Armando Nascimento Rosa
NÓRIA E PROMETEU - PALAVRAS DO FOGO

(Mitodrama paródico em sete cenas)

INDEX

NOTA PREAMBULAR

PERSONAGENS E INTÉRPRETES

MÁSCARAS DE CENA

CENA I

CENA II

CENA III

CENA IV

CENA V

CENA VI

CENA VII

Cena 3

Ao centro da cena, Prometeu está acorrentado de pé a um rochedo-archote com altura superior à humana. Tem o tronco nu, de modo a que se veja uma mancha vermelho-negra em toda a região da pele correspondente ao fígado; cintura e pernas estão polvilhadas de sangue coalhado. Ao seu lado está a Águia; tem as asas sobre as costas, imobilizadas com corda, e veste um avental de talhante encharcado de sangue - pendendo no pescoço tem ainda um guardanapo de mesa também sujo. Ambos olham fixamente para o público: Prometeu com um rosto estóico; a Águia, um semblante patético de quem é surpreendido durante uma refeição. Escorre-lhe molho de tomate pelo queixo abaixo, limpa-o com o guardanapo e aproxima-se da boca de cena para iniciar o seu monólogo. A certa altura do seu discurso, entrarão discretamente em fundo várias figuras: Zeus e o seu séquito de deuses astronautas: todos eles usam um capacete espacial, fatos coleantes com cintos largos, e uma capa comprida de super-heróis da bd.

Águia : Neste enredo com deuses, semi-deuses e cobaias humanas, eu fui atirada ao lixo como personagem de terceira ordem. A ave nobre tornada maldita. O carrasco de serviço pró trabalho sujo: a limpeza das latrinas com a língua e com os dentes, se eu acaso os tivesse. Pra mais me insultarem, confundem-me com um abutre, comedor de cadáveres, em todos estes anos de martírio, que hão-de terminar com a aparição triunfal de Hércules, menino do papá: um valente musculado dos ginásios que me há-de trespassar com uma seta libertadora.

Tenho garras fortes de águia, sou rainha dos espaços aéreos, com vocação pra outros voos diferentes deste poiso, onde esgoto a vida a debicar as vísceras de um alcoólico. Sim, sim, de um alcoólico! Por que pensam vocês que o fígado de Prometeu cresce sempre após cada investida do meu bico? Prometeu padece de cirrose, contraída por se ter desiludido dos humanos. Como todos os revolucionários genuínos, não passa de um ingénuo. Deu o fogo aos homens, julgando que eles seriam melhores do que os deuses. Mas limitou-se a fabricar uma multidão de vermes, que se arrogam a senhores da terra até aparecer uma galinha tonta que os devore.

Prometeu dissipava os dias nas tabernas de Creta e de Corinto, como se quisesse afogar a memória da sua proeza. Afundava o corpo atordoado nas adegas de Dioniso. O fígado da minha vítima era um odre prestes a explodir, antes mesmo de eu o rebentar na fúria de ave capturada. Quando me destinou a sórdida missão, Zeus sabia dessa cirrose monstruosa de Prometeu, incurável como um cancro coagulado, baba pestilenta manchando as rochas do Cáucaso. Baba que sou forçada a deglutir como único alimento autorizado pelos deuses. E todos julgam que eu, um pássaro de rapina, encontro prazer naquilo que faço. Como se este pitéu fosse pra mim um orgasmo salivar. Como foi possível esquecerem-se de que nesta fábula nojenta eu não sou mais do que um bicho traficado a soldo de Zeus? esse proxeneta-mor, essa madame travestida do bordel do Olimpo! Se Prometeu está agrilhoado, pois eu não o estou menos. E se há uma razão que o levou à tortura - justa ou injusta não o sei, não sou juíza -, razão não tenho pra Zeus ter feito de mim a esponja de penas, que absorve inchada o sangue da sua vingança.

E a minha tragédia é de todas a mais repugnante, porque nada nela tem grandeza, apenas cheiro a carne gangrenada numa loucura viva de vísceras. É uma tragédia fétida de indigestões e diarreias. Uma tragédia alimentar: NUNCA NINGUÉM ME PERGUNTOU SE EU GOSTAVA DE FÍGADO!

Zeus : ( Retira o capacete, acto que é de imediato imitado pelos sete guarda-costas que o acompanham. Aproxima-se da Águia. Numa insolência cínica, bate palmas lentamente. ) Bravo, águia, bravo! Podes crer que essa dieta com iscas de semideus bêbado nos inspira a todos uma enorme piedade. Mas anima-te, filha! Se continuares com palavreado barroco e puseres um charuto cubano ao canto do bico, ainda acabam por confundir-te com o Heiner Müller.

Águia : Nunca imaginei que o omnipotente Zeus fosse tão versado em autores dramáticos!

Zeus : Claro minha amiga! E por que não? Gosto de estar a par das novidades de Dioniso, o mais criativo dos meus filhos. Somente a arte dele me dará fama quando eu me reformar. O que será Zeus no futuro senão uma soberba personagem de teatro, representante do poder absoluto, esmagador dos humanos, e que estes nunca deixarão de cobiçar? Também tu não passas de um animal de palco, com o teu figurino de mulher do talho. Mas agora dou-te um intervalo. Aproveita pra puxares lustro à plumagem! Quero conversar com a tua vítima. (A Águia sai de cena com altivez . Zeus dá ordens aos do seu séquito .) Libertem-no dos grilhões, que não gosto de falar com gente acorrentada! ( Dois dos seus acompanhantes cumprem a ordem. De início, Prometeu não se consegue segurar de pé e começará o seu discurso ainda caído no chão, porque as dores e a fraqueza não o deixam erguer-se. Só a ira lhe dará forças para tal. )

Prometeu : Nada temos a dizer um ao outro, Zeus! A tua acção cobarde é contrária à inteligência das palavras.

Zeus : Mas mesmo assim tu falas. É bom sinal pra nos entendermos. O teu carácter só dá ouvidos à tortura. Não tive alternativa. Agora que o corpo foi martirizado, talvez a mente preste atenção àquele a quem chamas o teu pior inimigo.

Prometeu : Não sou eu que o chamo, Zeus. Tu és de facto o meu maior inimigo!

Zeus : Como te enganas! Eu admiro-te profundamente, como se me visse reflectido num espelho jovem. Tu poderias ser eu, poderás sê-lo ainda, se o quiseres. O teu maior inimigo está dentro de ti, na tua teimosia em tomares o partido dos terráqueos ignorantes; devias era colaborar com os da tua estirpe, e abandonares essa causa perdida de espião benfeitor. Prometeu! Acorda! Tu não és humano, és um titã, somos primos ainda, já te esqueceste? Não tens nada em comum com os mortais miseráveis! Eu castiguei-te para afirmar o meu poder perante os deuses que traíste. Se mostrasse fraqueza, punha em causa a minha soberania. Tu afrontaste a minha autoridade como se quisesses substituir-me no lugar que ocupo. SERVISTE-TE DOS HUMANOS COMO UM PRETEXTO PARA A TUA AMBIÇÃO DE GLÓRIA!

Prometeu : Não, isso nunca!... ( Escarnecendo .) Mas pobre de ti... Queres que eu sinta compaixão plo déspota que está prisioneiro do seu próprio poder. Aceita os meus sinceros sentimentos selados com o sangue do meu sacrifício. ( Esfrega ambas as mãos na tinta da sua ferida abdominal e dirige-se a Zeus; no gesto de o beijar na testa, segura-lhe as faces com as mãos, deixando-lhe o rosto manchado de sangue .)

Zeus : O poder é a mais invejada das prisões. E tu, Prometeu, quiseste usurpar-me essa prisão pra te meteres nela. Reuniste um exército de bandidos humanos que te seguiriam como cães com carabinas e granadas, e outras armas de fogo mais cruel, ainda por inventar. ( Um dos acompanhantes traz-lhe uma toalha para ele limpar a cara .)

Prometeu : ( Gargalhadas falsas .) Sim, eu sou o teu rival mais perigoso, não há dúvida, à testa de uma horda de famélicos sem terra que virão pra assaltar a tua praça forte no monte Olimpo! Foi então por medo que me prendeste neste rochedo extremo da Europa, como um exemplo para o mundo. Sou o terrorista topo de gama; o espantalho de cacholas ao sol no teu meloal de estimação!

Zeus : Eu compreendo a tua revolta. Já fui herói assim como tu. Mas é tempo de reveres a estratégia. Não gastes adrenalina com quem a não merece. Porquê os humanos? É uma caridade inútil. Foste dar-lhes o fogo de bandeja julgando que os ajudavas, e em vez disso assinaste o seu óbito colectivo, na forma de um archote. Eles irão cultivar o presente envenenado. É um vírus que se expande em epidemia incontrolável. Parabéns! Foste o fundador da indústria da morte.

Prometeu : Não, Zeus, a morte é uma obra com a tua assinatura; não pretendo fazer plágio das tuas criações. O fogo que dei aos humanos foi o fogo da vida, o fogo pra se viver melhor no mundo de trevas que governas. Mas já vi que és um pedagogo previdente. Não querias ensinar o fogo aos humanos... temias pla sua segurança. Como um pai cauteloso que tapa as tomadas em casa pra que os filhos não fiquem electrocutados por meterem lá os dedos... O teu medo é outro. O medo de que eles façam sombra ao teu reinado de terror com trovões e relâmpagos. O medo de que acabem por cortar-te os tomates da mesma maneira que o teu pai Cronos os cortou ao teu avô.

Zeus : Prometeu! Por mais que defendas os mortais, eles não poderão defender-se a si mesmos. Eu conheço-os bem. Já me misturei com eles muitas vezes, atiçado plas fúrias da carne. A sua natureza primitiva vai conduzi-los à destruição. É qualquer coisa inscrita no perfil da sua espécie. Seja o fogo dos neutrões, sejam armas bioquímicas, sejam facas de mato, o destino deles é degolarem-se uns aos outros...

Prometeu : ...Degolai-vos uns aos outros tal como eu vos degolei... É esta a mensagem que tens pra eles, não é verdade? Era isso que eu já desconfiava. Os humanos parecem-se demasiado contigo, pois foste tu que os concebeste assim. Portanto não podes acusá-los de uma coisa de que só tu és culpado. Se a semente é maligna, foste tu que a plantaste nesta terra desolada. Eu ao menos tento melhorar a erva rude que é ávida de luz. Tu insistes em apontar os seus defeitos pra te desculpares da tua negligência; plo contrário, eu concentro-me no que eles têm de bom pra que esse bem os torne maiores. O que tu desejas é mantê-los na ignorância pra poderes manipulá-los facilmente. O conhecimento nos escravos é a maior ameaça ao poder dos seus senhores.

Zeus : Devaneios de um libertário. Desejas a revolução impossível! Queres implantar a democracia como o regime entre deuses e humanos. Mas a invenção da democracia é exclusivamente humana, nasceu da impotência amedrontada dos mortais; foi um expediente arranjado pelos snobs de Atenas que gostam muito de ouvir os chilreios uns dos outros em plenário, como um bando de aves canoras. Nós, os deuses, somos e seremos sempre tirânicos. Só os Creontes deste mundo nos compreendem bem.

Prometeu : SE ASSIM SÃO OS DEUSES, ENTÃO EU NÃO QUERO SER DEUS; ANTES DESEJO SER MORTAL QUE SER MONSTRO.

Zeus : Perco o tempo contigo. Vou viajar pra outros astros hoje mesmo e não posso esbanjar horas em oratória fútil. Julguei que te pudesse trazer comigo, na minha comitiva, e que fosses aprendendo aos poucos com a experiência que adquiri ao longo dos milénios; para um dia, quem sabe, me sucederes à frente dos destinos do universo. Ilusões vãs as minhas. És fanático. Se eu te levasse nas nossas naves espaciais, depressa farias sabotagem, e roubavas os segredos da tecnologia dos deuses para os transmitires a essa corja de mendigos, que conspira por um prato de sopa. Acabas de perder a oportunidade da tua existência. Vais voltar com os ossos pró teu rochedo. ( Para os seus acólitos .) Prendam-no!

Prometeu : Acabo de ganhar a liberdade de espírito.

Coro dos Deuses Astronautas : ( Depois de dois de eles acorrentarem Prometeu ao archote gigante, todos se reunem para falar em uníssono. Zeus contempla-os, distanciado .) Renegas os teus irmãos de sangue Prometeu... Nada podemos fazer pra te proteger dessa loucura... Baralhaste a ordem estável das coisas... Agora não és deus nem és mortal... O teu lugar é uma base aérea abandonada... Desprezas aqueles que podiam ajudar-te... Ajudas aqueles que contribuem para a tua desgraça... Tornaste-te no mais solitário dos seres... Vamos partir para o espaço... Iremos esquecer-te depressa... A memória dos imortais é muito curta para assim poder escapar ao tédio... Havemos de deixar um dia de voltar a este planeta... Fabricaremos outras raças de selvagens pra nos divertirem com as suas fraquezas... São imensas as galáxias e nós gostamos de desportos radicais... Adeus, Prometeu... Levaste demasiado a sério o teu papel... De super-herói dos desenhos animados... Mas o espectáculo que dás é impróprio pra crianças... O TEU SANGUE É O GASÓLEO DO ARCHOTE QUE TU ÉS CONDENADO PELO FOGO...

 
 

 




 



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