Tânia Mara Galli Fonseca
Não me chamem de Taninha
Fragmento 2

Plante uma pequena muda de hera. Deve ser perto de um encosto inicial, para dar-lhe atração e apoio. Deixe-a viver sua vida 20 anos e veja o que lhe aconteceu. O que sempre está a lhe acontecer, pois ela não pára de buscar novos encostos, novos encontros, ela busca avançar, expandir-se mesmo que por caminhos ásperos e íngremes. Nós a podamos depois de pegada. Tiramos-lhe um ou outro galho, formatamos suas bordas para manter uma certa linha, um certo fio que nos dá a idéia de um contorno, de uma fronteira entre aqui e ali, e ela ressurge nos vazios, arrebita-se ao sol, salta da borda, querendo brincar de mergulho no infinito. Nossa pequena vida podada, nossa vida de contornos, nossa vida que fazemos pequena quão poderoso seja o fio de nossas facas. Nossa vida pequena que apenas quer respirar e saber-se quentinha quando recebe o sol.

 

31 de dezembro de 2006

 
Tânia Mara Galli Fonseca é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

 

 




 



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