Armando Nascimento Rosa
NÓRIA E PROMETEU - PALAVRAS DO FOGO

(Mitodrama paródico em sete cenas)

INDEX

NOTA PREAMBULAR

PERSONAGENS E INTÉRPRETES

MÁSCARAS DE CENA

CENA I

CENA II

CENA III

CENA IV

CENA V

CENA VI

CENA VII

Cena 6

Nória : Finalmente! ( Aclara a voz .) Chegou a vez do meu discurso. Vou impressioná-lo.

No dilúvio de há dez mil anos, Ele afogou-nos a todos. Fez com que as águas do céu inesgotáveis tombassem sobre os continentes. As televisões de Atlântida, o império da época, alertaram pra uma ameaça nunca vista. Mas deixámos de sintonizá-las, na tempestade magnética. As previsões meteorológicas contradiziam-se. O certo é que o sol deixou de ver-se atrás de um céu de ardósia em trovoada perpétua. Ventos ciclónicos varriam o solo em vassouras colossais sincronizadas. Choveu sem tréguas quarenta dias e quarenta noites. Como se todos os rios do cosmos desaguassem nesta esfera a sua raiva líquida. Era impossível aos aviões levantarem voo. Missões de auxílio sairam por mar de Posidópolis. Foram trucidadas pla razia dos tornados. E a terra inteira tornou-se oceano de terror. Quando as águas baixaram e saímos da arca, não havia onde pôr os pés, tal era o número de cadáveres semeados na lama. ( Pausa .)

Mas da próxima vez, Ele há-de queimar-nos a todos. A morte virá pelo teu fogo, Prometeu, e não pla banheira do céu entornada sobre os nossos crânios. Ele vai levar-nos bem ao lume em carne viva num churrasco universal. Nas crateras da Lua, nas areias batidas de Marte, hão-de chegar os vapores de toucinho humano chamuscado. Este planeta transforma-se num enorme micro-ondas que várias gerações ajudaram a ligar à corrente. Seremos de novo inquisidores, por Ele manipulados, à dimensão cósmica. Um auto-de-fé dado em espectáculo no festival nocturno dos astros. E nós, marionetas de Javé, as canas calcinadas desse fogo de artíficio.

Prometeu : Quem és tu mulher, com esses presságios? Não conheço o teu sotaque bárbaro, mas falas como os profetas do deserto. «Quem ama as estrofes, gosta de catástrofes» (1), nunca ouviste dizer?

Nória : Eu não sei citações de cor, sou uma mulher simples. Não andei como tu nos colégios privados dos sofistas gregos. Falo o que me brota da alma, mais nada. Viajo à boleia nos caminhos sem descanso. Ele persegue-me dia e noite. Quer acabar de vez comigo. Ah! Mas eu não deixo! Tenho um espírito forte. Ele não há-de vencer-me...

Prometeu : Mas ele quem? Pareces maníaco-depressiva. De que raio andas tu a fugir?

Nória : Do raio de Javé, o Deus de Jonas e de Job, mais fulminante que os relâmpagos do teu Zeus helénico.

Prometeu : Ah! Vieste então da Judeia. Vocês adoram lá um deus único; é uma boa economia religiosa, em orações e sacrifícios. Mas na Grécia, essa modalidade de todos os deuses em um não teria sucesso. Os gregos gostam muito de teatro. Precisam de um palco divino com muitas personagens em conflito pra captar o interesse dos crentes. O monólogo de um deus abstracto e de mau feitio como o vosso seria a ruína total dos templos... ainda pra mais com essa mania que ele tem de nunca querer ser fotografado nem de dar entrevistas. Isso é coisa intolerável pra um povo obcecado plas imagens do corpo. Não te esqueças que os deuses do Olimpo são os antepassados das estrelas de Hollywood. Mas não me disseste ainda qual é a tua personagem! Pra andares fugida desse deus vingativo é porque caíste em desgraça.

Nória : Eu sou Nória, filha de Adão e Eva. Casei-me com Noé. Fui declarada irrecuperável plos patriarcas da sinagoga. Acusam-me de apostasia. Chamam-me Nória, a herética, e isso enche-me de orgulho. Mesmo que o orgulho seja um dos pecados mortais. Sabes, Prometeu, eu sou uma rebelde de Israel, como tu és da tua pátria do Olimpo. Tu desafiaste Zeus, e foste capturado e punido; eu desmascarei Javé e por isso os homens de confiança dele apagaram a minha existência da história. É como se eu nunca houvesse nascido. Revisionistas miseráveis! Rasuraram o meu nome da versão oficial da Bíblia, como se Noé tivesse parido os nossos filhos pla barriga das pernas. Como se a voz de Nória nunca se tivesse feito ouvir nas planícies da Palestina.

Prometeu : E que andas tu a pregar de tão perigoso pra que tivessem eliminado o teu nome dos ficheiros informáticos?

Nória : Se fosse só o meu nome, mas não... O que eles quiseram foi matar a difusão dos meus escritos, desacreditar a mensagem que eu trazia ao mundo. Tornei-me numa autora proibida, censurada, com a cabeça a prémio nos editais do Vaticano...

Prometeu : Eu aconselho-te a seres mais objectiva e a contares de uma vez só a tua história. Com tanto boicote que sofreste, com tanta recusa por parte das editoras em publicarem os teus livros, acabaste mesmo por ser uma figura anónima. Se toda a gente sabe quem eu sou, duvido que haja algum espectador que te conheça. Nória... até parece o nome de uma marca de salsichas!

Nória : Poupa-me aos teus sarcasmos de esteta. A minha vida não recebeu as simpatias da alta comédia. Um dia, numa idade bem madura, Noé começou a ouvir vozes que lhe diziam ser ele o escolhido, o eleito do Senhor. Javé desgostara-se da criação que fizera e resolveu destruí-la com água. Um capricho de deus mimado que decide estragar o brinquedo que o aborreceu. Lembrou-se de fazer de Noé um náufrago divino, um lobo protegido dos mares. Ao meu marido, calculem, um vulgar agricultor de vinhedos, que mal sabia nadar. Quando Javé acabou de encomendar as nuvens de água pesada que inundariam a terra firme, arrependeu-se da decisão radical. E resolveu escolher à sorte os sobreviventes do cataclismo que ele próprio planeara. Mais um capricho dos seus. Lançou os dados sobre uma mesa de poker e saiu ao Noé o número do totoloto. A voz de Javé começou então a instigá-lo pra que ele construísse um navio em terra seca. Um viveiro genético no qual além de nós um casal de todas as espécies vivas se salvasse, quando o globo terrestre fosse apenas um imenso oceano. Noé parecia um possesso, acordava de noite a falar sozinho e corria a levantar-se como um autómato pra desenhar os planos do seu Titanic num caderno preto. Ele, que não tinha jeito pra carpinteiro nem nunca trabalhou nos estaleiros fenícios. Noé dizia que falava com Deus e os meus dois filhos queriam levá-lo ao psiquiatra. Mas com o meu conselho maternal, Noé conseguiu convencê-los a ajudarem o pai nessa empresa de doidos. Foi então que eu comecei a ouvir vozes. Vozes de anjos que se diziam mensageiros do verdadeiro Deus, exterior a este mundo de ilusão e morte. As vozes revelavam-me que esse Javé, que ordenara a construção da arca ao meu marido, não passava de um deus menor, um demiurgo cheio de mau carácter que queria fazer perdurar a sua criação falhada por meio de um navio improvisado. Instalou-se uma guerra das estrelas conjugal. Cada um de nós era emissário de um deus diferente.

Prometeu : A tua casa devia ser muito estranha nesses dias, contigo e com o teu marido, cada um a murmurar pra seu lado, julgando que estavam em ligação directa com o telemóvel do Altíssimo. E os teus filhos, não foram atacados por essa mania? Calculo que andassem sempre com auscultadores nas orelhas, pra ouvirem só as suas bandas rock favoritas.

Nória : Tu devias ser o último a troçar da desgraça dos outros. Mas eu desculpo-te. Sei que estamos no teatro e há que lançar uma piada ligeira de vez em quando pra divertir o público. Mas ainda não acabei o meu relato.

Prometeu : Abrevia, Nória, abrevia, que não temos o serão inteiro. Diz-me lá então o que é que as vozes dos anjos guerrilheiros te mandavam fazer a ti, enquanto os teus homens erguiam as paredes da arca!

Nória : Era suposto eu impedir a construção da nau. Porque assim a criação imperfeita do deus menor seria extinta, e um novo mundo poderia ressurgir um dia das águas, liberto do mal. Por três vezes deitei fogo à arca durante a noite. O fogo que nos deste. POR TRÊS VEZES EU TENTEI ACABAR COM O FILME DE SÉRIE B QUE É ESTA VIDA, MAS NÃO TIVE SUCESSO. O Noé e os meus filhos vigiavam tudo o que eu fazia e acabaram por enfiar-me num colete de forças. Injectaram-me um sedativo nas veias e sentaram-me depois no convés do barco pra ver se o ar fresco me aclarava as ideias.

Prometeu : Fizeram eles bem, amiga. Hás-de concordar que essas vozes que ouvias eram socialmente incorrectas. Morreriam todos afogados se a intenção delas vingasse. Não estás hoje arrependida?

Nória : Não, Prometeu, não estou. Percebo as razões que me levaram a fazê-lo. Eram as razões do desespero. Que privilégios tínhamos nós ambos, mais as noivas dos meus filhos, de sermos salvos do dilúvio, enquanto toda a gente à nossa volta era engolida plas águas em fúria? Os animais que iam connosco a mesma coisa. Safámo-nos de morrer como Ofélias sem glória, e acabámos por continuar reféns de Javé ao longo dos milénios.

Prometeu : Mas olha que Ele fez penitência plos crimes do passado, ao enviar mais tarde o filho missionário pra pregar o amor e a justiça. Claro que o infeliz terminou jovem a carreira, toda a gente sabe, crucificado como malfeitor.

Nória : Não precisas ensinar a missa a uma papisa. Mas não mistures o trigo com o joio. Jesus não pode ser filho de Javé... Será filho sim desse Deus sem nome que me falou ao espírito, e que se encontra exilado num universo paralelo. O pai de Cristo jamais podia ser o sanguinário do Velho Testamento.

Prometeu : Minha cara, esse teu Cristo parece o Neo do Matrix . Ainda acabas por fundar uma seita, daquelas que promovem o suicídio em massa. Já chega de teologia por hoje! Primeiro foi a Cassandra a tentar converter-me aos mistérios, e agora tu com essas heresias...

Nória : ( Suplicante .) Prometeu, deixa-me pôr em teatro o meu Apocalipse segundo Nória.

Prometeu : Tu mais a mania dos apocalipses... Já todos sabemos que o planeta acaba em incêndio. Se não for antes, há-de ser quando o sol morrer. As estrelas também têm o seu fim. Do fogo estou eu farto. Fala-me antes das origens. Vocês, hebreus, têm histórias tão boas sobre a criação.

Nória : Está bem. Eu tenho espírito de adaptação. Se é isso que queres... Vou encenar pra ti a história dos meus pais na versão não autorizada por Javé. Por isso não posso usar o nome dele. Arranjei um título diferente só pra despistar. Chama-se O Paraíso do Doutor Godot .

Prometeu : Esse nome soa-me a teatro.

Nória : E é teatro. Do melhor que sei fazer.

 
(1) aforismo de Gottfried Benn
 
 

 




 



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