Paulo Alexandre Pereira
(Univ. de Aveiro/Portugal)

Uma «arqueologia produtiva»:
Natália Correia e a tradição trovadoresca

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Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6

Parte 3

Sublevando-se contra a potestade marital do patriarcado coercivo, o amor cortês é naturalmente adúltero, exacerbando-se «na destruição da virilidade, ou melhor, dos aspectos típicos que esta assume numa cultura matrista»23. Esta duplicidade erótico-tanatológica – subsumível, em última instância, a uma bipolaridade algo maniqueísta feminino-masculino– é aprofundada por Natália Correia num estudo que mereceu escassa divulgação, sugestivamente intitulado «Bissexualidade e Ruptura Romântica na Poesia Portuguesa». Aí avança-se a seguinte tese:

«Sendo lícito sexuar os corpos sociais desde que neles predominem comportamentalmente ora características masculinas, ora femininas, ora bissexuais, é esta última conduta que, numa relação conflitual macho-fêmea, se manifesta no comportamento psicossocial português até ao período que, em literatura, se chamou romântico e liberal em política»24.

Esta bissexualidade psicossocial encontra-se, assim, plasmada na confrontação conflitual de dois sistemas comportamentais: o matrismo, caracterizado pela «religião da mãe, liberdade em questões sexuais, democracia, posição privilegiada da mulher que goza de liberdade, progressismo, pouca diferença entre os dois sexos» e o patrismo, «marcado pela intolerância em matéria de sexualidade, pelo autoritarismo político, pelo conservadorismo, pela inferioridade da mulher considerada fonte de pecado, pelo ascetismo, pelo horror do prazer e por toda uma gama de intolerâncias que se manifestam na religião do pai»25. Daqui decorre que o sistema de géneros da poesia lírica galego-portuguesa espelha rigorosamente esta ambivalência esquizóide do carácter português, hesitante entre estes dois modelos: por um lado, o lirismo amatório, e a cantiga de amor em particular, encetam a apologia do Eros construtivo e regenerador da feminilidade; o cancioneiro de burlas, por seu turno, traduz a inexorabilidade destrutiva de Thanatos. No cancioneiro satírico, nas palavras de Natália Correia, «a mulher sófica degrada-se em fêmea évica»26, dado que

«Numa margem a rendição à superioridade do feminino inscrito na vinculação aos mitos matristas pré-cristãos ligados a um tipo de cultura transmitida pela memória colectiva. (...) Na outra margem, temos o enaltecimento da superioridade masculina infundido pela patriarcalidade eclesiástica que, santificando a mulher enquanto virgem, como fêmea, a concebe desprezível»27.

A «ruptura romântica» a que a autora alude traduz-se justamente no esbatimento da cisão bissexual, sinalizada pelo triunfo dos «comportamentos agrupados no ciclo matrista»: «a pluralidade contra a linearidade absolutista, a bondade do homem natural pervertido pela organização social, os direitos do amor contra a razão do Estado e o apreço pelo popular»28. E será aqui oportuno um breve regresso às afeições electivas de Natália Correia, no que respeita à periodização literária, e à transversalidade do seu conceito de um sempiterno romantismo. O enfeudamento romântico do canto trovadoresco é explicitado nos seguintes termos:

«Quer o trovadorismo quer o Romantismo, que daquele retoma o tema da liberdade através da ascese amorosa, doutrina que tem por núcleo a mulher, são reacções contra uma identificação paterna, na medida em que esta representa o princípio da autoridade, o espírito das leis mediante as quais se exercem os imperativos de um mundo patriarcalmente organizado»29.

Paralelamente, contrasta-se a ancestralidade clássica da canso occitânica com a genealogia romântica da cantiga de amor galego-portuguesa, na qual «o pensamento criador é substituído pelo sentimento criador»30. Na perspicaz leitura que desenvolve de Sonetos Românticos, Manuel Frias Martins reconhece que o parentesco periodológico sugerido no título não é tanto com o correspondente movimento literário oitocentista, mas antes com «o espírito da arte romântica, tal como Hegel a entendeu enquanto elevação do espírito, beleza da interioridade e subjectividade espiritual»31.

Empenhada na «pesquisa das origens matriarcais da cantiga de amigo»32, no desvelamento da «moldura rigorosamente matrista dentro da qual se desenvolve a poesia de iniciativa feminina»33, na reconstituição do «espectro de uma arcaica composição ginecocrática»34, Natália Correia submete os textos galego-portugueses a um crivo hermenêutico que remete para a penumbra o facto, sublinhado à saciedade pela crítica mais recente, de que a lírica trovadoresca é, por definição, essencialmente homossocial, isto é, um assunto de homens, mesmo quando (e sobretudo se) se fala de mulheres. A cantiga de amigo não representa, a este respeito, excepção: a astuta usurpação da vocalidade feminina perpetrada pelos poetas masculinos significa que à mulher é conferida existência, apenas na justa medida em que o homem fala com ela, através dela ou sobre ela35. Não será, portanto, desprovido de ironia o facto de que talvez, como defende António Resende de Oliveira, «nunca a voz da mulher tenha soado tão androcêntrica: é que a amiga era puro desejo masculino»36.

 

21 Idem, ibidem, p. 24

22 idem, ibidem, p. 27.

23 Idem, ibidem, p. 30.

24 Natália Correia, «Bissexualidade e Ruptura Romântica na Poesia Portuguesa», in Francisco Allen Gomes, Afonso de Albuquerque, J. Silveira Nunes (eds.), Sexologia em Portugal, II volume («Sexualidade e Cultura»), Lisboa, Texto Editora, 1987, p. 41.

25 Idem, ibidem, p. 41.

26 Natália Correia, «Notas para uma introdução às cantigas d’escarnho e de mal dizer galego-portuguesas», in Estudos de História de Portugal. Homenagem a A . H. de Oliveira Marques, vol. I (sécs. X-XV), Lisboa, Estampa, 1982, p. 158.

27 Natália Correia, «Bissexualidade e Ruptura Romântica na Poesia Portuguesa», p. 42.

28 Idem, ibidem, p. 45.

29 Idem, Cantares dos trovadores galego-portugueses, p. 28.

30 Idem, ibidem, p. 36.

 

 




 



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