Paulo Alexandre Pereira
(Univ. de Aveiro/Portugal)

Uma «arqueologia produtiva»:
Natália Correia e a tradição trovadoresca

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6

Parte 2

Paradoxal em aparência, esta aliança do esteio lírico trovadoresco e do arrojo experimental de vanguarda transforma-se em enlace necessário em Natália Correia que, com denodada ou até histriónica grandiloquência, proclamou o papel transformador da tradição, na demanda daquela que é a mais íntima aspiração do homem: «uma revolução pelo espírito»5. Já em Poesia de arte e realismo poético (1959), expendia a autora considerações sobre o seu entendimento da essência do moderno:

«A verdadeira essência do moderno é a recusa cabal do contemporâneo mesmo quando, ou melhor, sobretudo quando o contemporâneo é encarnado num conceito de modernidade. Porque o fenómeno de conceitualização pressupõe uma marcha no tempo que, mau grado a sua aparência de vanguarda, caminha em direcção ao passado, onde está a sua fonte»6.

No entanto, esta imperiosa revisitação da tradição, como muito justamente nota Fernando J.B. Martinho, não obriga à replicação conservadora de uma qualquer linhagem literária. Inversamente, «a tradição que Natália Correia recupera na sua poesia é a tradição da rebeldia, da insubmissão, da insurreição – a tradição que os poderes estabelecidos, ao longo dos séculos, têm marginalizado e tido por heréticos, heterodoxos, feiticeiros»7.

Não foi fortuito nem efémero o convívio de Natália Correia com a poesia lírica-galego-portuguesa; ao contrário, esta intersecta consistentemente quer a sua obra poética, quer o seu labor ensaístico, transformando-se, neste último caso, em campo dilecto de inquirição. O ensaísmo de reflexão histórico-literária constitui, aliás, em Natália Correia, uma espécie de antecâmara especulativa da sua criação poética e é nele discernível aquela «vontade de estilo»8, que deixa adivinhar a sua confinidade com o território do literário, para além de desvelar as afinidades periodológicas electivas da
autora.

A inclinação afectiva pela tradição trovadoresca compagina-se, antes de mais, com a apologia reiterada da ibericidade e da unidade luso-galaica, de que Somos todos hispanos (1988) constituirá a formulação doutrinária. Neste opúsculo, afirma a autora que, já nas primícias nebulosas do trovadorismo, se delineia a tríade singularizadora da cultura nacional, cindida entre o apelo terrenho, a dilatação continental e o impulso atlântico:

«Logo no despontar do nosso lirismo nele se reúnem os três constituintes da cultura portuguesa. Predominam naturalmente nessa fase pré-expansionista a interioridade que se manifesta no ruralismo das «cantigas de amigo» e o foro mediterrâneo traduzido na mística amorosa do provençalismo que refinámos numa sentida efusão. E já o mar faz avançar os seus direitos no maldito sea el mar / que mi faz tanto male de Rui Fernandes, nas barcas que El-Rei de Portugal manda lavrar e nas frores que briosas van en o barco do trovador-almirante Pay Gomes Charinho»9.

O traçado das motivações mais intrinsecamente literárias desta afeição trovadoresca torna-se mais nítido pela leitura dos prefácios e das notas inclusas nas antologias O Surrealismo na Poesia Portuguesa (1973) e Antologia da Poesia do Período Barroco (1982). Refractária ao seguidismo apassivante de escolas literárias – «Não sou ovelha de nenhuma igreja», afirmara em entrevista10 – é iniludível a simpatia teórica e identificação estética da autora com particularidades dos estilos de época configurados nas instâncias periodológicas do Barroco, do Romantismo e do Surrealismo. E, sendo por demais evidente que a elocução poética de Natália Correia presta tributo confesso a esta trindade literária, natural se torna que cada movimento seja tomado como orientação artística transtemporal, extravasando, enquanto tendência cognata da criação, a fixidez de uma cronologia balizada pela história literária convencional. É justamente aqui que entra a lírica medieval, por nela se fazer radicar a prefiguração antecipatória das linhas de força estéticas e ideológicas que os movimentos
irão substanciar em etapas literárias ulteriores. No tocante ao «continuum surrealista», Natália Correia reconhece naquele a exploração dos efeitos de uma «imagística e (...) dos ilogismos da poesia popular»11 aparentados com os do cancioneiro de amigo, uma «ocupação do espaço (...) pelo Amor (...) cuja retrospectiva se inicia com a religião erótica dos trovadores»12 e uma propensão para o humor negro, uma «bomba no mecanismo repressivo do tempo, demonstrando que pela alta magia da vontade o homem é capaz de transformar o não-prazer em prazer»13, afim, neste caso, da sátira galego-portuguesa. E, deste modo, numa seguramente consciente heterodoxia crítica, emparceirando com textos dos mestres surrealistas, Natália Correia faz figurar na antologia a célebre cantiga de Meendinho ou um escárnio de João Airas de Santiago. No que diz respeito à poesia barroca, as analogias com a poética medieval são explanadas nas considerações prefaciais da autora, que reverbera juízos estéticos e lugares críticos consabidamente convocados a propósito do trovadorismo galego-português. Aduzo apenas dois exemplos que comentarei brevemente:

«Aqui são reconhecíveis os sinais de uma literatura que subentende a força mágico-transformadora da poiesis, que se assume como acção, que se desliteraliza para se hominizar, como nos nossos dias aconteceria com o Surrealismo (aristotélico, malgré lui, nos seus rasgos mágico-transformistas) cuja extracção barroca é irresistível reconhecermos na tenaz impugnação das mistificações idealista e racionalista».

«Enquanto o espírito renascentista marca o cume da tradição apolínea greco-latina, apropriada ao exercício do génio lógico masculino, o Barroco liberta as forças do irracional, do nocturno, do mágico e do fantasmal, a fim de surpreender uma cosmicidade que a direcção racionalista não atinge».14

O indisfarçável favor crítico dispensado por Natália Correia a esta literatura que se desliteraliza para se hominizar, investida de uma força mágico-transformadora de cunho ritual, dificilmente pode deixar de evocar a auto-referencialidade de uma poesia formal ou a circularidade do grande canto cortês trovadoresco, na formulação de Zumthor, que parece existir como pura linguagem, alheada da sua capacidade designativa em relação ao universo. Deste modo, a busca da essencialidade expressiva, a demanda de uma lira mínima, de par com um certo «cultismo surrealizante»15, constitui, porventura, uma das facetas desta herança trovadoresca da poesia de Natália Correia que, sintomaticamente, apõe como epígrafe à «Ode do Agravo Geral»: «O valor das palavras na poesia é o de nos conduzirem ao ponto onde nos esquecemos delas. O ponto onde nos esquecemos delas é onde nunca mais se pode ter repouso»16.

Contudo, é a análise da introdução aos Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses (1970)17 que permite identificar o ponto nodal da argumentação de Natália Correia, no tocante à revolução cultural cuja deflagração é concomitante com o advento do canto trovadoresco. No breve conspecto que apresenta em torno das teorias explicativas das origens líricas, seguramente decalcado da obra seminal de Rodrigues Lapa18, Natália Correia inventaria as virtualidades interpretativas e insuficiências das teses médio-latina, folclórica, litúrgica e cátara na cabal justificação da ética e da erótica trovadorescas, particularmente do fenómeno do amor cortês. É reconhecida à fin’amors uma radicalidade disruptiva, no complexo ideológico da medievalidade, potenciada pela «descoberta do espírito feminino»19. O espírito matrista cristalizado na lírica cortês, reminiscência de uma «cultura pré-helénica de estrutura matriarcal»20, explica que o amor seja «concebido como agente de subversão»21. Esclarece a autora:

«O amor trovadoresco não exprime um ajustamento da realidade e do conceito do amor e do amar, mas é um conceito que quer operar sobre a realidade, transformá-la, ou seja, converter a situação passiva da mulher em princípio activo, a mulher que inspira o amor que integra a personalidade do homem, a fim de que este reconquiste a sua natureza una, perdida na pluralidade que o escraviza à autoridade desnaturante. Nestes termos, a valorização do princípio feminino, a exaltação do amor como portador do valor da unificação que liberta é uma arma contra a autoridade que oprime o livre exercício da individualidade»22.

 

4 Retomamos aqui a tipologia do neotrovadorismo exposta por Teresa López em O neotrobadorismo, Vigo, Edicións A Nosa Terra, 1997, p.30-31.

5 Mário Ventura, Conversas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, p.138.

6 cit. por Fernando J.B. Martinho, Tendências dominantes da poesia portuguesa da década de 50, Lisboa, Edições Colibri, 1996, p. 75.

7 Idem, ibidem, p. 75.

8 A expressão de Juan Marichal é utilizada por Rosa Maria Goulart, Literatura e Teoria da Literatura em Tempo de Crise, Braga, Angelus Novus, 2001, p. 22.

9 Natália Correia, Somos todos hispanos, Lisboa, O Jornal, 1988, p. 8.

10 Expresso, 2 de Fevereiro de 1991.

11 Natália Correia, O Surrealismo na poesia portuguesa, Mem-Martins, Publicações Europa-América, 1973, p. 10.

12 Idem, ibidem, p. 63.

13 Idem, ibidem, p. 112.

14 Natália Correia, Antologia da Poesia do Período Barroco, Lisboa, Moraes, 1982.

15 A expressão é de Eugénia Vasques, «Encontro Final», Expresso-Cartaz, 25/9/1999.

16 Natália Correia, Poesia Completa. O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999, p. 123. Todas as citações da obra poética reenviam para esta edição.

17 Por extravasar o escopo deste estudo, não nos deteremos sobre os processos de reescrita (ou, mais rigorosamente, de tradução diacrónica) dos textos trovadorescos antologiados por Natália Correia. Veja-se, sobre o assunto, a estimulante análise de António Fournier, «Natália Correia e a tradução da lírica trovadoresca galego-portuguesa», in Sobre o Tempo, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 2001, p.377-406.

18 Rodrigues Lapa, Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade Média, Lisboa, Seara Nova, 1929.

19 Natália Correia, Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, Lisboa, Estampa, 1978 [1970], p. 15.

20 Idem, ibidem, p. 23.

 

 




 



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