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ANTÓNIO
DE MACEDO

FREI GIL FAUSTIANO
OU FAUSTO EGIDIANO?
ÍNDICE
3. As ambições de Teófilo Braga e o milagre de Santo António

Devo reconhecer que é preciso uma envergadura de peso para fazer o que fez Teófilo Braga: pegou na lenda de Frei Gil e retrabalhou-a com uma estrutura e um desenvolvimento análogos aos do Fausto goethiano, uma densa e prolixa encenação dramática em verso rimado, recheada de lances e de dissertações esotérico-filosóficas. O exemplar que tenho à minha frente, uma 1.ª edição de 1905 da Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, tem nada menos de 376 páginas e exibe como título Frei Gil de Santarém, a que Teófilo acrescentou o subtítulo Lenda faustiana da Primeira Renascença. Ora aí está, a desastrada submissão ao Fausto! Teófilo não esconde as suas ambições quando diz no prefácio, a que chamou «Ideia do Poema», que aquelas palavras de Garrett — que cita sublinhando em itálico: « é necessário que apareça como protagonista de uma grande acção, pintada em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a luz do quadro » — constituem uma «valiosa sugestão», e acrescenta:

«Garrett compreendeu admiravelmente a forma artística como devia ser tratado este tema […]. O quadro não carecia de ser inventado, constitui uma esplêndida época histórica; a grande acção é a queda de um rei ante o poder teocrático. Faltava só vivificar estes elementos reais em uma síntese poética, seguindo a fase universalista da arte» (Braga 1905, p. XXIII).

Como não sou crítico literário, deixo para outros mais competentes do que eu a espinhosa tarefa de decidir se o portentoso feito de Teófilo foi ou não coroado de substantivo sucesso, e se alcançou ou não os píncaros olímpicos da «síntese poética» e da «fase universalista da arte». No que me toca, estou plenamente de acordo com Maria Estela Guedes, que, no seu estimulante estudo sobre S. Frei Gil, um Santo Carbonário, em linha no TriploV, diz no capítulo 5, entre outras e sugestivas coisas:

«O S. Frei Gil de Teófilo é um tratado sobre a cultura medieval, com o amor cortês, votado à dama e a Nossa Senhora, perseguido como heresia, pois o Amor é nela mais forte do que o Verbo. Este Amor é um anagrama de Roma, funcionando como assinatura dos Fiéis do Amor, os que se opunham à Igreja de Roma. Todo o livro, de resto, é joanino, o que nos leva para as regiões do Espírito Santo, de Joaquim de Fiore, etc.»

E, claro, não só: além do heterodoxo Espírito Santo dos Spirituali, lá encontramos também a Alquimia, as heresias cátaras, as iniciações mistéricas na Irmandade do Livre Espírito, as fórmulas Herméticas, os tratados de Magia… Sobre a iniciação do santo feiticeiro na Maçonaria Florestal Carbonária não me pronuncio porque não sei, limito-me a acreditar, mas não me parece nada mal visto: pelo menos, se non è vero è bene trovato

O meu namoro com Frei Gil foi circulando ao longo dos anos, com intermitências ora de espertina ora de letargo e uns apontamentos daqui ou dali, de vez em quando. Depois ficou em banho-maria durante uma porção de tempo até que nos anos 90 do passado século XX — mais concretamente em 1994 — o entusiasmo se me reacendeu, em sequência de um telefilme documental sobre Santo António que comecei a preparar nesse ano e que realizei no ano seguinte no âmbito das «Comemorações do 8.º Centenário do Nascimento de Santo António de Lisboa», em 1995, e que me levou a viajar, com a equipa de filmagem, pela turbulenta época (século XIII) e pelos locais onde pregaram Santo António, S. Francisco e S. Domingos. Digo-vos que foi uma marcante experiência, reviver, para o meu antonino filme, o choque entre a «ortodoxia» de Roma e as «heresias» cátaras e outras, choque vivido diversamente por aqueles três influentes santos e por outros não menos notáveis heréticos. Inevitavelmente vieram à superfície os actos e os feitos de Frei Gil, contemporâneo destas agitações, e logo ali decidi reunir o material que já havia acumulado mais o que pudesse investigar em acréscimo, a fim de poder fazer um outro filme, e est’outro, já agora, sobre essa tão perturbante e lusitana figura como foi a de S. Frei Gil de Santarém. Et voilà! Uma inspiração destas, só podia ter sido milagre de Santo António.

 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


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