António
CÂNDIDO FRANCO

António Cândido Franco
A RAINHA MORTA E O REI SAUDADE
O amor de Pedro e Inês de Castro
Lisboa, 3ª ed., Ésquilo Edições e Multimédia, Ano Inesiano da Cultura, 2005

INDEX

Batalha do Salado

A mulher dos cabelos a arder

Do amor

Do amor

Parece que te oiço, leitor, aí desse lado, a resmungar. Dizes tu, que te prometi uma grande e inesquecível estória de amor entre Inês e Pedro, que, pelos vislumbres, ombreava com as melhores do mundo, e afinal o que te dou é um selvagem quase incapaz de soletrar uma palavra, um desajeitadão que só sabe lidar com cães e cavalos, e uma gaiata servil, educada na província, sem resquício de malícia ou sedução. Tens razão; é bom que te habitues desde já à anormalidade deste amor entre duas crianças puras e inocentes. Assim, de surpresa, sem hábitos, sem intenções, sem projectos, quase sem erotismo, é que o amor tem peso e valor. O amor de que te falo aqui não é aquele apetite a que chamas de cio, que rapidamente cansa e desgosta, mas aquele amor eterno que, segundo Dante, move o Sol e as outras estrelas. Deixa, pois, leitor, a rabugice, e não temas em te embrenhar na leitura desta estória, que alguma coisa hás-de lucrar.

A partir deste dia o relacionamento de Pedro com Alenquer mudou. Vinha com mais regularidade e passou a aceitar pernoita junto dos frades. Entretinha-se a explorar os arredores de Alenquer, de Meca, à Gavinha e a Olhalvo. Caçava e adestrava cães nos terrenos do convento. Mostrava sempre o mesmo desajeitamento com Constança, mas a presença de Inês tornava-o seguro, firme, directo, pelo menos por dentro. As dificuldades exteriores com a fala acentuaram-se com a terrível visão que teve de Inês a deitar fogo pela cabeça. Era como se tivesse a fala atacada por uma ferrugem e as palavras tivessem perdido o seu sentido imediato, vulgar. O amor é, assim, uma espécie de dúvida cósmica, que interroga e reinventa doutro modo a linguagem.

A aia dos cabelos de fogo passou a ser para ele uma novidade, que estava infinitamente acima dos seus cavalos, dos seus cães, dos rapazes seus amigos. Tinha, quando podia, o que era raro, ousadias com ela, que o chegavam a surpreender. Olhava-a demoradamente, sorria-lhe, oferecia-lhe coisas insignificantes que trazia dos seus passeios, mas que ela não aceitava. Tudo isso o fazia comover duma forma extraordinária, que chegava quase às lágrimas. Entretinha depois, na solidão da Atouguia, diante do mar, as lembranças, que lhe pareciam um bálsamo para todas as feridas do mundo.

Inês, por seu lado, começou por viver esse período a medo. Não percebia muito bem o que acontecera no átrio com o infante nem o que estava a acontecer depois, mas ainda assim pressentia por ali um vendaval perigoso, que a amedrontava e atraía. A princípio, pretendeu manter a correcção e o recato que lhe haviam ensinado e que lhe eram ingénitos. Fazia apenas de conta que nada de anormal se estava a passar; evitava mostrar-se nas ocasiões em que o infante aparecia e, quando não podia de todo esquivar-se, passava rápida e de olhos baixos.

Não sabia muito bem o que era um homem e desconhecia por essa altura qualquer forma de manifestação sexual, mais imediata e animal. A sua vida sentimental resumia-se à imensa ternura que sentia pelas amigas e pelas crianças que elas às vezes tinham. Havia, além disso, as flores, as árvores e os animais. Optou por esconder de Constança as suas dúvidas, porque queria ver nessa perturbação um episódio inconsequente ou um simples equívoco. Mas depois, à medida que o tempo foi passando, o mistério da situação trabalhou dentro dela. Sentiu-se presa ao desatino do infante e não passava um instante em que não pensasse nele. Tenho tanta pena da perturbação em que te vejo por minha causa, pensava amiudamente ela, sem perceber muito bem o que significava essa compaixão que sentia pelo príncipe.

A partir daí, começou a sentir ascender dentro de si, cada vez mais vigorosa e ardente, uma força de rebeldia para com tudo o que a impedia de olhar para ele, de frente, olhos nos olhos. Era um remoinho cego, que a convulsionava por dentro. A Primavera desse ano, exuberante e farta, foi o cenário esplêndido que o destino escolheu para o lance deste amor.

Um dia, já no fim do Verão de 1341, quando corria no ar quente um cheiro doce de mosto, esta pobre pomba cerrou os dentes e jurou a si própria olhar o príncipe. Vou olhar os olhos do príncipe, com fIrmeza e atenção, pensou ela.

Viu nisso um acto tão fmne como o brilhar das estrelas ou o crescer dos frutos. Ela que o evitava, procurou-o. Escolheu uma ocasião propícia em que Constança se afastara com a roda das aias para os socalcos baixos dos jardins. As árvores estavam carregadas de fruto e as rosas tinham voltado a florir. As meninas entretinham-se a desenhar nos jardins motivos vegetais e a bordá-los depois em linho branco. O príncipe ficara com os cães, nas traseiras da cozinha. Inês despachou as criadas para os jardins e reteve Teresa, em quem tinha absoluta confiança. Fora criada com ela, em Albuquerque, desde o berço, e vinha duma família galega ancestralmente leal e vassala dos Castros. Protegida na rectaguarda por Teresa, Inês pôde mostrar-se, na janela, ao príncipe. Ele acorreu, como sempre fazia, mas desta vez Inês não se retirou. Olhou-o com os olhos húmidos, tremendo ligeiramente as pestanas. Julgou que o príncipe merecia o seu olhar. Levantou depois o indicador e o médio da mão direita e, por momentos, deixou-os suspensos no ar.

Pedro sentiu o choque térmico da aproximação. Pôde, pela primeira vez, contemplar os olhos de Inês. Havia neles águas verdes e azuis, como as do Baleal ou Peniche, onde apetecia também mergulhar. Mais tarde, muito mais tarde, o corpo de Inês foi-lhe um imenso areal, mole e quente, onde repousou da fadiga do mundo, mas a porta de entrada desse litoral foi o mar bravio e universal que vinha bater nos olhos de Inês. Eram já as lágrimas do seu sacrifício e do seu amor, misturadas com as do seu nascimento e também com as de Constança. O caudal de lágrimas que a filha do duque de Penafiel há-de ter chorado na espoliação da sua vida foi apenas um dos afluentes das águas fundas que Inês tinha nos olhos. Não é Camões que, nos Lusíadas, diz que nunca deles o Mondego anda enxuto? E hoje, em Coimbra, do lado de Santa Clara, não há ainda uma fonte abundante, que se alimenta das lágrimas de Inês? És a mãe universal dos rios e das fontes, a deusa da pureza e da fecundidade, ó flor sempre aberta.

 

 




 



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