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JOÃO RASTEIRO

CORSINO FORTES e JOÃO CABRAL de MELO NETO
ou OS ARTÍFICES da PALAVRA

INDEX

Introdução
Corsino Fortes: poesia da identidade
A ilha: recriação de Cabo Verde na recriação da palavra
O “Pedreiro da palavra”
João Cabral: poesia da busca
O Sertão: poesia escrita na pedra
O “O engenheiro da palavra”
Semelhanças e diferenças no fazer poético
Conclusão
Notas
Bibliografia

ANTOLOGIA “OS ARTÍFICES DA PALAVRA”
Corsino Fortes
João Cabral de Melo Neto

O "pedreiro da palavra"

A poesia de Corsino Fortes assenta numa estrutura e/ou possui uma chave que determina uma (7)”geometria, aqui como espaço, terra medida a metro e melodia, com balizas e vivência de sangue e fonema”. A sua poesia é elaborada numa espécie de teia espessa de sonoridades e signos repetidos, de um jogo sofisticado de paralelismo e ecos (recorrendo frequentemente à assonância, aliteração, quiasmos, sinédoque, metonímia, etc). Apesar de um tom épico ao nível formal, é uma poesia construtivista, cerebral, “criação conceptual” onde o espaço e a distribuição dos materiais de escuta pelo papel, ganham significação. Pode até parecer por tudo isto, uma escrita algo mecânica, calculista e fria, mas, ao ser lida, concluímos tratar-se de uma poesia tão emotiva, como a de um Jorge Barbosa, ou qualquer poesia dita espontânea. Repare-se no já referido poema “Ao tambor de tal tâmara/E/Do som E da saliva/volva o ovo o colmo/Que te apelidam/Do fonema ao fruto/(...)/agora poema agora/”, onde utiliza para o poema, uma espécie de construção, como se de um “pedreiro” se tratasse. Com 2/3 letras assistimos a uma progressão semântica, onde o poeta constrói como um pedreiro (os maçons da vida, a construção do templo maçónico, o universo), de forma exacta. Corsino Fortes respondendo à questão , de ser um “pedreiro da palavra”, refere: (8)”Não sei se me posso considerar como tal. O fundamental é que eu aprendi muito com Cesário Verde, João, Cabral de Melo Neto, entre outros, no sentido que se põe a hipótese, de se apresentar o papel branco como uma tela, lançando as palavras para o intelecto, abrindo assim o tal espaço pictórico. Existe um poema neste livro que diz que “toda a pedra é um poema bissexto”, ou seja, a pedra ganha uma dimensão antropomórfica “. De facto, no poema “Oráculo”, Corsino afirma:

(...)

Toda a palavra é útero de sete pedras

......................................E

Toda a palavra é um poema bissexto

Leva quatro anos de pudor

E quarenta & tantos de paixão

Para inundar o deserto da estiagem

(...)

Prossegue Corsino, “De facto, durante algum tempo, a pedra quase me perseguia. Quando era embaixador, a todos os lugares que eu ia faltava uma pedra, faltava qualquer coisa. Até que descobri na Islândia, em Reykjavik, num lugar parecido com Cabo-Verde, com duzentos e tal mil habitantes, o parlamento e os ministérios tinham a mesma dimensão da minha ilha, embora houvesse a diferença do clima, a sua força vulcânica fazia-me sentir perto..., lá eu sentia-me perto. A pedra é a própria substância, irradia força”. Repare-se no poema “Páscoa de pedra”:

II

Mas onde? Onde encontrar

No deserto da fala

A pedra sonora

A língua da pedra

Que salpica de verde

A lucidez da nossa loucura...

Mas onde? Onde encontrar

A pedra mãe! A pedra amante

(...)

..............De uma salva de palmas

Se na essência modalizante e/ou épica do discurso, a poesia de Corsino Fortes assenta na pedra, até porque essa mesma pedra é uma espécie de metáfora do alimento Cabo-Verdiano, daí a pedra ser a própria substância, Corsino trabalha a palavra e/ou fonema, como se fosse um “pedreiro” trabalhando a pedra. Em Corsino temos uma poesia, onde se verifica uma contenção visivelmente trabalhada. Nesta poesia assiste-se a uma elaboração e/ou construção, verso a verso, cingida ao tropo e também à convivência linguística, alicerçada numa estrutura de linguagem ao nível mítico (essencialmente em “Pão & Fonema”), e “metabolizada” no recurso metonímico, estrofe a estrofe e/ou verso a verso. Como exemplo atente-se nos seguintes versos:  

Ouve-me! primogénito da ilha

ontem

........................fui lenha e lastro para navio

hoje

........................sol semente para sementeira

(...)

Existe toda uma estrutura construída, na disposição gráfica do poema e das palavras, no branco da página, no branco do silencio. Ana Mafalda Leite, referindo-se a "Pão & Fonema", afirma, (9)"Cosmologia, odisseia, estremecidos pelo emergir da palavra, fruto aliterante e gomo, grama, rede de sons iluminando-se, brindando-se. Ler, reler em voz alta. Soletrar essa marca dinâmica dos fonemas, que se move substancializada pela boca. Carnalidade significante incorporando-se numa sintaxe dos sentidos: visão (disposição gráfica das palavras pela página), ou do (irrupção do ritmo entranhado na música bilingue), paladar, tacto (mistura de pão, milho, mão, boca e fonema)". Repare-se na parte VI, do poema "Meio-dia":  

6)

Galinha vai galinhas vão

.........................pedra sobre pedra

E executam

Por terraços de pozolana

.......................O "p" "q"

......................."p" "q" "p"

........................Da coreografia dos galos

Na maioria da poesia de Corsino, existe uma cesura de palavras e versos, um burilar das palavras e/ou fonemas. Por vezes em Corsino, a poesia até é muito experimental. É o próprio Corsino que afirma, (10)"Eu procurei estudar todas as correntes literárias. Essa forma de grafismo pode-se encontrar na poesia concretista brasileira. Os poemas são projectados para o papel, mas têm o seu próprio espaço, a sua grafia. Por vezes aparecem maiúsculas no meio do poema, e se se tratar de uma paisagem, essa maiúscula pode ser você. O poema é para o leitor, mas é mais para o ouvinte, tem respiração e harmonia”. Atente-se no poema “De boca a barlavento”, onde num processo de construtivismo, temos na página a palavra “gotejar”, numa arquitectura vertical das letras, como se de cada gota de sangue se tratasse, as gotas são as próprias letras.  

(...)

Há sempre

Pela artéria do meu sangue que g

.........................................................o

.........................................................t

........................................................e

.........................................................j

........................................................a

De comarca em comarca

(...)

Pode-se afirmar, que a poesia de Corsino é uma poesia vérbico-visual, o visual na página aparece-nos, como se houvesse um “pedreiro” a trabalhar e/ou esculpir. Sendo uma poesia aparentemente simples, ela é contudo, algo complexa. Corsino tece a sua poesia, de um jogo de sonoridades e signos, reflectindo um salto enorme em relação à poesia Africana em geral e cabo-verdiana em particular.

Trata-se de uma poesia cerebral, bastante planeada, construtivista. O poeta confere significação ao espaço, à distribuição dos “materiais” (pedra bruta sendo trabalhada) da escrita no papel. Usa frequentemente as maiúsculas no interior dos versos, sinais aritméticos, a copulativa comercial, etc, o que possibilita e intensifica a marcação do ritmo e das pausas, não só através da métrica, no “enjambement” e da sintaxe, como da diferenciação ortográfica e recorte frásico. O letrismo, o experimentalismo e o construtivismo desta poesia, são uma evidência. Visualmente, esta poesia ou “criação conceptual” (“o pedreiro da palavra”), como refere Mesquitela Lima: (11)”é uma forma de criação muito aproximada da investigação científica”, ou, talvez ainda uma criação conceptual assumida, é uma poesia que parece ter rupturas bruscas, ser fria, mecânica e seca. No entanto, é uma poesia tão impregnada de emoções, como a de um Jorge Barbosa, ou ainda de qualquer poesia dita espontânea. Atente-se no poema “Conto”, aparentemente mecânico e seco, mas de uma extraordinária carga de sentidos e emoções:  

I  

Estavas estás

................Sem no

..........................na

..........................nos

..........................nas

assim nua

O fogão junto à fonte

Tua mão bronze

...................................Queimando açúcar

A voz das crianças

...................................Ao redor

Quadriculada

...................................Em rebuçados

Corsino Fortes, dá-nos uma poesia onde o discurso é extremamente rasurado, e inclusive limitado até ao minimalismo. As imagens telúricas, anatómicas, alimentícias e minerais (essencialmente a pedra), são os símbolos sobre o qual o “pedreiro”, de forma conceptual, vai trabalhar a matéria prima, no branco da página(mesmo se por vezes, este é antecedido por um trabalho de construção poética mental). Aliás, (12)”tal como os modernistas brasileiros e os seus sucessores vanguardistas dos movimentos concretistas e praxis, Fortes envolve o leitor na construção do poema”. Uma poesia pouco adjectivada, e mais do substantivo e do verbo, na celebração e/ou construção da ILHA, da palavra, do fonema. Assim,

n)

E de pé! O arquipélago ganha vela

.......................................porto & terra

.......................De árvores com hélices nas raízes

 
Corsino Fortes .............J.C. de Melo Neto....

 


 



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