NICOLAU SAIÃO

Poesia e Sociedade – dois aspectos complementares*

O homem é perecível; pode ser. Mas pereçamos resistindo
e se, ao fim, o que nos está reservado é o vazio e o nada,
façamos com que isso seja uma injustiça.”
Étienne de Senancour

INDEX

I - Introdução
II. O artista e a fascinação do mundo
III. A recriação da natureza

POEMAS LIDOS NA OCASIÃO
- Encontro em Paris
- Variações para um amigo que me endereçou um repto
- Fala do pastor no dia seguinte 
-
Genealogia
- Primeiro poema de Samyaza

II. O artista e a fascinação do mundo

É por dentro do artista que tudo existe com mais intensidade: lugares e gentes, os grandes impulsos que fazem aparecer e desaparecer os astros e as coisas. Por isso, a mão do poeta, essa mão insólita que escreve, é uma sombra que entre as árvores e as casas, entre os sentimentos efémeros e os desertos do quotidiano, tenta seguir a trajectória do que somos, uma vez que a realidade existe em vários planos seccionados, como se fosse uma sequência de fotografias deslocadas ao longo do horizonte mas contempladas de diversas perspectivas.

Hoje, como em todos os tempos, não acalentamos ilusões: o Sistema (e reparem que não me refiro ao poder , pois há diversos poderes e muitos deles legítimos) no mínimo encara os poetas de lado. O que é natural, uma vez que estes usam pagar-lhe na mesma moeda.

Refiro-me, naturalmente, a poetas mesmo e não a membros da coorte de lambedores de botas ou de apepinadores que por vezes têm o descaramento de se ornamentar com essa designação e que a dita entidade usa apoiar, acarinhar e privilegiar sem rebuço de uns e de outros, com mútuos e doces proveitos.

Lembremo-nos que esse tal Sistema é o resultado de uma conflitualidade frequentemente espúria, que parte sempre não das legítimas necessidades do Homem mas da sua indiferenciação. O que os seus próceres visam – não tenhamos medo das palavras – é se possível extinguir nas pessoas o sopro de autonomia que em todos, ainda que sufocado ou submerso, existe. Era por isso que a antiguidade e a medievalidade tentavam reservar ao poeta os papéis de empecilho ou de bobo, buscando expulsá-lo da Cidade e, mais tarde, do espaço de religação. E é por isso que tempos atrás, no Irão fundamentalista, foram de uma só vez encarcerados vinte e tal poetas, muitos deles conhecedores e receptáculos da sabedoria sufi, com o pretexto de que não estavam de acordo com os preceitos do Islão. E era por isso também que no Leste os verdadeiros poetas (ou seja, os que procuravam as secretas virtualidades da escrita – que correspondem às virtualidades da vida – ao desconstruirem a linguagem em busca de novos mundos ou de continentes perdidos) eram substituídos por praticantes de uma presumível poesia popular que nada mais era que impostura de baixa qualidade (artesanato, que os autoritários espertalhões e as elites tanto “amam” porque é lindo e inócuo). Não devemos esquecer, a este propósito, que como dizia Gonzague de Reynold “a inteligência, para os hipócritas, é sempre algo que vem do demónio, sobretudo para os hipócritas pouco inteligentes”. Felizmente que as forças espirituais mais intensas da humanidade, plasmadas nas palavras dos poetas, resistem e multiplicam-se. É a viagem de nós a mundo, como referi algures num poema – e que por mais que tentem não pode ser destroçada. Desiludam-se os ulemas de todos os quadrantes: haverá sempre palavras que sairão de nós, entrarão em nós, calmas e ardentes de sugestão e procura. Como, na verdade, se tudo fosse um jardim dos tempos da nossa infância – porque as palavras com que nos erguemos e definimos são verdadeiramente o mapa da nossa navegação entre os diferentes sinais da vida iluminada e para sempre no coração das pessoas. Nós, que sofremos como qualquer cidadão os embates de um quotidiano frequentemente lamentável, nunca perderemos contudo a nossa alegria, que depende directamente da nossa faculdade de jogarmos com a linguagem o “ grande jogo ” , que é o da criação e o da busca de novas relações entre ela e os ritmos do mundo.

 

*(Intervenção de NS na sessão levada a efeito no “Ateneo Cultural” de Badajoz)

 
 

 

 

 

 

 

 


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