JULIA VALESCA PAIS:
"A noite é dos pássaros"

E OS PÁSSAROS POUSARAM SOBRE O MEU PAPEL - REFLEXÕES CRÍTICAS SOBRE O ROMANCE “A NOITE É DOS PÁSSAROS”

INDEX
Objetivo
Resumo
Sumário
INTRODUÇÃO
1 – Nicodemos Sena e sua fortuna crítica
2 – Hans Staden e Duas viagens ao Brasil
3 – Nicodemos Sena e A noite é dos pássaros
4 – Uma leitura comparada
         4.1 – O elemento religioso
         4.2 – O caráter de Alexandre Rodrigo Ferreira X Hans Staden
         4.3 – O relato dos costumes tribais
         4.4 – A diferença de gênero entre as obras
5 – A noite é dos pássaros e a Pós-Modernidade
         5.1 – O ecletismo estilístico em A noite é dos pássaros
         5.2 – A intertextualidade em A noite é dos pássaros
         5.3 – O  hibridismo em A noite é dos pássaros
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
ANEXO: ENTREVISTA COM NICODEMOS SENA

4.3 – O relato dos costumes tribais

          Os costumes tribais são muito bem relatados pelos dois autores. Nos dois livros a hospitalidade dos índios para com seus prisioneiros, a fauna, a flora e os rituais são expostos detalhadamente. Porém, por pertencer ao gênero ensaístico – como será explicitado mais adiante – Duas viagens ao Brasil mostra uma visão mais descritiva dos fatos, com um caráter fotográfico, se assim podemos dizer. A intenção do narrador – personagem é muito mais informar do que causar emoções, é como se estivesse fazendo um estudo científico. O autor dedica um livro inteiro às descrições dos costumes tribais; à fauna, à flora, às crenças, onde dormem os índios, ao que comem e bebem, como dançam, navegam, guerreiam, etc. Esses relatos de rituais do povo Tupinambá são divididos em capítulos. Toda essa riqueza de detalhes faz com que o livro tenha um caráter histórico de grande valor.
         Em A noite é dos pássaros, a descrição já é feita através da narrativa, ou seja, o autor aproveita-se dos recursos ficcionais para apresentar as mesmas descrições existentes no livro do alemão Hans Staden. A maneira como foi capturado, os mitos, os rituais, a fauna e a flora são expostos ao longo da narrativa através dos acontecimentos. No capítulo “Com o fiofó na seringa” o narrador descreve um ritual de cura indígena quando, Potira, aproveitando um momento de conversa com Alexandre, diz que vai curar as feridas dele.
“Tupã eicatu opacatu mbae monhanga” (Deus mostra-se bom fazendo todas as coisas). “Aerobiar Tupã” (confio em Deus). “Tupã cura”, completa Potira, pondo-se a encher os pulmões o mais que pode e, inflando as bochechas, sopra sobre a minha ferida. Apesar do esforço, faz isso com tanta leveza que eu nem sinto dor e até me distraio apreciando os tons violáceos que afloram na pele da rapariga (...).
Potira continua soprando, pois, segundo crêem os selvagens, o sopro, isto é, o ar insuflado nos seres, tonifica os organismos e dá-lhes vida. Tupã também, como Javé, fizera o primeiro homem do barro: pegou uma mão cheia de terra, amassou-a bem, modelou com ela uma figura de gente, soprou-lhe em seguida o nariz e deixou cair no chão, começando o boneco a engatinhar. Depois de soprar a região lesada, a minha pequena “piaga” (pajé), com a mesma delicadeza, passa a sugá-la, encovando as bochechas e puxando o pus para si, gargarejando e lançando fora em seguida, num só jato, entre a gosma e a pustema, com a mímica do vômito, o espírito maligno, o quid misterioso que penetrou em mim. O pronto alívio que sinto, confesso, muito me impressiona, abalando-me a descrença que até então trazia na terapêutica tupi. (1)

         Quanto à fauna, por exemplo, os capítulos com episódios oníricos são os grandes responsáveis pela descrição de várias espécies de aves, as quais são quase como que catalogadas pelo narrador, como ocorre no capítulo “Cordão alado desce da Lua”, por exemplo.
De sete em sete, os pássaros vão chegando, uma espécie atrás da outra (...).As araras vêm na frente. Belas e barulhentas, pousam nas cumeeiras das malocas e vão logo roendo a madeira e a palha com seu bico branco, grande e muito duro. Tucanos de bicos de osso, pernas curtas e pretas, penas das costas azuladas, asas e rabo anilados, frouxéis miúdos e amarelos no peito (...).Macucagoás de pernas compridas, cheias de escamas, com feição de galinha, pousam ao longo do chão (...).Os formosos pássaros de água doce chegam. Primeiro as uratingas, as garças brancas, de pernas longas, macérrimas, bico mui comprido, pés amarelos e um molho de plumas entre os encontros das asas, que lhes chegam à ponta do rabo. E mais pássaros vão chegando: suiriris, urandis, pexaroréns, querejuás, pardais, muepererus, nhapupés, saracuras, orus, anus, maguaris, aracuãa, atiaçus, timunas, uanandis, uapicus, toatós, uraoaçus, caracará, acauãs, bem-te-vis.(2)

         Como já mencionado acima, ocorre uma diferença de gêneros entre as duas obras. A noite é dos Pássaros contém as marcas do ficcional e Duas Viagens ao Brasil as do ensaístico. Resta-nos demonstrar a diferença existente entre elas.

 
(1) SENA, Nicodemos. A noite é dos pássaros. Belém: Cejup, 2003. p.47,48.

(2) SENA, Nicodemos. A noite é dos pássaros. Belém: Cejup, 2003. p.110 a 113.

 
 
 
 

 

 

 




 



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