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ANTÓNIO
DE MACEDO

FREI GIL FAUSTIANO
OU FAUSTO EGIDIANO?
ÍNDICE
5. O anti-Baptismo do escravo de Proterius e a «batota» cristã

Comecemos por notar que este modelo é típico da tradição cristã, o da «conversão em exclusividade». No paganismo podiam-se perfilhar diversas religiões, diversas divindades e diversos cultos, sem contradição nem estranhezas: um iniciado nos mistérios Isíacos ou nos mistérios Órficos podia ser iniciado também nos mistérios Eleusinos, nos Dionisíacos ou nos de Mithra, nos mistérios Fenícios ou nos Cabírios, não precisava de repudiar os primeiros para aderir aos seguintes. Quando uma pessoa se mudava de uma cidade para outra, por exemplo, era normal e natural adoptar o culto e os deuses da nova cidade. Já no cristianismo o modelo era severamente distinto: uma vez alcançada a «conversão», pelo Baptismo, o compromisso com Cristo implicava o automático e terminante repúdio de todo e qualquer outro culto, que caía ipso facto sob a alçada de Satanás — os deuses do paganismo não podiam ser senão demónios e espíritos malignos.

Por outras palavras: o «pacto com o Diabo» é o contra-modelo negro do Baptismo. O compromisso do Baptismo implica o repúdio de Satanás e das suas obras, tal como vem explícito no ritual sancionado pelo Concílio de Trento: o recipiendário (ou o padrinho em nome da criança) participa no seguinte diálogo («Exorcismo Solene»), em resposta às perguntas do sacerdote:

— … Abrenuntias Satanae? [Renuncias a Satanás?]

Abrenuntio. [Renuncio]

Et omnibus operibus eius? [E a todas as suas obras?]

Abrenuntio. [Renuncio]

Et omnibus pompis eius? [E a todas as suas pompas?]

Abrenuntio. [Renuncio]

Por outro lado o «pacto com o Diabo», sendo um anti-Baptismo, implica o correlativo repúdio de Cristo, da Cruz e da Igreja, com expressões formulaicas semelhantes mas de sentido inverso.

Dizem os estudiosos destas profundas matérias que o primeiro exemplo de um «pacto com o Diabo» na era cristã, registado literariamentre, ocorreu no século IV, com intervenção salvífica de S. Basílio Magno (330-379 d.C.), bispo de Cesareia. O senador Proterius de Cesareia tinha um filha única, muito bela e graciosa, que desejava conservar a virgindade e entregar-se à vida consagrada a Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta história vem associada à «legenda» de S. Basílio, tal como é narrada na famosa Legenda sanctorum, mais conhecida por Legenda aurea, da autoria de Jacobus de Voragine (1230-1298), arcebispo de Génova, que a partir de 1264 se dedicou a escrever uma enxundiosa compilação das vidas e dos milagres dos santos, obra que gozou de grande prestígio e popularidade durante séculos e que depois foi acrescentada por outros autores. Nela se conta que «o inimigo da espécie humana, tendo conhecido a resolução da jovem, fez com que um dos servos do senador [Voragine chama-lhe Heradius] se abrasasse de amores por ela» (Voragine 1900, vol. 2, pp. 115 segs.). O servo, compreendendo que a sua condição de escravo não lhe permitia alimentar ilusões acerca da donzela, foi ter com um feiticeiro que acedeu ajudá-lo e que escreveu um carta dirigida ao Diabo, seu mestre; em seguida o feiticeiro aconselhou o servo a ir de noite ao cemitério e que lançasse a carta ao ar e invocasse o demónio, e tudo isto sobre a sepultura dum pagão:

«E o príncipe das trevas veio, rodeado por uma multidão de diabos; e quando apanhou a carta disse ao jovem servo: “Crês em mim, para que eu cumpra a tua vontade?” E o servo disse: “Creio, senhor”. E o Diabo disse: “Renegas Jesus Cristo?” E ele disse: “Renego”. E o Diabo disse-lhe: “Vós outros, cristãos, sois uns batoteiros, porque quando tendes precisão de mim, vindes ter comigo, mas logo que obtendes o que desejais, renegais-me e regressais ao vosso Jesus Cristo; e ele acolhe-vos, porque é muito bondoso; mas se queres que eu faça a tua vontade, redige um escrito por tua própria mão no qual confessarás ter renunciado ao teu Baptismo e à profissão cristã, e reconhecer-te-ás como meu servo, sendo condenado comigo no dia do Juízo» (Voragine 1900, vol 2, ibid.).

Por aqui se delineiam já as principais características deste modelo: (1) o formulário semelhante ao do Baptismo mas de sentido inverso; (2) a confissão do Diabo que reconhece a ilimitada bondade de Jesus Cristo; (3) a precaução jurídica do contrato assinado por mão própria e que em lendas posteriores será reforçado com o sangue a servir de tinta.

A história continua e as peripécias sucedem-se, o Diabo chamou os «espíritos de fornicação» que inflamaram o coração da donzela pelo jovem servo, a tal ponto que ela morreria se não casase com ele, os pais dela não tiveram outro remédio senão consentir no malfadado casamento. Claro, passados os primeiros entusiasmos a coisa começou a correr mal, o rapaz deixara de frequentar a igreja com grande escândalo dos habitantes de Cesareia, e por fim os remorsos entraram a corroê-lo. Quem lhe valeu foi o bem-aventurado bispo Basílio a quem ele recorreu em desespero, e que à força de orações e de esconjuros, acompanhado por todo o clero que pôde reunir, lá conseguiu que o pergaminho com o demoníaco contrato lhe fosse devolvido; S. Basílio rasgou-o, perdoou o jovem, impôs-lhe certas regras de conduta cristã e disse-lhe que continuasse casado e em paz.

Pelo menos o truque resultou: à custa do Diabo o servo casou com a filha do patrão e continuou casado e feliz — sempre conseguiu o que queria, ir para a cama com a menina —, tendo no final recuperado a alminha com a batota da «conversão».

 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


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