JULIA VALESCA PAIS:
"A noite é dos pássaros"

E OS PÁSSAROS POUSARAM SOBRE O MEU PAPEL - REFLEXÕES CRÍTICAS SOBRE O ROMANCE “A NOITE É DOS PÁSSAROS”

INDEX
Objetivo
Resumo
Sumário
INTRODUÇÃO
1 – Nicodemos Sena e sua fortuna crítica
2 – Hans Staden e Duas viagens ao Brasil
3 – Nicodemos Sena e A noite é dos pássaros
4 – Uma leitura comparada
         4.1 – O elemento religioso
         4.2 – O caráter de Alexandre Rodrigo Ferreira X Hans Staden
         4.3 – O relato dos costumes tribais
         4.4 – A diferença de gênero entre as obras
5 – A noite é dos pássaros e a Pós-Modernidade
         5.1 – O ecletismo estilístico em A noite é dos pássaros
         5.2 – A intertextualidade em A noite é dos pássaros
         5.3 – O  hibridismo em A noite é dos pássaros
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
ANEXO: ENTREVISTA COM NICODEMOS SENA

2 – Hans Staden e Duas Viagens ao Brasil

Duas viagens ao Brasil, do alemão Hans Staden, é um relato real das duas viagens que o alemão fez ao Brasil em oito anos e meio, o qual foi publicado em Marburgo, Hessen, Alemanha, no ano de 1557. Já a primeira publicação em língua portuguesa ocorreu no ano de 1892. O livro, repleto de riquíssimas figuras que colaboram para um melhor entendimento da narrativa, possui um caráter histórico e divide-se em Livro I e Livro II: o primeiro possui cinqüenta e três capítulos, os quais relatam os fatos ocorridos durante as duas viagens que o alemão fez ao Brasil; o segundo contém trinta e sete capítulos descrevendo como ocorriam as navegações, a flora e a fauna do país e os costumes e tradições do povo indígena.

No primeiro livro, Hans Staden conta que saiu de Hessen, como artilheiro, com destino a Portugal com a intenção de visitar a Índia. Na primeira viagem, em 1547, ele foi parar em Pernambuco, onde teve o primeiro contato com os índios, ou selvagens, como ele os chama em seu livro. Essa primeira viagem durou dezesseis meses. Quando retornou a Lisboa decidiu empreender sua segunda viagem na companhia de espanhóis.

Na segunda viagem partiu de Sevilha, na Espanha, no ano de 1549. Seu navio acabou naufragando, mas sua tripulação foi salva e recebida pelos portugueses e levada a São Vicente. Por entender de artilharia, Hans foi convidado pelos portugueses para ser artilheiro em Bertioga. Porém, um dia, ao sair para caçar, foi capturado por índios da tribo Tupinambá devido a acreditarem que ele era português. Na captura, os índios o cercaram aos gritos e o despiram, deram-lhe pancadas, bofetadas e feriram-lhe com uma lança para vingar nele a morte de seus amigos e antepassados.

Hans foi levado à aldeia que se chamava Ubatuba pelos dois índios que o capturaram, Ieppipo Wasu e Alkindar Miri, para ser dado de presente a um selvagem chamado Ipperu Wasu. Ao chegar lá, foi humilhado pelos índios e obrigado a dançar com eles. Hans ainda tentou convencê-los de que não era português dizendo ser francês (os franceses eram amigos dos índios), mas estes não acreditaram, principalmente quando um francês, que era chamado de Karwattuware pelos selvagens, foi até a tribo e confirmou que Hans era português.

Durante o período em que permaneceu preso, a única coisa que o mantinha vivo era a sua fé, que, aliás, o ajudou muito. Em todos os momentos em que se sentia aflito ou em perigo ele orava e algo de surpreendente acontecia e deixava os índios impressionados. Vários fatos ocorridos provaram que Deus estava protegendo o alemão, fazendo com que os índios acreditassem que o Deus de Hans era muito poderoso e passassem a temê-lo.

A libertação de Hans deu-se quando os índios da tribo Tupinambá o ofereceram como presente para um outro selvagem chamado Abbati Bossange recomendando que não o fizesse mal, pois o Deus dele era terrível. O prisioneiro acrescentou para seu novo dono que logo o navio de seus irmãos chegaria com muitas mercadorias e, se ele fosse bem tratado, todos seriam presenteados. Quatorze dias depois, um navio francês chegou buscando por ele. Os franceses deram presentes aos índios em troca da libertação do alemão, chegando, assim, ao fim os seus dias de prisioneiro.

O segundo livro, é usado pelo alemão para contar de maneira detalhada como se faziam as navegações de Portugal para o Brasil, como eram a fauna e a flora do nosso país, as habilidades dos indígenas na caça e na fabricação de utensílios de uso próprio, suas crenças, como se preparavam para a guerra e tratavam seus inimigos, além de mostrar como praticavam a antropofagia. Todos esses pontos são descritos detalhadamente em capítulos pelo alemão.

Quando se parte de Lissebona para a província do Rio de Jennero, situada no país Prasil, que se chama também América, vai-se primeiro a umas ilhas chamadas Cannarix, que pertencem ao rei da Espanha. (...) Daí vai-se às ilhas que se chamam Los insules de Cape virde. (...) Das ilhas navega-se sul-sudoeste para o país Prasil em um grande e vasto mar (...).
Há no país veados e porcos do mato de duas qualidades. Uma espécie é como a daqui. As outras são pequenas como porcos novos, e se chama (Queixada) Taygassu, Dattu; (...) Há também macacos de três espécies.
Há ali árvores a que os selvagens chamam Junipappceywa (Genipapo). Estas árvores dão uma fruta semelhante à maçã.
Quando trazem para casa os seus inimigos, as mulheres e as crianças os esbofeteiam. (...) Fornecem aos prisioneiros boa comida. (...) Terminado todos os preparativos marcam o dia do sacrifício. (...) Então desfecha-lhe o matador um golpe na nuca, os miolos soltam e logo as mulheres  tomam o corpo (...). Comem os intestinos e também a carne da cabeça; os miolos, e  a língua e o que mais houver são para as crianças. (1)

Quando retornou a sua terra, Hans Staden resolveu escrever tudo o que ocorreu com ele durante os nove meses permanecidos em poder dos índios e como milagrosamente foi salvo, segundo ele, por intervenção de Deus. O alemão deixa claro em seu livro que a sua intenção ao escrever foi, exclusivamente, valorizar a ação da misericórdia divina, responsável por socorrê-lo em todos os momentos em que passou por perigos. Para confirmar isso reproduziu no livro as orações feitas a Deus enquanto esteve em cativeiro.

Não posso crer que alguém possa orar de coração
Sem que esteja em grande perigo ou perseguição,
Porque enquanto o corpo vive conforme quer,
Está sempre contra o seu criador
Por isso, Deus, quando manda alguma desgraça,
É prova que Ele nos quer ainda bem,
E ninguém deve ter dúvida disso,
Porque isso é uma dádiva de Deus.
Nenhuma consolação, nem arma, existe melhor
Que a simples fé em Deus.
Por isso, cada homem de devoção
Nada melhor pode ensinar a seus filhos
Do que a compreensão da palavra de Deus,
Na qual sempre podem ter confiança.(2)

         Hans preocupou-se em escrever um relato minucioso em detalhes, pedindo inclusive ao Dr. Joh Dryandri, conhecido como Joham Eichmann (importante anatomista germânico da época) que fizesse um prefácio de seu livro falando sobre a veracidade de sua narrativa, pois na Europa do século XVI, devido a grande quantidade de navegações, era comum aparecerem histórias de viagens mentirosas e absurdas, por isso o alemão preocupou-se em ser verdadeiro ao extremo, dedicando seu livro ao Príncipe de Hessen, H. Philipsen, e enfatizando que decidiu publicar o livro para agradecer a misericórdia de Deus, responsável por sua salvação.

 
(1) STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil. São Paulo: Beca produções culturais, 2000. Livro II, cap. 01, 28, 29, 36 p. 02, 37, 38, 40, 41 e 48.
(2) STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil. São Paulo: Beca produções culturais, 2000. Livro I, cap. 54 p. 119.
 
 
 
 

 

 

 




 



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