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ANTÓNIO
DE MACEDO

FREI GIL FAUSTIANO
OU FAUSTO EGIDIANO?
ÍNDICE
10. A medieval excelência da «Arte Mágica»

As motivações que levaram Gil Rodrigues a agarrar-se avidamente ao saber, à scientia, a ponto de comprometer a sua salvação espiritual para satisfazer esse anseio, têm sido diversamente interpretradas pelos autores. Frei Luís de Sousa, que escreveu no século XVII, achou que havia maroteira nas intenções do jovem estudante: «Não falta quem diga que a razão de se aplicar ao estudo da Medicina, ainda que então não era indigno de gente ilustre, fora com [o] fim pouco honesto de poder entrar em muitas casas, e penetrar como médico, onde como mancebo e nobre achava tudo cerrado e tímido» (Sousa 1977, p. 177). Seria pois uma maneira de se infiltrar nas alcovas de damas e donzelas e sondar-lhes as intimidades, a coberto da severa dignidade de facultativo! Bom, não sei onde é que Frei Luís de Sousa foi buscar esta ideia, as anteriores biografias de Frei Gil, como por exemplo a Vita Beati Gilii Sanctarenensis (1537), de Frei Baltazar de S. João, ficam-se pela intenção de se devotar, desde muito novo, ao estudo e à aquisição de profundos e sérios saberes: «…isola-se do convívio dos outros jovens, entrega-se inteiramente ao exercício das letras, põe de lado a loquacidade capciosa em que os outros adolescentes encontram particular deleite, abebera-se em ciência sólida […solidam sibi hauriebat scientiam…]…» (Nascimento 1982, pp. 26-27).

Quando Gil Rodrigues viajava através de Espanha a caminho da Universidade de Paris, o Diabo apareceu-lhe em forma de gente e facilmente o aliciou, fingindo-se amigo dele, com o engodo da ciência e do conhecimento, e convenceu-o a ir estudar Magia para as Grutas de Toledo, dizendo-lhe, entre outras coisas: — «Que não fora mau termo inclinar à profissão de médico, para com roupas largas ir possuindo rendas eclesiásticas: mas para ser famoso no mundo, e juntamente ver e alcançar muitas coisas de gosto, e grandes boas venturas, havia ciência mais poderosa que a Medicina, e menos custosa de aprender. E perguntado qual era, respondia que a Arte Mágica era só a que podia fazer um homem estimado nas Cortes, valido dos reis, e, de todo o resto do mundo, quase absoluto senhor» (Sousa 1977, ibid.).

 

 

A ideia (diabólica) de que a «Arte Mágica» ocupa o primeiro lugar entre as demais ciências e é como que a guia de todas as outras, já a encontramos consignada em Frei Baltazar de S. João: «…multo potius inter scientiarum genera illam comparare opportet quae omnibus alijs praeeminet et antecellit; …habere scientiam quae velut ductrix aliarum habeatur» (Nascimento 1982, pp. 30-31).

A época de Gil Rodrigues marca a transição de um arquétipo da insatisfação humana frente às limitações da vida terráquea: o pacto com o Diabo transita de um modelo que busca o conforto físico e a paixão erótica, para um modelo mais sofisticado que compreende a busca do saber filosófico e do conhecimento científico. Em Gil Rodrigues as duas motivações ainda se entrelaçam, ao passo que em Fausto a primeira atenua-se e a última prevalece.

Que influência teria tido a lenda de Frei Gil sobre a posterior lenda do Doutor Fausto? O Prof. Aires Augusto Nascimento deixa no ar essa sugestão: «A lenda de Frei Gil […] tem sido apontada como produto autóctone e como anticipação da própria lenda de Fausto» (Nascimento 1992, p. 14). A lenda de Frei Gil surgiu muito cedo, logo no século XIII, talvez ainda em vida do «santo feiticeiro» ou pouco depois da sua morte, a ajuizar pela referência que encontramos na biografia que dele deixou o nosso humanista André de Resende (ca. 1500-1573): teria existido uma Vita da autoria de um dominicano contemporâneo de Frei Gil, do qual dominicano diz Resende que era «um indivíduo honesto e devoto que, ao que parece, não só conviveu com o varão de Deus, Gil, quando este ainda era vivo, como foi testemunha ocular da sua admirável vida» [«…probo sane et religioso viro qui, quantum apparet, virum Dei Aegidium adhuc in humanis agentem non modo familiariter novisset, verum etiam testis oculatus admirabilis vitae eius fuerit» — Aegidius Scallabitanus, «Praefatio»] ( Pereira 2000, pp. 294-295).

André de Resende deparou com essa legenda prima num velho códice (que posteriormente se perdeu e hoje não existe) pertencente ao convento de S. Domingos de Santarém, e relata que nessa Vita do século XIII já se contam os prodígios atribuídos à vida miraculosa de Frei Gil, com numerosas citações de casos e testemunhas idóneas e identificadas.

Entretanto, a partir do século XV observamos na Europa uma nova onda de agitação simultaneamente intelectual e mística, que vai influenciar por sua vez o surgimento da lenda do Doutor Fausto no século XVI.

 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


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