:::::::::::::::::::RUY VENTURA:::::

POESIA ORAL COM AUTOR:
UM TERRITÓRIO ULTRAPERIFÉRICO

FRANCISCO RALETE:
Morre um afecto e outro nasce

Morre um afecto e outro nasce

vai-se um desejo e outro vem

e depois de um sonho outro sonho

e tantos que a vida tem

 

Como a flor hoje nascida

mimosa linda e louçã

e o vento surge da manhã

deixa-a de haste pendida

assim é a nossa vida

entre mil prazeres renasce

nem leve sopro desfaz-se

à beira da campa fria

e como morre e nasce um dia

morre um afecto e outro nasce

 

A vida é um turbilhão

muito crime muita virtude

a vida é um sonho que nos ilude

mas tem curta duração

ansioso o coração

que não se contenta com o bem

a ambição não mostra lei

num rival feliz e contente

assim nesse anseio ardente

vai-se um desejo outro vem

 

Hoje a esperança da ventura

amanhã o luto e a dor

hoje uma jura de amor

amanhã esqueceu a jura

infeliz do que procura

no mundo provir risonho

cheio de mágoa e tristonho

o porvir nos surgirá

porque esta vida só nos dá

depois de um sonho outro sonho

 

Só uma eterna verdade

no mundo existe que é a morte

no prazer e no transporte

não lembra à humanidade

ela zomba da bondade

do amor de pai e mãe

zomba do mal e do bem

e tudo que vive é mortal

mas é o desengano final

e tantos que a vida tem

FRANCISCO RALETE, n. Alegrete (conc. Portalegre) (Navarro, 1980: 119 - 120)

 

 




 



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