NICOLAU SAIÃO

Poesia e Sociedade – dois aspectos complementares*

O homem é perecível; pode ser. Mas pereçamos resistindo
e se, ao fim, o que nos está reservado é o vazio e o nada,
façamos com que isso seja uma injustiça.”
Étienne de Senancour

INDEX

I - Introdução
II. O artista e a fascinação do mundo
III. A recriação da natureza

POEMAS LIDOS NA OCASIÃO

- Encontro em Paris
- Variações para um amigo que me endereçou um repto
- Fala do pastor no dia seguinte 
-
Genealogia
- Primeiro poema de Samyaza

Genealogia

Meu tetravô de Pontevedra que agora sei que existiu

teria conhecido um dia os pinheirais de São Mamede?

 

Dessa terra de meigas trouxe decerto recordações

quando foi para Alburquerque para casar por amor

com uma Ana de Cáceres, como o Livro me diz

- o que os meus filhos me deram por lembrança da mãe

como presente de Natal – genealogias fecundas

do coração do tempo. Teria alguma vez andado por estas ruas

ou mesmo pelos meandros do Reguengo?

Ele, que era hortelão, como meus antepassados

mais antigos, que sonhos acalentou

pelos dias, pelas noites duma terra diferente?

 

Já nestas terras alentejanas, chamar-lhe-iam talvez

o espanhol, mas sem maldade, antes de lhe nascerem netos

como ele se calhar com sotaque galego

e memórias de lugares onde seus pais se criaram.

 

Meu tetravô que buscava nos campos portugueseses

- o amor da aventura, a procura do pão

ou apenas horizontes gratos ao seu coração

de rapaz novo e forte com sede de conhecer

outros rumos e gentes, desconhecidas raízes?

 

Bailaria nas festas? Olharia os caminhos

tão velhoe e tão novos da planície e da serra?

Guardaria num baú utensílios da infância

que sempre nos acalentam, sempre nos enternecem?

 

Meu tetravô de Pontevedra, meu quintavô já velho

de anos depois lançados na lembrança dos meses

que jamais nos devolvem o passado que tivemos

agora vive em mim, agora sei que existiu

como depois dele houve os Gonçalves, os Garções

e muitos mais do futuro que depois de mim virão.

 

Meu sextavô espanhol, lá da terra das meigas

saúda-me decerto, saúda-me dos longes

com indistinta voz em surdina, galega

mesmo já do além ou de dentro dum livro

 

- ao hortelão-poeta que agora aqui o lembra

que agora aqui o escreve

 

emocionadamente.

 

*(Intervenção de NS na sessão levada a efeito no “Ateneo Cultural” de Badajoz)

 
 

 

 

 

 

 

 


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