powered by FreeFind

 

 

 





 


ANTÓNIO
DE MACEDO

FREI GIL FAUSTIANO
OU FAUSTO EGIDIANO?
ÍNDICE
14. Frei Gil faustiano ou Fausto egidiano?

E com isto se ata (ou desata!) o nó que encerra o ciclo: Fausto é o resultado pré-Iluminista da occulta philosophia de Frei Gil. O Faustbuch, donde saíram as principais dramatizações fáusticas (de Marlowe com a danação final de Fausto, e de Goethe com a sua final purificação e redenção), é uma consequência em travesti renascentista de toda uma concepção que já vinha da Idade Média, em que o «pacto com o Diabo» e o «compromisso de sangue» simbolizam as amarrações ansiosas de todo o ser humano simultaneamente inquiridor e desejoso de conhecimento perante a tentação dos horizontes desconhecidos (perigosos?), entrelaçando-se, ao mesmo tempo, com o telúrico fascínio, ou apelo, do eterno feminino (o ewig Weibliches goethiano), sinal e emblema da perene Mãe como da perene Amante, da Maria Virgem e da Maria Madalena, da Heresta e da Idouane de Gil Rodrigues, ou da Margarida e da Helena de Fausto.

O sentido do movimento não deixa lugar a dúvidas.

Fausto deriva de Frei Gil, e não o contrário.

Que sinal poderá ser, para a sensibilidade hodierna, o pacto de sangue de Gil ou de Fausto?

No tal romance egidiano que laboriosamente compus na sequência dum filme que não se fez, atrevi-me a apresentar uma humilde sugestão, que deixei resumida numa passagem que dá conta do seguinte diálogo entre o realizador do filme, Orlando, e algumas outras personagens:

«— Mas a situação é outra. Neste filme não há trovadores. Há o drama dum tipo que fez um pacto com o diabo e depois se arrependeu.

«— E daí? — disparou Alexandra, combativa.

«— Daí?! — Orlando inflamou-se: — É o drama de sempre! O que é o diabo senão o mundo grosseiro e poluído onde chafurdamos no nosso violento dia-a-dia? O mundo neurótico, ansioso e oportunista do trabalho sob pressão, do consumismo, do terrorismo urbano, da velocidade galopante, das prestações, do enfarte? Haverá pior diabo que este?

«Júlia, sorrindo, fingiu um bater de palmas:

«— Tens de repetir isso aos actores! É esse então o pacto?

«O realizador confirmou:

«— Evidentemente! É esse o pacto que o Gil Rodrigues, que somos todos nós, fazemos com os demónios do materialismo, e depois não sabemos como é que havemos de rasgar o pergaminho porque nele investimos todo o nosso sangue.» (Macedo 2004, p. 109).

 

Para uma bibliografia egidiana

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano