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JOÃO RASTEIRO

CORSINO FORTES e JOÃO CABRAL de MELO NETO
ou OS ARTÍFICES da PALAVRA

INDEX

Introdução
Corsino Fortes: poesia da identidade
A ilha: recriação de Cabo Verde na recriação da palavra
O “Pedreiro da palavra”
João Cabral: poesia da busca
O Sertão: poesia escrita na pedra
O “O engenheiro da palavra”
Semelhanças e diferenças no fazer poético
Conclusão
Notas
Bibliografia

ANTOLOGIA “OS ARTÍFICES DA PALAVRA”
Corsino Fortes
João Cabral de Melo Neto

CORSINO FORTES:
poesia da identidade

y)
A nordeste! O cometa Halley nos acena
Como nação que se festeja

 

CORSINO FORTES é sem sombra de dúvidas uma das maiores vozes da poesia em língua portuguesa, das últimas décadas. É inegável que a osmose e a identificação entre o Poeta e a Palavra, entre a Palavra e a consciência nacional, ou sentido de Pátria, é não só um facto, mas o facto capital da sua poesia. Para Corsino, na sua poesia embora em Português, todo o "material e/ou mobiliário" deverá ser de identificação Cabo-Verdiana, na sua fatia universal, da sua experiência humana, da sua coexistência, do seu conteúdo e podendo-se inclusive afirmar, da sua semântica. É nesse contexto que o primeiro livro, Pão & Fonema, da trilogia A cabeça calva de Deus, que incorpora também Árvore & Tambor e Pedras de Sol & Substância, procura de forma emblemática e até de forma telúrica, expressar essa luta titânica de afirmação do homem cabo-verdiano, entre a secura do céu e a cabeça calva da Ilha.

(2) A cabeça calva de Deus apresenta-se-nos como uma trilogia fundacional e épica da história do país, e que nos revela com o último livro, fundamentalmente, a vertente arqueológica e cultural, ao executar nos três cantos a substância solar da criatividade cabo-verdiana, nas suas múltiplas vertentes, musical, pictórica, literária, política, etc, que ductilizam a dureza mineral das ilhas no paciente requebro nostálgico da morna, na ordem compassada do rondó, ou no ritmo agitado e harmónico da antiga mazurca ou do funaná. Amanhecer sagrado de mundo, esta Cabeça calva de Deus oferece-nos na sua força criadora uma trilogia em que, simultaneamente, Cabo-Verde também de novo nasce, como terra, como país, como pátria, como identidade e como cultura, fora e dentro do poema".

A sua poesia é assim, uma poesia fundacional e da identidade, condensando o universo Cabo-Verdiano, configurado num percurso que vai da anunciação da libertação do país(primeira fase), passando pela sua exaltação(segunda fase) e acabando na sua mitificação.

Repare-se no poema "Proposição", onde estão ilustradas todas as características que se vão expoensiar ao longo da obra (seca, emigração, a metáfora permanente da alimentação através das pedras, etc) num uso obsessivo, que se mantém ao longo dos poemas, da sinédoque e metonímia.

PROPOSIÇÃO

Ano a ano

..............crânio a crânio

Rostos contornam

...............o olho da ilha

Com poços de pedra

...............abertos

...............no olho da cabra

(..)

Ano a ano

..............crânio a crânio

Tambores rompem

..............a promessa da terra

Com pedras

Devolvendo às bocas

As suas veias

..............De muitos remos

Corsino Fortes mostra-nos que o sonho não deverá ser partir, mas renascer e reconstruir, fundando uma nova nação. O tema evasionista é assim, recriado em Mar & Matrimónio . Por outro lado, sobre um fundo telúrico, exalta-se o valor da cultura de Cabo-Verde. O arquipélago detém uma identidade e força fundacional, que permite o seu renascimento, bastando trabalhar, plantar, reconstruir. Nega-se a evasão porque o tempo e o espaço ideal, coincide com o tempo e espaço real. Assim se celebra a odisseia do povo Cabo-Verdiano, que pela sua grandiosidade e potência engendradora, se torna no "farol da humanidade"n na "cabeça calva de Deus", a partir das suas limitações geoclimáticas e telúricas.

Como refere o próprio Corsino, nos seus poemas, (3) "Há uma materialização de aspectos, não só de ordem literária, mas também de ordem pictórica e musical. É tudo aquilo que pode significar a identidade deste espaço, e dos que habitam o mesmo, dentro e fora do arquipélago".

Temos assim, uma poesia e obra, que é uma janela e uma radiografia cronológica de Cabo-Verde, pintada com poesia que tem cheiro e respira. O mais fecundo amor de um espaço, de uma nação, de um corpo que é o seu próprio corpo. Veja-se esta secção do poema "Emigrante":

Aguardam-te

..................os rostos que explodem

...................no sangue das formigas

...................novos campos de pastorícia

Mas

...............quando o teu corpo

.......................sangue & lenhite de puro cio

Erguer

.............sobre a seara

A tua dor

E é teu orgasmo

Quem não soube

Quem não sabe

....................................Emigrante

Que toda a partida É potência na morte

E todo o regresso É infância que soletra

É pois uma poesia de amor e/ou identidade de um espaço, uma poesia de funda(menta)ção onde verificamos um conjunto de textos centrados (4)"sobre a definição de uma identidade territorial, histórica, cultural e afectiva(...), a força vital, cosmogónica", o "umbigo de Deus", na profecia de uma nova nação, o nascimento do novo, o futuro ao alcance das mãos. Atente-se no seguinte poema, onde assistimos à exortação do povo à fundação do espaço Cabo-Verdiano, na sua história de povo, de cultura, de língua e fonema, presos na secura insular e colonial, que se romperá.

Ao tambor de tal tâmara

...........................................E

Do som

..........................................E da saliva

Volva o ovo o colmo

..........................................Que te apelidam

Do fonema ao fruto

Dedo a dedo polegar e seiva

Na tosse da carne óssea

.......................................Tossindo

De gema - fogo no poço dos joelhos...

.......................................Agora povo agora pulso

....................agora pão

....................agora poema agora

 
Corsino Fortes .............J.C. de Melo Neto....

 


 



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