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ANTÓNIO
DE MACEDO

FREI GIL FAUSTIANO
OU FAUSTO EGIDIANO?
ÍNDICE
9. As precedências racionais da occulta philosophia

A ideia de associar a ciência à luciferina serpente é portanto muito antiga, como vemos desde logo no primeiro livro do Antigo Testamento. Ao longo dos primeiros séculos do cristianismo e da Idade Média deparamos com vários exemplos lendários desse mito.

Um dos mais conhecidos é o do bispo Gerbert de Aurillac que no ano 999 foi eleito Papa, tendo adoptado então o nome de Silvestre II. Provavelmente muito do mistério de que esta personagem está rodeada ficou a dever-se ao facto de ser o «Papa do ano 1000» (morreu em 1003), além de que, segundo se diz,cresceu numa França onde floresciam a «religião das fadas» e os cultos druídicos, pois não podemos esquecer que em Rouen ainda

se veneravam Diana e Afrodite e os vergéis e bosques da Deusa-Lua atraíram peregrinos até ao século XIV. A própria escolha do seu nome, em latim «Silvester» ou «Silvestris», que significa «florestal, silvestre, que vive nos bosques» também designava, cripticamente, o «espírito dos bosques» (vem do latim silva, «floresta, mata, bosque»), e dizia-se que tivera como amante uma fada chamada Meridiana (Maria-Diana) que lhe ensinou os segredos da Arte Mágica. Tendo sido levado para Espanha muito novo, estudou primeiro em Barcelona e depois em Córdova e Sevilha, onde aprendeu matemática e ciências naturais com reputados mestres árabes. Em 1099 o Cardeal Benno pôs a circular a lenda de que Gerbert tinha conseguido ascender ao trono papal por obra do Diabo, com quem fizera um pacto para esse efeito. Conta-se que foi ele quem introduziu os algarismos árabes na Europa ocidental, e que inventou o relógio de pêndulo.

Também foi em Espanha, não em Córdova mas em Toledo, que o nosso Frei Gil aprendeu as ciências ocultas:

«O encontro com o demónio na legenda egidiana processa-se em Toledo. Cidade prestigiada pela tradução e divulgação da ciência árabe, frequentada por gente de todas as proveniências, não era menos local fecundo em lendas, como a da Casa de Hércules (por cuja destruição o rei Rodrigo fica a conhecer a sorte que espera o seu reino) nem menos também tomado como lugar de referência de ocultismos» (Nascimento 1992, p. 21).

Neste período da história medieval, sobretudo a partir do século IX assiste-se ao disseminar da tradição hermética alexandrina pela expansão árabe (a tradução e divulgação pelos árabes do famoso Liber Hermetis exerceu uma grande influência esotérica na Europa durante a Idade Média) e à propagação da Cabala judaica a partir sobretudo dos fins do século XII — o primeiro tratado verdadeiramente cabalístico, o Sefer ha-Bahir (ca. 1170-90), desenvolveu e codificou a simbologia das sefiroth esboçada no antigo Sefer Yetzirah e foi o arranque divulgador da Cabala na Europa medieval. Em paralelo, multiplicam-se as lendas em que o pacto com o Diabo já não se relaciona apenas com a gratificação dos apetites carnais mas sobretudo com o imoderado desejo de ter acesso aos «conhecimentos secretos», originando uma fácil associação entre a scientia e o demoníaco — o que no fundo talvez constitua uma curiosa forma de advertência para com os perigos inerentes a uma má ou incontrolada utilização dos «segredos científicos».

Esta curiosa mistura de «racionalidade» e de «ocultismo» é típica desta época fervilhante de ideias, de culturas cruzadas, de interrogações, de anseios, a que o historiador Jacques Le Goff chamou «Idade Média central» (que vai sensivelmente do ano 1000 até à grande epidemia de peste, em 1348). Parece mais apropriada esta designação, em todo o caso, do que «Primeira Renascença» ou «Primeiro Renascimento» como se dizia no tempo de Teófilo Braga, expressão que hoje tem outro significado, de acordo com a subdivisão proposta pelos historiadores para balizar os limites do Renascimento: Pré-Renascimento (« Trecento »), Primeiro Renascimento (« Quattrocento »), Alto Renascimento (« Cinquecento »).

Durante a «Idade Média central» a ciência, a teologia, a tecnologia, a magia, a filosofia entrelaçam-se numa sociedade fortemente estruturada, próspera e em expansão no Ocidente: surgiram, quase ao mesmo tempo, os Templários com os seus conhecimentos iniciáticos, os Cátaros e a sua revolução espiritual (pneumática e gnóstica) levada à mais extrema intransigência, a Ordem dos Trovadores e a sua misteriosa conexão com os Fiéis do Amor e a sua «Langue d’Amour», por um lado, e por outro com os Cavaleiros do Amor ou «Chevaliers Errants», mal traduzidos por «andantes»: a Igreja alcunhava-os de errants não porque vagueassem mas porque «erravam» ao opor-se ao dogmatismo de Roma; por sua vez proliferaram as ordens secretas de construtores («maçons operativos») que inventaram a manivela, o duplo sarilho, o berbequim e a pua, o carrinho de mão, o arcobotante, os encadeamentos de rodas dentadas para aproveitamento da energia da água… e muito mais… com o que se puderam construir as grandes catedrais góticas que ainda hoje não desvendaram a totalidade dos seus segredos; finalmente, mas não por último, a imperante Igreja Católica tratou de consolidar juridicamente a imposição dos seus dogmas às consciências através do tribunal da Inquisição (1231).

Pelo lado mais racionalizante, deparamos com um Anselmo de Canterbury (1033-1109), que, ao escrever o seu Proslogium em 1077, deu uma resposta imprevista a uma das mais antigas perguntas do homem com o seu famoso «Argumento Ontológico», além de ter estruturado a interconexão da «visão racional» com a fé: « Credo, ut intelligam »; S. Bernardo de Claraval (1090-1153) desenvolveu uma teoria do amor místico que respondeu a todas as perguntas da época sobre o tema e perdurou séculos; a disputa sobre os universais teve o seu desfecho com a resposta de Pedro Abelardo (1079-1142) e do seu sistema de Lógica, contra as teses opostas dos Realistas e dos Nominalistas; o famoso Robert Grosseteste (1175-1253), matemático e físico, mestre de Roger Bacon e professor em Oxford, no seu tratado De luce, de 1220, apresenta a luz como o básico impulso criativo do espaço e da matéria, e desencadeia a pergunta que deu origem a todas as subsequências da física experimental: «O que é o Arco-Íris?» (nem precisamos de recordar a importância que os fotões tiveram na origem e formação do universo); as observações e as descobertas de Alberto Magno (1193-1280) deram um avanço sem precedentes à Botânica, à Zoologia, à Mineralogia; Tomás de Aquino (ca.1225-1274) construiu um monumento de racionalização teológica que ainda hoje subtém muita da doutrina oficial da Igreja; Roger Bacon (1214-1294) utilizou o método matemático para as ciências naturais e introduziu pela primeira vez o conceito de «ciência experimental»…

Por bem ou por mal, foi este o tremendo oxigénio que respirou o estudante Gil Rodrigues de Valadares, súbdito fidalgo da Corte do nosso rei D. Sancho I, que partiu à aventura para Paris a fim de estudar Medicina — com um desvio de sete anos por Toledo, nas famigeradas Grutas Mágicas! — e acabou enredado nas manivérsias do seu lendário pacto com o Diabo, antes de se arrepender mais tarde e de vir a tornar-se S. Frei Gil de Santarém.

 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


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