Paulo Alexandre Pereira
(Univ. de Aveiro/Portugal)

Uma «arqueologia produtiva»:
Natália Correia e a tradição trovadoresca

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6

Parte 4

4. O eco dos cancioneiros galego-portugueses na obra poética de Natália Correia assume uma escala de ampla verberação. Reclamando-se herdeira da grande família trovadoresca («Sou filha de marinheiros, / pelo mar que também quis./ Pela linha da poesia / Sou neta de D. Dinis»37), o intertexto lírico medieval pode simplesmente representar um tributo poético celebratório, como na composição dedicada à Ribeirinha, «inspiradora de trovadores»38. Com mais frequência, a prática citacional cauciona uma espécie de cânone nacional, pelo engastamento no texto receptor de ecos verbais de cantigas galego-portuguesas, verdadeiros versículos da portugalidade. É o que acontece, por exemplo, no discurso de defesa da Feiticeira Cotovia de Dimensão Encontrada,

Vou pelos campos de linho
Do poeta D. Dinis
Atirar a flor de pinho
Que onde cai é um país.39

no poema «Aeroporto»,

«Para a leda flor de pinho dos nervos lusitanos/
Franqueforte é farmácia que não está de serviço»40.

ou no libelo lançado contra o abastardamento da língua patente em «Língua Mater Dolorosa»:

«Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda e bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luiz Vaz a chama joalhada»41.

O mesmo símile do verde pinho pode, inversamente, traduzir o desencanto político que sobrevém à falência da utopia revolucionária de Abril, como ocorre no poema X de «Sacrifício»:

E veio Abril: cravos camonianos
Aparelharam da liberdade as barcas.
Do verde pinho as flores foram-me enganos
As tecelãs do sonho eram as parcas42.

Optativamente, pode o texto dionisíaco encontrar-se ao serviço do elogio visualista do cenário natural do Midi trovadoresco. O poema «Ab lo temps que fai refreschar lo segle», cujo título retoma o verso inicial de uma canso de Cercamon, glosa a proposição ao canto colhida no rei-trovador:

Quero eu à maneira de provençal
como da flor manda o código incivil
comutar a frança na última instância
desta pulsação de âmbar e anil.43

Em ocasiões, a tradição lírica galego-portuguesa pode implantar-se num regime imagístico surrealizante, compondo um quadro poético de tonalidade caótica e turbulência apocalíptica, em que as sugestões de renovo e de fecundidade primaveris, condensadas no refrão da conhecida bailia de Airas Nunes, se transmudam em dança macabra:

Bailemos nós biliões de canalhas
sob os morteiros destas verdes faias!
Bailemos nós biliões de aflitos
sob as granadas destes eucaliptos!
Bailemos nós biliões de formigas
sob os ramos nucleares destas ogivas!
Bailemos nós biliões de carneiros
sob as flores de fogo destes bombardeiros.44

É, contudo, em Cantigas de Amigo, um conjunto de textos constante dos inéditos posteriores a 1990, que Natália Correia erige em programa poético a lição formal dos cancioneiros. A publicação destas variações neotrovadorescas, inicialmente projectada em conjunção com os Sonetos Românticos, aspirava à restauração de um androginato lírico primordial, ou seja, intentava os «esponsais» do soneto, «estreme desenvolvimento da mística amorosa dos Trovadores que na voz do homem falava nas ‘cantigas de amor’» com a «canção feminina arborescentemente sófico-pagã na sua sábia comunhão com a Natureza»45. Só mais tarde, acrescenta a autora, terá chegado à verificação de que «consumada estava a incorporação do fêmeo no macho e do macho no fêmeo no ‘ouro da culminação da obra poética’ a que se dá o nome de Soneto»46.

31 Manuel Frias Martins, «Natália Correia: A Luz do Olhar em Sonetos Românticos», in As Trevas Inocentes, Lisboa, Aríon, 2000, p. 89.

32 Natália Correia, Cantares dos trovadores galego-portugueses, p. 43.

33 Idem, ibidem, p. 44.

34 Natália Correia, «Posfácio. Continuidade da Cultura», in Moisés Espírito Santo, Origens orientais da religião portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga, Lisboa, Assírio e Alvim, 1988, p. 393.

35 Encontra-se um ponto da situação equilibrado e revisão bibliográfica sobre o assunto em Ana Paula Ferreira, «Telling Woman What She Wants: The Cantigas de Amigo as Strategies of Containment», Portuguese Studies, vol. IX (1993), p.23-38. Para um rastreio perspicaz das instâncias de misoginia velada na canso occitânica, veja-se Simon Gaunt, «Poetry of Exclusion: A Feminist Reading of Some Troubadour Lyrics», The Modern Language Review, 85 (1990), p. 310-29 e Sarah Kay, «Gender and Status», in Subjectivity in Troubadour Poetry, Cambridge, Cambridge University Press, 1990, p.84-111.

36 António Resende de Oliveira, «Para uma integração histórico-cultural do canto trovadoresco galego-português», Mathésis 8 (1999), p. 30.

37 Natália Correia, Poesia Completa, p. 61.

38 Idem, ibidem, p. 497.

39 Idem, ibidem, p. 187.

40 Idem, ibidem, p. 374.

41 Idem, ibidem, p. 405.

42 Idem, ibidem, p. 427.

43 Idem, ibidem, p. 385.

44 Idem, ibidem, p. 264-65.

45 Idem, ibidem, p. 619.

46 Idem, ibidem, p. 619.

 

 




 



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