JULIA VALESCA PAIS:
"A noite é dos pássaros"

E OS PÁSSAROS POUSARAM SOBRE O MEU PAPEL - REFLEXÕES CRÍTICAS SOBRE O ROMANCE “A NOITE É DOS PÁSSAROS”

INDEX
Objetivo
Resumo
Sumário
INTRODUÇÃO
1 – Nicodemos Sena e sua fortuna crítica
2 – Hans Staden e Duas viagens ao Brasil
3 – Nicodemos Sena e A noite é dos pássaros
4 – Uma leitura comparada
         4.1 – O elemento religioso
         4.2 – O caráter de Alexandre Rodrigo Ferreira X Hans Staden
         4.3 – O relato dos costumes tribais
         4.4 – A diferença de gênero entre as obras
5 – A noite é dos pássaros e a Pós-Modernidade
         5.1 – O ecletismo estilístico em A noite é dos pássaros
         5.2 – A intertextualidade em A noite é dos pássaros
         5.3 – O  hibridismo em A noite é dos pássaros
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
ANEXO: ENTREVISTA COM NICODEMOS SENA

1 – Nicodemos Sena e sua fortuna crítica

Nicodemos Sena, autor do livro A noite é dos pássaros, nasceu no dia 8 de julho de 1958, em Santarém do Pará, Amazônia brasileira, onde viveu até 1977. Formou-se em Jornalismo, pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), e em Direito, pela USP (Universidade de São Paulo).

Em 1999, estreou com o romance “A espera do nunca mais – uma saga amazônica” (Editora Cejup, Belém, PA, 876 páginas, já em 2ª edição).

Em 2000, “A espera do nunca mais” conquistou o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).

O romance abordado neste trabalho, A noite é dos pássaros, do ano de 2003, foi publicado, primeiramente, como folhetim, no jornal O Estado do Tapajós (Pará, Brasil) e na revista eletrônica portuguesa TriploV e recebeu elogios da crítica literária.

Nicodemos Sena aparece no Dossier Amazónico publicado na revista literária portuguesa Construções Portuárias (nº01, 2002), no qual um trecho de “A noite é dos pássaros” foi incluído, ao lado de importantes escritores da Amazônia, como Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Cecim, Age de Carvalho, Benedicto Monteiro e Benedito Nunes.

Fragmentos de “A noite é dos pássaros” foram publicados nas revistas Palavra em Mutação (nº02, 2003) e Storm-Magazine, ambas de Portugal. Em 2003, “A noite é dos pássaros” conquistou o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro). 

Sobre a ficção de Nicodemos Sena já se manifestaram importantes críticos e escritores brasileiros, entre os quais Antonio Olinto, Nelly Novaes Coelho, Olga Savary, Fábio Lucas, Oscar D’Ambrosio, Antonio Carlos Secchin, Dirce Lorimier Fernandes, Ronaldo Cagiano, Acyr Castro, Manoel Hygino dos Santos, Nelson Hoffmann, Carlos Nejar, Tanussi Cardoso, Enéas Athanázio e Adelto Gonçalves.

Nicodemos Sena vem sendo considerado a grande revelação da literatura amazônica nos últimos anos, tornando-se verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001).

Dirce Lorimier Fernandes (1), em sua crítica feita no jornal O Globo, diz que A noite é dos pássaros é uma obra capaz de transitar entre os vários mundos a que pertence o homem. Para ela, o autor, de forma eloqüente, traz para o presente o diálogo entre a História e a Literatura dos séculos do desbravamento do Brasil. Diz, ainda, que o romance recria e desfaz mitos existentes a respeito da relação entre o europeu e o elemento nativo, fazendo da narrativa uma boa maneira de atualização de conceitos, ou, pelo menos, reorganiza o objeto de observação a partir de um outro ponto de vista, que tem a responsabilidade de preservar um panorama distinto, que agora se constitui em romance.

Caio Porfírio Carneiro (2), em sua crítica no jornal Estado de Minas, declara que Nicodemos no seu romance revolve, de maneira surpreendente, a vida nativa da foz do rio Amazonas, tendo como tubo de ensaio os costumes indígenas, sobretudo o canibalismo, que ameaça, em suspense, ao longo de toda a estória, a personagem central do romance. Para ele, a obra é uma explosão de novidades literárias, onde o sonho e a realidade se fundem e se completam. Ele acrescenta, ainda, que a obra é valiosíssima, pois a arte criadora alcança picos de beleza admiráveis pela magia do “como dizer” do autor. O crítico completa dizendo que A noite é dos pássaros é muito mais que um romance calcado em documentos, é uma roldana mágica, envolvente, com vigor criativo notável na tessitura da vida dos nativos e suas heranças culturais, da floresta, seus animais e pássaros, onde o jovem português e sua amada envolvem-se e também envolve o leitor nesse mundo estranho e fascinante, real, emblemático e metafórico.

Para Adelto Gonçalves (3), Nicodemos Sena, em A noite é dos pássaros, deixa exposto o seu trabalho de artesania. Leva, assim, o leitor a perceber que retirou do livro Duas viagens ao Brasil, de Hans Staden, boa parte dos elementos que empregou no romance, buscando no relato de um acontecimento que se supõe real o material que empregaria em sua ficção. Adelto declara que o autor muniu-se, portanto, da realidade para mentir melhor, como fazem os grandes mestres da ficção. Segundo ele, Sena constrói ainda um instigante ensaio dos costumes dos indígenas brasileiros, sobretudo o canibalismo, fazendo com que a Amazônia volte de novo ao cenário literário com um romancista seguro, que sabe como manter o suspense até o último parágrafo, levando o leitor a viver a situação aflitiva de seu personagem, ao mesmo tempo em que o faz conhecer o conflito étnico-cultural que se dá entre o europeu civilizado e o homem ainda no estado da natureza. Adelto finaliza dizendo que Sena domina a arte da narrativa, seduzindo o leitor com um estilo impecável, que faz da palavra um espetáculo, tal como a Amazônia com sua exuberante floresta.

Como se pode perceber, a crítica destacada realça, em Nicodemos Sena, a capacidade inventiva, o compromisso com a cultura amazônica e a habilidade para envolver os leitores no suspense da narrativa. Resta, por meio de análise da obra, verificar e comentar tais características.

 

(1) Dirce Lorimier Fernandes é doutora em História da Cultura, pela USP, e autora de A Literatura infantil.

(2) Caio Porfírio Carneiro é ficcionista, autor de Trapiá e Maiores e Menores, entre outros.

(3) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo.

 
 
 
 

 

 

 




 



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