HELENA FIGUEIREDO:
Arco-íris de papel

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Secreta fantasia

Isabel escolheu uma sombra debaixo da parreira, bem no meio da propriedade. No terreno vizinho apenas o vai vem de alguns pássaros. Mas quem sabe de repente, um avião, o cair de um fruto, o leve roçar de uma folha sejam suficientes para denunciar o secreto telefonema. Mesmo assim o dedo trémulo marca o número decorado à muito: “Cardinal, trinta e um, cardinal, nove, seis, …

Do lado de lá da linha uma eternidade de toques.

“Sim? …Estou sim? …”

Do lado de cá o bater descompassado do coração saltando do peito.

“Sim? …Estou sim? …”

Aquela voz doce, melodiosa, num timbre fofo como algodão. Em fundo talvez o último filme sacado da Net, com tiros e sirenes de polícia.

“Estou sim? …Quem fala? … Sim? ...”

De cá o forte bater do coração, de lá aquele som finalizando ainda sem ofensas mais uma chamada tristemente anónima.

Isabel lembra-se bem como tudo começou. Miguel era seu colega. Ela trabalhava no primeiro andar, ele no rés-do-chão, sem que isso quisesse dizer absolutamente nada. Foi no jogo do “Amigo Secreto” organizado pela colega de Religião e Moral, porque a escola, segundo ela, precisava desenvolver relações humanas, criar laços de amizade entre colegas.

Num papel dobrado, tirado à sorte, um professor de Matemática, seu nome Jorge.

Iria ser durante dois meses a amiga secreta de alguém que lhe parecera frágil, sensível e talvez o colega mais atraente da escola, desde o dia em que cruzara com ele no bar. Olhos amendoados e sonhadores, sorriso doce como mel ainda no favo. Impossível alguém ficar indiferente, sem vontade de o mimar, de o seduzir.

Isabel tornou-se detective. Estudou-lhe gestos, conversas, silêncios e até ausências. Sabia a cor que melhor lhe ficava e ficou triste quando ele cortou o cabelo. Ouvia-o comentar os presentes que ela muito em segredo lhe deixava no cacifo e as risadas algo invejosas de alguns colegas, quando ele recebeu aquela estrela-do-mar embrulhada em versos ou a bruxinha perversa que gritava de prazer quando lhe tocavam…na mão. Cartas, flores, chocolates, muitos poemas, dedicatórias…

Para Isabel foi de repente voltar aos tempos da juventude. Ela própria se desconhecia, como que o que sentia e fazia, estivesse a ressurgir de uma qualquer vida passada ( ela que sempre pensou que só se vive uma vez).

No dia marcado conheceram-se formalmente. Sentados numa mesa de amigos, trocaram olhares intensos repletos de um carinho, que só eles perceberam.

Ela desejou apenas que ele tivesse trazido uma flor. Ele achou que ela era do tempo das madrinhas de guerra, aquelas raparigas dos anos sessenta que com belas cartas, aqueciam o coração dos soldados que arduamente lutavam na guerra do Ultramar.

Estava certamente a chamá-la velha, do século passado, como que a dizer que tivera azar. Sentiu-se uma noiva ultrajada, com vontade de ter tudo de volta e no centro da mesa erguer uma fogueira de raiva.

Isabel não conseguia entender a ambivalência das sensações que lhe tumultuavam a alma. Se por um lado ele fora o príncipe, a emoção, o olhar o espelho e sentir-se jovem, escalando montanhas, vibrando com insignificâncias, por outro Jorge encarnara um vilão malvado, que sadicamente a deixou percorrer todas as rugas, cada cabelo branco, numa biografia patética contada a preto e branco onde num final hitchcockiano, se debatiam algo parecido com um professor de Matemática e uma colega de escola.

Quando as lembranças a atormentam Isabel usa uma técnica infalível que aprendeu num desses livros promotores de auto-estima: pensa nele de forma negativa. Imagina-o feio, antipático, convencido, mimado e acima de tudo um preconceituoso, que despreza pessoas, em especial aquelas mulheres que já foram madrinhas de guerra.

E aí, agradece a Deus o facto de logo no ano seguinte ele ter mudado de escola e nunca mais o ter visto.

Helena Figueiredo nasceu em 9 de Março de 1959, numa pequena aldeia do concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu. É licenciada em Educação de Infância, e desde os 21 anos que trabalha com crianças entre os 3 e os 6 anos. Entre 2003 e 2006 prestou assessoria ao Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.

helena_lopes_m@hotmail.com

Entrada no TriploV: Abril de 2008
 

 

 

 




 



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