Tânia Mara Galli Fonseca
Não me chamem de Taninha
FRAGMENTO DE OUTONO

tendo vivido sua  infância no interior, sabia, até hoje, mesmo quando em meio ao tráfego da grande cidade, observar  a solenidade das árvores e seu particular silêncio. apreciava, então, desde menina, sentir-se misturada à paisagem que exercia o estranho poder de torná-la desapercebida, mesmo que estivesse ali, como que suspensa como a névoa que as árvores tão bem sabem sustentar nos seus ramos. colando seu olhar à paisagem, descobria-se com a sensação de estar fora, longe e sozinha no meio do mar e sentia-se fascinada ao experimentar o vacúolo de silêncio em meio a tantas outras vibrações que teimavam  sempre em rodeá-la. buscava viver em seu território, construía-o em torno de si e segurava-o pelo fio de seu olhar, compondo-o, recompondo-o, criando-o de novo quando o fio do contorno arrebentava. Olhar e sentir as árvores,  aproximava-a da terra, das estações, das variações de um só dia e mesmo aquelas imperceptíveis de um só momento. gostava de verificá-las em seus diversos estados: árvores grandes, pequenas, frondosas, miúdas e estreitas, floridas , desfolheadas, árvores como volumes da carne do mundo. apreciava muito a bouganville, mesmo que, por sua aparência, parecesse ao vulgo mais como uma planta de jardim, do que propriamente uma árvore. quando florida, a “três-marias” como também é chamada pelas gentes menos francesas, fazia nascer e renascer o verão. Este, sem seu colorido, desvestia a paisagem e subtraía-lhe algo potente e atmosférico. uma bouganville florida no jardim ou pátio, derramando-se pelos beirais de portas e janelas, deitando-se, vistosa, sobre telhados,  era capaz de fazer, por si mesma e por seu modo de existir, o verão. ao vento, deixava cair sua pequenas flores, atapetando o chão de cores e maciez. quando estivera na Califórnia, encantara-se com a poda e os arranjos que acomodavam as exuberantes  plantas ao pé de casas e muros. na infância, convivera com uma, na casa de sua tia-madrinha, que botava para fora florzinhas roxinhas e  esmaecidas, constituindo-se o mais rico adorno que aquela paisagem doméstica oferecia, junto da frondosa erva-mate, verde como esmeralda, alta, abundante e rechonchuda. quando teve seu próprio jardim, pensou que seria bom trazer-lhe também essa estranha potência de verão que compõe a  bouganville e sua floração. plantou-a ao pé de uma grade no jardim dos fundos da casa. trouxera a mudinha da floricultura da praia, quando, em férias,  achava mais tempo para tecer jardins. pedira ao vendedor uma que ficasse grande e que florescesse à vontade;  queria  para si, a mais linda de todas e mais precisamente definia aquela que bordava os ramos e encobria o solo de um vermelho indefinido. não sabia se poderia chamá-lo de fúccia, ou talvez  vermelho rubi. não importa. o que importa é que não seria aquela roxinha esmaecida.tida como a mais comum. os anos caíram bem sobre a planta que “fez casa” junto à grade, enrolando-se nela e obtendo suporte para  a sua subida em direção ao azul. quando florescia, contrastava com aquele abismo invertido que a sugava para cima ao mesmo tempo que parecia admirá-la. tornou-se forte, generosa, florescia muito, produzindo e prolongando muitos verões na casa da família. trazia-os para o jardim, para a casa, para os olhos. seus ramos floridos ajeitavam-se em vasos pelos cômodos e eram  até  mesmo presenteados às visitas mais queridas. seu verão, assim, era levado para muitos lugares, mesmo para esferas transparentes de vidro onde eram acomodadas as flores colhidas do chão e não desperdiçadas. transformava as  esferas em pequenos aquários de vidas secas, gotas redondas de sangue e delicadeza dispostas na estante de livros. veio o outono. ela agüentara muitos deles  e dançava vistosa ao seus ventos fortes, sacudindo sua ramagem, deixando cair os últimos pingos de verão que ainda restavam em seus ramos. nesse ano, o vento, certa vez, foi violento. ela, encravada que estava na grade de ferro, viu a mesma descolar-se de sua fixação no muro deitando-se por terra. os passarinhos que fizeram dela seu abrigo e habitat, fugiram assustados, deixando ao léu os ninhos que nela fabricaram. vieram o machado e a serra para cortá-la, o depósito de entulho para recolhê-la  ao lixo, e, em seu lugar restou um vazio , sem pássaros e mais um céu azul olhando perdido à procura de fazer sombra. a mulher retornava sempre que podia para espreitar os movimentos que se sucederiam naquele vazio que se formara e alimentava um lamento indizível pelas perdas acontecidas na queda:  verão e pássaros  eram suas dádivas e seu modo de dar graça ao mundo. hoje, passeando os olhos pelo terreno, observou, uma tímida e pequena floração rebentando junto à grade que de novo fora erguida. inclinou-se e teve certeza: a bouganville renascia do fundo da terra, ainda frágil como criança que não sabe falar, que não sabe a direção que tomará e também desconhece a atração do sol e a fúria dos ventos. estamos no outono, mas a mulher já sabe que o verão arrebentará de dentro da terra.  isto aconteceu. a nova brotação é incipiente. sabe-se que levará anos para atingir alturas e flores. mas virá para encantar outras infâncias. 

Tânia Mara Galli Fonseca é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

 

 




 



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