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JOÃO RASTEIRO

CORSINO FORTES e JOÃO CABRAL de MELO NETO
ou OS ARTÍFICES da PALAVRA

INDEX

Introdução
Corsino Fortes: poesia da identidade
A ilha: recriação de Cabo Verde na recriação da palavra
O “Pedreiro da palavra”
João Cabral: poesia da busca
O Sertão: poesia escrita na pedra
O “O engenheiro da palavra”
Semelhanças e diferenças no fazer poético
Conclusão
Notas
Bibliografia

ANTOLOGIA “OS ARTÍFICES DA PALAVRA”
Corsino Fortes
João Cabral de Melo Neto

JOÃO CABRAL de MELO NETO:
poesia da busca

O homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
(...)
o inevitável ponto final.

 

João Cabral de Melo Neto é um dos maiores nomes da história da literatura brasileira. João Cabral apresenta-nos uma poesia, que é um marco dentro da poesia em língua portuguesa. A sua obra desencadeou uma revolução formal das mais importantes na história da poesia brasileira e até da poesia em língua portuguesa. Ela representa a maturidade das conquistas estéticas mais radicais do século XX. Em 1980, o poeta afirmava: "A poesia funciona como um pêndulo. Numa hora oscilou para o rigor e eu coloco aí o concretismo e a práxis. Agora o relógio vai noutra direcção (...). Parece que as pessoas criam em dois minutos, de um só jacto, e que não têm paciência de ler". João Cabral, opondo-se ao principal curso da poesia brasileira, sempre sentimental, retórica e ornamental, constrói uma poesia "não-lírica", não confessional, presa à realidade que o cerca e essencialmente dirigida ao intelecto. Augusto de Campos afirmou: (13)"Pode-se dizer que ele não tem antecedentes na poesia brasileira, a obra dele tem consequentes. Porque é a poesia concreta que vai manter, continuar, expandir e levar para outros caminhos, essa linhagem de uma poesia não sentimental, de uma poesia objectiva, uma poesia de concretude, uma poesia crítica, como é a poesia de João". Cronologicamente, João Cabral de Melo Neto situa-se entre os poetas da geração de 45, embora viesse a trilhar caminhos próprios, ampliando certos traços que já se delineavam na poesia de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, nomeadamente a poesia substantiva, a reflexão filosófico-literária, a objectividade e a precisão dos vocábulos. Aliás, "Pedra do sono", a sua obra inaugural, já apresentava uma determinada inclinação para a objectividade, embora esteja mais identificada com a orientação surrealista, como se pode observar nos versos seguintes:

O mar soprava sinos

os sinos secavam as flores

as flores eram cabeças de Santos.

A partir da obra seguinte, "O engenheiro", verifica-se um afastamento da linha surrealista e uma tendência crescente à geometrização e à exactidão da linguagem e/ou sintaxe, como se João Cabral, procurasse seguir o caminho e/ou exemplo de um "engenheiro". Repare-se na reflexão do poeta, sobre o acto de escrever e o mistério da criação literária, na obra acima citada, e onde temos o verso, como um ser vivo que brota do papel inanimado, isto é, sem vida. Veja-se o poema "O poema":

O poema  

A tinta e a lápis

escrevem-se todos

os versos do mundo.

Como o ser vivo

que é um verso,

um organismo  

com sangue e sopro,

pode brotar

de germes mortos?

 

O papel nem sempre

é branco como

a primeira manhã.

É muitas vezes

o pardo e pobre

papel de embrulho;

(...)

Como um ser vivo

pode brotar

de um chão mineral?

Temos assim em João Cabral, um acto permanente de busca através da poesia, através da palavra. Uma poesia que é exemplar ao nível da singularidade e complexidade poética, e assente numa construção rica e comprometida com o real e o humano. Considerado o melhor poeta da última fase do Modernismo, mostra-se profundamente interessado em afastar o sentimentalismo dos versos, "lutando" vivamente para "purificar" a poesia recebida das primeiras gerações modernistas. Todo o seu acto e/ou "trabalho" duro na pedra, está marcado pela preocupação formal. As influências exercidas sobre a sua obra, são, numa primeira fase, originárias do "sopro" francês, nomeadamente, Mallarmé e Valéry. Segue-se a influência espanhola, reforçando a sua modernidade através de Jorge Guillén our até do italiano Montale. Finalmente, numa terceira fase, concentra os dois períodos anteriores, unidos por temas nacionais (mas não nacionalistas), e reflexão meta - poética. Aí, a sua linguagem entrega-se totalmente à sintaxe precisa, salpicada da vivência nordestina. Atente-se no poema "A voz do coqueiral", onde o poeta examina o som próprio do coqueiral, em contacto com o mar do Recife:  

O coqueiral tem seu idioma:

não o de lâmina, é voz redonda:  

é em curvas sua reza longa,

de certo aprendida das ondas,  

cujo sotaque é o da sua fala,

côncava , curva, abaulada:  

dicção do mar com que convive

na vida alísia do Recife.

Tais características, concorrem para o rigor técnico e o ritmo impecável dos versos de João Cabral, cumprindo o percurso da poesia brasileira pós-experimentalismos de 22. A sua poesia e/ou poética é auto-explicativa, suportada na sua principal temática, a reflexão do fazer poético, em que a linguagem aparece reduzida ao essencial, nessa permanente busca da "palavra", mas também essa busca incessante de técnicas diferentes de expressão, numa atitude de vigilância e lucidez no "fazer", e, ao mesmo tempo, contrária ao "deixar-se fazer" e ao "saber fazer". É uma luta difícil, nunca alcançada de imediato, visto tratar-se de uma luta permanente, mas que se vai "fazendo" mais e mais presente, em cada poesia, em cada palavra, em cada silêncio. Cabe ao poeta, então, através da acção reveladora e infindável da linguagem e/ou palavra, soltar e/ou saltar para o voo que rompe as margens da língua, pois como "gritou" João Cabral, no poema "Antiode":  

Flor é o salto

da ave para o voo;

o salto fora do sono

quando seu tecido

 

se rompe; é uma explosão

posta a funcionar,

como uma máquina,

uma jarra de flores.

É pois, quase impossível falar sobre João Cabral, sem recorrer abundantemente aos seus próprios versos. É que João Cabral, como Mallarmé, Pound, Maiakóvski, Eliot e outros, é um poeta - crítico, ou seja, um poeta que analisa e critica o fazer poético nos seus poemas (aliás, a melhor crítica de poesia que se fez no século XX, não foi feita por críticos, mas, por poetas), em poemas como "Antiode", "Psicologia da Composição", "A palo seco", etc. Mesmo se para João Cabral, a poesia seja "inútil", mas ao mesmo tempo necessária, mesmo sabendo-se que detestava ser chamado de "poeta" e tendo afirmado nunca ter querido escrever "poesia", João Cabral, em 1982, lançou "Poesia crítica", onde reuniu poemas cujo tema é a criação poética. Aí, é o artista reflectindo sobre a arte e sobre o seu próprio trabalho, consciente do seu ofício. No prefácio do livro, João Cabral manifesta-se da seguinte forma: (14)"Talvez possa parecer estranho que passados tantos anos de seus primeiros livros, o autor continue se interrogando e discutindo consigo mesmo sobre um ofício que já deveria ter aprendido e dominado. Mas o autor deve confessar que, infelizmente, não pertence a essa família espiritual para quem a criação é um dom, dom que por sua gratuidade elimina qualquer inquietação sobre sua validade, e qualquer curiosidade sobre suas origens e suas formas de dar-se."

É esta angústia, esta permanente dúvida, que leva João Cabral a uma busca infinita, ilimitada e infindável. Para João Cabral, o acto de escrever consistiu sempre, num trabalho imenso de depuração, as palavras sempre saboreadas e seleccionadas pelo seu "sabor" e "peso", não podendo "boiar" sem norma e/ou reflexão, como é exemplo o poema "Catar feijão", onde o poeta do simples acto de catar feijão, faz uma impressionante reflexão sobre a acção de escrever, apontando as semelhanças e as diferenças.  

Catar feijão  

Catar feijão se limita com escrever:

jogam-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na da folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar.

Certo, toda palavra boiará no papel,

água congelado, por chumbo seu verbo:

pois para catar esse feijão, soprar nele,

e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

(...)

um grão qualquer, pedra ou indigesto,

um grão imastigável, de quebrar dente.

 
Corsino Fortes .............J.C. de Melo Neto....

 


 



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