Tânia Mara Galli Fonseca

Não me chamem de Taninha

Fragmentos de Verão

a imagem de um eu totalizado, estável, sempre foi imaginária. humanos nunca existiram numa forma coerente e unificada. a ontologia humana é necessariamente a ontologia de uma criatura despedaçada no seu próprio núcleo. não sou origem, mas uma invenção nos instantes-já, resultado de improvisações e experimentações. divido-me milhares de vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentada que sou e precários os momentos...

nesta hora de sol puro, hora parada, busco mergulhar no silêncio de cujas bordas o rugido do mar se faz murmúrio incessante, interminável não parar, interminável acontecer... 30 verões se passaram, um pouco menos, talvez. e neste, em que estou - arredia e recuada -, como se carregasse na carne a faca recém adentrada, meu pensamento não me poupa de imaginá-lo já findo, e para sempre. o que significaria findar esse modo de estar em férias, desativar a atenção das pequenas coisas e da própria casa, buscar outros recantos por onde ver passar a vida alegre e sem memória da faca. passa a ser inacreditável o duplo desse jogo do qual nos damos conta quando a noite cai. de que estamos, sobretudo, sempre na noite, de que quando perdemos alguma ilusão é a nós próprios que perdemos, de que quando nos tornamos desiludidos, também é então que nos tornamos mais sabidos, de que quando algo ou alguém nos atraiçoa, torna-se decorrência de nossa credulidade e necessidade de aumentarmos e diminuirmos os tamanhos das pessoas segundo façamos-lhes corresponder-lhes nosso próprio tamanho, de que nosso este e sua medida real, portanto, somente se configuram na relação ao que nos é exterior e valorizado.

como saber da duração deste cansaço, deste fastio e mesmo deste nojo& como tomar decisões sem saber por quanto tempo perdurarão os afetos nos quais elas se apoiam& como traçar rumos de uma nova vida e de um novo caminho se não posso saber o que sucederá nos instantes a seguir em que tudo pode vir a ser anulado& anda-se em volteios e esquecemos a inclinação das curvas passadas, os declives que atravessamos, as ladeiras nas quais rastejamos. esquecemos e até podemos mesmo vir a sorrir , mas em um outro determinado instante, indeterminado em seu acontecer, uma massa indiscernível nos afunda para dentro de nós mesmos, como se adentrássemos toda a espessura de nosso viver. vemo-nos presos nas estrias de nosso vivido, como a antiga agulha de cristal que insiste em repetir-se, estagnada, naquele mesmo sulco do long play. de nossa existência. repete-se a mesma nota, não se faz mais música, pois as variações e as fugas se impossibilitam de acontecer. apenas a paralisia. neste instante de um tempo único, tempo massa que nos engolfa, sentimos a doença de nossa história e de nosso modo de lidar com a vida. sentimos a falta de amor, falta-nos um pouco de ar para não sufocarmos, nossa ordem é nossa arquiinimiga e nos habita soberana. o prédio possui aberturas, mas a massa interna as comprime de modo a dificultar seu uso e ação. uma pressão de dentro para fora, como um tipo de explosão se ensaia e perdemos de vista as planejadas janelas e nos precipitamos a qualquer abertura,em louca desabalada corrida nos atiramos ao sem fundo daqueles abismos. nos instantes em que nos falta Fora, quando o filme de nosso modo de usar a vida passa-nos cortante e célere, somos rasgados por esse raio, queima-nos a sua visão, tornamo-nos ponto contraído por todos os lençóis de nosso passado, nosso aqui e agora só poderá ser traduzido desde toda a história que dobramos em nós, e então, nesse instante de sol puro, a hora pára e tornamo-nos qual gotas redondas subindo e descendo dos beirais antes da queda, a gota imitando o vai-e-vem do mar, antes de explodir em espuma na praia.

o que dizer desta dificuldade em fazer as coisas de modo a ser mais feliz. porque suportar aquilo que não nos convém. porque suportar melhor a dor de quem somos do que aquela em que podemos vir a tornarmo-nos. falamos com facilidade em mudanças, banalizamos o sentido dos movimentos. às vezes me pego achando que a filosofia pode vir a ser utilizada para negar a vida e abstraí-la de todo o modo do sentir do corpo. ontem estava lendo como se pode desligar a escuta e o olhar de algo que nos desagrada, mesmo que ainda nos mantenhamos presentes. abstrair dizia ele. desviar.fazer fugir certos mundos que não nos convêm. escavar o visível e o dito, rasgar as evidências, ali, na própria imanência do discurso. Seria isso viver em desvio, obliquamente?. trata-se da prática da desconversa, em que erguemo-nos como muralhas intransponíveis aos poderes que querem confiscar nossas potências. dizia Fuganti, que o poder somente age quando encontra a vida se torna impotente. trabalho de resistir obliquamente, trabalho árduo e interminável. nele não há o sabido, apenas o possível e a nobreza dos acasos. nele nos tornamos efeitos de nossas ferramentas expressivas. nele somos artesãos de nós mesmos e de nossas saídas. e estou presa nesse atoleiro de mim mesma. As muralhas desta vez me impedem de sair. como ultrapassar-me?

ao ler certa dissertação de uma de minhas orientandas, empreendi, em dado momento, uma espécie de retorno ao meu passado, tendo podido dele visualizar cenas enredadas à paisagem do pátio de minha casa natal, tão ainda viva dentro de mim.... deparei-me com meus pais, agora já mortos, e pude entender que, em determinada hora da vida , somos donos absolutos daquilo que nos possui e que a ausência, antes do que a falta, pode nos preencher pela posse incondicional.em nada menos do que poucos segundos, um mundo todo emerge, somos inundados por ele e por suas intensas forças afectivas. sou povoada pelos sempre queridos rostos de meu pai e de minha mãe e esforço-me também por situar nesta paisagem mental as figuras de minhas irmãs, tal como as tenho em uma fotografia, quando éramos muito crianças.vejo que todos éramos muito jovens. e agora, que escrevo, já não sei mais se me reporto àquela visão que tive quando mergulhei para dentro de meu silêncio, ou se se avantaja ,em primeiro plano, a imagem daquela fotografia... se pensamos que para tornarmo-nos disponíveis a escutar o outro necessitamos de um silêncio-de-nós-mesmos, desta vez, para me escutar, como que para me buscar de regiões do grande passado que habito, entendi que a operação é inversa: precisamos silenciar toda a exterioridade que nos dá entorno, e, imóveis, deixarmo-nos conduzir para o deserto, estirarmo-nos no liso de suas areias e, no espaço de apenas um ou dois segundos, vermos brotar um povo que nos concerne e que desabrocha e situa-nos, logo num jardim, ou num pequeno pátio de um bangalô de madeira pintada em verde. hoje, apenas um mês após, ainda vivo de modo próximo a morte de meu querido pai. houve um tempo em que somente a idéia da morte de meus pais me era uma espécie de impensável e nutria, então, a certeza de que uma dor tão grande me tomaria que me levaria igualmente a morrer. hoje, posso ver como as crenças que sustentam nossos laços mudam e nos supreendemos quando podemos sobreviver às dores das perdas, como a vida mesma se encarrega de preparar um certo curso dos aconteceres de modo que quando a morte chega, já a podemos olhar mais de frente, e suportarmos sua surpresa e também a perda daquela que éramos. porque mesmo retornar ao passado? o que buscar nele que já não está mais mas que ainda é e nos desassossega& porque buscar o labirinto? com certeza, não para dominá-lo, mas para situar, em algumas de suas zonas, algo de nossa própria duração, algo que ali ficou, que ali resiste desde a dasabalada corrida a que nos obrigamos quando vemos tudo desabar. deixei os sapatos, talvez também a beleza, meu medo vestiu-se de coragem, e achei que de pés nus, distanciava-me mais depressa do arruinamento que sombreava aquele pequeno pátio. o colapso já aconteceu no passado. desnudou-nos e nos empurrou para uma nova montagem de nossos modos de fazer a vida andar. já acontecido, ainda se faz acontecimento e se oferece como um antes de mim mesma, plano no qual me encontro mergulhada, colapso que produziu a fissura cujas beiras circundo como um tipo de fronteira entre o que fui e o que poderei vir a ser. ferida incurável cujas secreções ainda se produzem tal como um sangue negro, uma dor impensável, não sujeita à tagarelice, impregnada na carne. o colapso não se refere tão somente à abertura do corpo ao Fora. remete ao seu esgarçamento, ao fracasso da resistência de seu tecido às forças estranhas que querem passar, mesmo que por meio de arrombamentos. desblindagem, arruinamento das defesas, sentir-se em vertigem porque tudo se move velozmente e nos sentimos náufragos em alto mar. Desprotegidos, desamparados, o mar é imenso e seus rugidos nos acompanham como o murmúrio da morte. naqueles momentos, já queríamos estar mortos, aliviados por não mais saber, aliviados da vida que, em fúria, põe à prova nossa embarcação de madeira pintada em verde. o que espera uma criança após a tempestade e o terror dos ventos, senão aconchegar-se em algum refúgio quente e amoroso? o que se quebra em nós quando o desamparo nos acomete e o quanto de nossa vida julgamos ter de oferecer em troca de proteção? triste o destino dos desamparados, este que os obriga a superar-se, a ultrapassar o mar de medo que é secretado em suas próprias fontes.

de clarice lispector (1), selecionada e cerzida por minha orientanda, retiro: não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização. a isso prefiro chamar desorganização, pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro. ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo (...) como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação a ser? e no entanto não há outro caminho. mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que for se achando.

(...)

só que a água nunca fervera. eu não precisava de violência, eu fervilhava o suficiente para a água nunca ferver nem derramar.

(...)

dá-me tua mão desconhecida, que a vida está me doendo e não sei como falar...

abaixei rapidamente os olhos. é que inesperadamente eu sentia que tinha recursos, nunca antes havia usado meus recursos – e agora toda uma potência latente enfim me latejava, e uma grandeza me tomava: a da coragem, como se o medo mesmo fosse o que me tivesse enfim investido de minha coragem. é que nesses instantes, de olhos fechados, eu tomava consciência de mim assim como se toma consciência de um sabor ... o que eu via era a vida me olhando. Aguardei que a estranheza passasse, que a saúde voltasse, mas meu medo não era o de quem estivesse indo para a loucura, e sim para um verdade ... meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse a não querer... eu estava saindo de meu mundo e entrando no mundo. é que eu não estava mais me vendo, estava era vendo. era como se eu já tivesse morrido e desse sozinha os primeiros passos em outra vida.

e estamos em um dia novo, sem sequer um pequeno outro. isso se minha intenção consiste em fixar um ponto direção ao progresso. tudo o que vejo progredir é o negativo do que temos sido. alguma cena do verão de 2003 ainda tomam meu pensamento, e assustam-me pela vitalidade que resguardam. em 2006, neste fevereiro intersticial, somente consigo contar negativamente, porque me fazem muita falta a ilusão e a credulidade de que me despojei.

fui tomada por outrem. e daquele simplório pedido de dar-lhe uma torta de aniversário, vazou de mim a oceânica onda dos desamparados. acionou-me a catástrofe já acontecida e que vivo como se fôra agora. o que não desculpa o que têm sido. o que não justifica tirar-se proveito da miséria alheia. tenho vergonha de tamanha precariedade a oferecer a meu filho. somente espero que ela lhe passe um pouco despercebida para que ao final possa convencer-se de que vale a pena. somos muitíssimo miseráveis em nossas realizações. talvez devamos começar a criticar nossos anseios, nossas exigências - humanas, demasiado humanas -...fico a me perguntar que lugar é esse que ocupamos entre o céu e a terra , quando nosso derradeiro e inconfundível destino é o fundo da terra?

e tento expressar o que o fluxo contido de pensamento quer dizer... e percebo que aquilo que pensamos não é dizível, mesmo que se trate da mais sincera intimidade. mesmo que se refira ao que se situa perto de nossa verdade, isto não pode ser ouvido. talvez o mereça, mas provoca desvios, irrupções, desmancha territórios, até que algum fiozinho de canção, algum fiozinho de vento, venha contornar aquele vazio em que nos aterramos e então, sentimos, um leve tremular, que pode ser pensando como um nascer de pequenas asas...

quando nos aterramos, ficamos com o corpo colado aos lençóis, com a cara colada ao travesseiro, com um leve desvio do rosto para evitar o sufocamento. o peso de nós mesmos sobre nós é insuportável. mesmo deitados sentimos vertigens. sentimo-nos comprimir, como se estivéssemos em um atoleiro, que, entretanto, de tanto ficar, agarramos um certo modo de nos adaptar, e passamos a amá-lo como quem ama a sua prisão, porque ele também nos salva, nos permite fugir de situações do aqui e agora, nos apaga a consciência, e, se tivermos sorte, nos lança ao inconsciente dos sonhos, que nos salve Deus, entretanto! que não nos cheguem em forma de pesadelos! pesadelo dentro, pesadelo fora, em geral é assim que acontece, com sincronia, com correspondência, porque a vida era mais quando eu não sabia de mim?

como saber o que nos salva, se quando recebemos nosso grande melhor amigo comum mas não único e este se põe a forcejar para os velhos malditos ventos do racismo e da impertinência? como se ver livre nesses rios de águas claras em que tudo flui, e, em que mesmo se sabendo, se deixa passar aquilo que nos fere... porque quem mesmo conseguiria viver longe do calor das fogueiras? e, por falar em Vinicius, como está aquele time do clube do perdão? podemos pensar que não basta estarem claras as águas que passam...

como eu morro de amor para poder viver....ele aprisiona, eu liberto...

mas... se queres saber se eu te amo ainda.... procure entender a minha mágua infinda,, olha bem nos meus olhos ... e vê quanta coisa que eles dizem que eu não digo...

os sonhos mais lindos mais lindos sonhei... o teu corpo é luz, sedução, poema divino cheio de esplendor, entontece...és fascinação, amor... (Nana Caymmi)

e as ondas prosseguem... tenho mesmo de viver aprendendo a balançar e suportar as vertigens.

 
(1) Clarice Lispector, A paixão segundo GH.
Tânia Mara Galli Fonseca é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

 

 




 



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