JULIA VALESCA PAIS:
"A noite é dos pássaros"

E OS PÁSSAROS POUSARAM SOBRE O MEU PAPEL - REFLEXÕES CRÍTICAS SOBRE O ROMANCE “A NOITE É DOS PÁSSAROS”

INDEX
Objetivo
Resumo
Sumário
INTRODUÇÃO
1 – Nicodemos Sena e sua fortuna crítica
2 – Hans Staden e Duas viagens ao Brasil
3 – Nicodemos Sena e A noite é dos pássaros
4 – Uma leitura comparada
         4.1 – O elemento religioso
         4.2 – O caráter de Alexandre Rodrigo Ferreira X Hans Staden
         4.3 – O relato dos costumes tribais
         4.4 – A diferença de gênero entre as obras
5 – A noite é dos pássaros e a Pós-Modernidade
         5.1 – O ecletismo estilístico em A noite é dos pássaros
         5.2 – A intertextualidade em A noite é dos pássaros
         5.3 – O  hibridismo em A noite é dos pássaros
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
ANEXO: ENTREVISTA COM NICODEMOS SENA

4.1 – O elemento religioso

         O elemento religioso é um tema fortemente abordado, tanto por Hans Staden quanto por Nicodemos Sena, contudo com visões diferentes, como já dito. Em Duas Viagens ao Brasil, a religião é o ponto de maior importância da obra. Hans Staden deixa claro que a intenção dele, ao escrever o livro, foi a de divulgar a misericórdia divina àqueles que são tementes a Deus. O alemão quis provar ao leitor que, se não fosse por intermédio de Deus, ele não teria sido salvo do fatídico destino que o esperava: o de ser devorado pelos Tupinambás. A religião do homem branco é vista como algo de caráter valorativo, pois a todo tempo são demonstradas passagens em que o poder de Deus é expressado por meio de fenômenos ocorridos com a intenção de causar temor aos índios. O poder divino é mostrado como uma força capaz de sobrepujar os deuses indígenas, ou seja, o Deus do homem branco é relatado como muito mais forte e poderoso do que os deuses adorados pelos índios.

“Sabeis que ele esteve entre vós alguns anos e nunca esteve doente; agora, porém, quando deu de mentir a meu respeito, meu Deus se irritou e o fez adoecer e meteu em vossas cabeças que o matásseis e o devorásseis. Assim é que meu Deus há de fazer com quantos malvados me têm feito mal, ou me fazem”. Atemorizaram-se com estas palavras, e isso agradeço a Deus todo poderoso que, em tudo, se mostrou tão forte e misericordioso para comigo. (1)

         Já em A noite é dos pássaros, a abordagem religiosa aparece menos importante por parte da personagem do português. Enquanto o alemão era um homem extremamente religioso e temente a Deus, Alexandre Rodrigo Ferreira é um ateu que, apenas nos momentos de terror, recorre à misericórdia divina.
         No romance de Nicodemos Sena, Deus é visto como um refúgio para quando o homem encontra-se em desespero. Mesmo sendo ateu, Alexandre conhece muitas orações e cânticos religiosos, devido a ter sido coroinha quando criança, contudo o personagem explica que perdeu a fé no dia em que “só por um triz não foi enrabado atrás da sacristia” (SENA, 2003: 50).
         Diferentemente de Hans, Alexandre não aponta a interferência divina como a responsável por salvá-lo das mãos dos Tupinambás, muito ao contrário. Até no momento em que roga por salvação e Deus lhe dá um sinal de sua existência, não acredita que tenha sido ao seu favor e, inclusive, blasfema contra Deus.

Grande melancolia se apossa de mim, ao lembrar-me de que, a cada remada dos homens, mais se aproximava o meu fim. Por que há de ser assim? “Deus, quero crer em ti! Permite-me a epifania! Cega-me como cegaste Saulo na estrada de Damasco, para que eu veja de noite o que não enxergo nem mesmo de dia! Deus, por que tenho de morrer agora que encontrei Potira?”. Mal acabo de clamar, um vento forte encapela as águas da grande baía que estamos a atravessar, emborcando várias canoas. Irados, os índios gritam: “Aipó mair angaipaba ibitú guasu omou”, isto é: o homem mau, o santo, foi quem mandou o vento, pois durante o dia olhou ele nas “peles do trovão”, aludindo ao meu livro. Eu, que já não cria em Deus, depois dessa, fiquei mais ímpio. “Se Ele não quer me salvar, pelo menos não me estrague o pouco tempo de vida que ainda tenho!”, blasfemo. (2)

 
(1) STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil. São Paulo: Beca produções culturais, 2000. Livro I, cap. 39 p.93.

(2) SENA, Nicodemos. A noite é dos pássaros. Belém: Cejup, 2003. p.97.

 
 
 
 

 

 

 




 



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