavam».

Suspeito que se deve a Almeida Garrett a infeliz ideia da dependência, para não dizer submissão, da lenda de Frei Gil à lenda do Doutor Fausto, ele assim o proclama bem alto em pelo menos duas ocasiões no mesmo livro, referindo-se a S. Frei Gil:

« […] [D]epois o [convento] de S. Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto português — seja dito sem irreverência à memória de S. Frei Gil que, é verdade, veio a ser grande santo, mas que primeiro foi grande bruxo» (capítulo XXVII), e «Algures lhe chamei já o nosso Doutor Fausto; e é com efeito. Não lhe falta senão o seu Goethe» (capítulo XXXIX).

Ora, não estou nada de acordo, e mais adiante tentarei explicar porquê.

De qualquer modo, esta servil e impatriótica opinião pegou fogacho como um rastilho de bicha de rabear, e tem vindo a ser perfilhada e repetida por insignes autores. Um deles foi Teófilo Braga, que deve ter lido e relido Almeida Garrett e levou a sério aquela coisa de só faltar um Goethe ao nosso Frei Gil, e ele, Teófilo, não esteve com meias medidas e decidiu armar-se em Goethe do dito, certamente para corresponder ao garrettiano e entusiástico apelo que encontramos mais adiante no supracitado capítulo XXXIX das Viagens :

«Nós precisamos de quem nos cante as admiráveis lutas — ora cómicas, ora tremendas — do nosso Frei Gil de Santarém com o Diabo. O que eu fiz na Dona Branca é pouco e mal esboçado à pressa. O grande mago lusitano não aparece ali senão episodicamente; e é necessário que apareça como protagonista de uma grande acção, pintada em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a luz do quadro».

 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


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