HELENA FIGUEIREDO:
Arco-íris de papel

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O mensageiro

João olhou de novo o pedaço de terra atrás da casa. Pelos seus cálculos e seguindo as indicações do manual, terá que dispor de uns largos euros para levar o plano por diante.

Não pensa noutra coisa desde que Beatriz lhe confidenciou a intenção de se mudar para Lisboa até ao mês de Agosto.

Era uma oportunidade única, um estágio na capital, naquele lugar onde parece que tudo começa e por vezes acaba, como se Portugal não se espraiasse por quase mil quilómetros de costa. Beatriz acreditava que deixar o interior, a família, seria até saudável, além de bastante conclusivo para os seus planos futuros.

Isto para não falar em assuntos de paixão que posta à prova, por vezes aumenta ou simplesmente se dilui, como se nunca tivesse existido.

Uma paixão antiga, dos tempos de escola, sonhada de noite e apagada do rosto logo pela manhã. Um antagonismo difícil de explicar, mas que João mantinha dentro de si, como uma montanha a escalar, uma meta a atingir.

Sabia que a partida dela poderia ser um encontro, a volta uma decisão.

Sempre notara o carinho que Beatriz nutria pela natureza, pelas flores, em especial por rosas, que eram as suas predilectas. Estava por isso convencido, que este seu plano seria a melhor forma para finalmente lhe dizer tudo o que nunca tivera coragem, de lhe transmitir o seu grande amor. Porque além de tímido, Beatriz deixava-o perturbado, completamente mudo, por vezes parvo. Incapaz de soletrar uma só palavra seriam as rosas o discreto mensageiro do seu amor. Umas dúzias de pés. Sim, porque era tanto e tão intenso o seu sentimento, que colheria uma a uma, para num só ramo o expressar.

Imaginava já o canto atrás da casa, atapetado de cheiros multicolores, com rosas amarelas repletas daquele amor platónico que sempre sentira por ela, os tons brancos simbolizando o segredo que tanto tempo guardara, a cor champanhe num gesto de eterna admiração, os tons rosa de agradecimento e gratidão e rosas vermelhas, imensas rosas vermelhas, símbolo do amor, adoração e paixão que fervilhavam dentro do seu peito, prestes a explodir.

Sonhava com ela numa cama de pétalas, enroscada ao seu corpo, numa entrega total ao cair da tarde.

Começou na Primavera a percorrer todas as feiras e mercados da região em busca de novos perfumes, novos coloridos, daquele pé acabado de chegar, da cor mais exótica e, aprendeu, que até as rosas nos podem surpreender.

O jardim tomava forma e João contava já os dias que faltavam para o regresso de Beatriz. As flores estariam abertas, perfumadas, no auge da beleza, assim como o seu coração ansioso pelo reencontro. Beatriz iria com certeza adorar a ideia e adorá-lo também.

Porém, naquela tarde, uma mensagem dela, piscando no telemóvel, arrasou-o como uma tempestade:

“Questões de trabalho irão prender-me em Lisboa por mais uns tempos. Regresso em Setembro.”

Helena Figueiredo nasceu em 9 de Março de 1959, numa pequena aldeia do concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu. É licenciada em Educação de Infância, e desde os 21 anos que trabalha com crianças entre os 3 e os 6 anos. Entre 2003 e 2006 prestou assessoria ao Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.

helena_lopes_m@hotmail.com

Entrada no TriploV: Abril de 2008
 

 

 

 




 



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