NICOLAU SAIÃO

Poesia e Sociedade – dois aspectos complementares*

O homem é perecível; pode ser. Mas pereçamos resistindo
e se, ao fim, o que nos está reservado é o vazio e o nada,
façamos com que isso seja uma injustiça.”
Étienne de Senancour

INDEX

I - Introdução
II. O artista e a fascinação do mundo
III. A recriação da natureza

POEMAS LIDOS NA OCASIÃO

- Encontro em Paris
- Variações para um amigo que me endereçou um repto
- Fala do pastor no dia seguinte 
-
Genealogia
- Primeiro poema de Samyaza

III. A recriação da natureza

Se há fronteiras entre o sonho e a vigília, parece que compete ao poeta desfazê-las. Diz-se que no princípio do mundo foi o ruído e a tempestade e grandes sombras pairavam sobre as águas. Contudo, a função do poeta exerce-se em silêncio, um silêncio algo equívoco porque totalmente interior e multiplicado nos seus dias, nas noites em que observa a existência triangular: a palavra, o seu corpo e os seus humores e os diversos países mentais em que é lícito perder-se ou achar-se. Não há que buscar estrelas vespertinas ou matutinas, essas tem-nas o poeta nas suas paisagens de dentro e de fora, tal como nos seus desesperados momentos de amargura ou nos instantes de encantamento: trata-se, isso sim, de transfigurar e não de inventar. A invenção do poeta sucede aqui e acolá, serve dizer: existe nas suas mãos como que permanentemente, mas as suas mãos, tal como as de toda a gente, estão e estarão sempre manchadas por estranhas substancias que partem do quotidiano como se este fosse – para empregar uma imagem alquímica – a matéria afastada da Obra. E então o poeta caminha pelos campos, jornadeia perto do mar, lá onde os destroços se acantonam como inquietantes rochedos. A pouco e pouco vai entendendo a melhor maneira de jazer sob os astros que o tempo lhe consentiu ver. Então, entram pé ante pé a nostalgia, a esperança e o remorso – difusos, esquisitamente silenciosos. Daqui extrai o poeta um verbo, dali recolhe um adjectivo, um encadeamento além das promessas vagas que as mutações do quotidiano se encarregam depois de tornar em acontecimentos que por vezes ferem, por vezes punem. É um percurso todo feito de humildes olhares que, trespassando o vazio e o incorpóreo, criam rios e montanhas, caminhos vicinais e bosques onde as plantas e as pedras têm significado. O poeta é agora uma entidade viva e em chamas, incendeia o futuro e o passado: é o presente que se transmutou, a espiral deslocando-se infinitamente. Todas as eras idas lhe vão criando sombras no rosto, nos dedos, nos ombros se mal se precata. Mas são sombras como que purificadas e amigas onde se distinguem contornos de animais, de gentes que amou ou o amaram, a natureza vegetal e mineral e as suas variadas formas nas suas cores distintas. O poeta ascendeu ao poema, exerce-se em todas as direcções. E o poema vive e a sua presença é íntima e solene. Entra no mundo, desdobra-se como se o mundo o pudesse conter inteiramente. É um feto, uma flor, um planeta. Roda no espaço e repousa sobre a terra. Princípio e fim do Verbo, conquistou os sete reinos da memória. Perplexo ante a ventania, o poeta toca o seu rosto convulso: pode enfim tocar também a sua silhueta, que é a silhueta que o mistério buscava esconder. A pura felicidade de afeiçoar é pois matéria vivificadora, que ele contempla como se contempla uma fotografia muito antiga. Há luzes e há escuridão palpitando em torno de si: amigos que se vão ou pacientemente chegam com um passo pausado e como que temeroso, mulheres que se adivinham mais do que se olham e que já nada têm para lhe dizer, espantos, contentamentos, muita gente em torno da mesa, a solidão de um quarto em pleno Verão. É a ternura enfim presente que a sabedoria criou para nos inquietar com ironia, mas o poeta já compreendeu que urge resistir às aparências que se desenham sem que ele possa exercer a sua vontade.

Andando pelo seu pé, o poeta – devagar e com o coração opresso – vai sentar-se numa pedra qualquer à beira da estrada e olha lá ao longe a iluminada cidade dos homens. É o fim da tardinha, o sol evolou-se mansamente. Uma penumbra familiar vai dando na copa das árvores, nas colinas em volta.

O poeta, imóvel, contempla o minúsculo relevo das casas ao pé da grande linha do horizonte. Imóvel, espera e olha. Como um animal arcaico, apenas silhueta, apenas um retrato enquanto as palavras aguardam a noite que chega para que o mundo continue.

 

*(Intervenção de NS na sessão levada a efeito no “Ateneo Cultural” de Badajoz)

 
 

 

 

 

 

 

 


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