António
CÂNDIDO FRANCO

António Cândido Franco
A RAINHA MORTA E O REI SAUDADE
O amor de Pedro e Inês de Castro
Lisboa, 3ª ed., Ésquilo Edições e Multimédia, Ano Inesiano da Cultura, 2005

INDEX

Batalha do Salado

A mulher dos cabelos a arder

Do amor

Batalha do Salado

Por isso, quando Pedro encontrou pela primeira vez Inês não viu a fêmea, nua e ciosa, mas antes a criança e a mulher, em toda a sua inocência desprotegida e humilde humanidade. Ela também reparou nele; esforçou-se por ver o príncipe e o rei, mas acabou, para surpresa sua, a reparar em pormenores despropositados dos seus cabelos anelados ou das suas mãos finas mas rijas. É preciso distinguir a sexualidade do amor, pois pode existir uma sem a outra; Pedro amou de imediato Inês, isto apesar do falsete daquela boda com um rei fardado para a guerra, mas não teve apetite sexual por ela. Isso despertou muito mais tarde, quando se encontrou sozinho com Inês, para depois abrir numa manhã completa de sol, alucinada e exclusiva, que teve ainda a sua noite tenebrosa e fantástica.

Pedro viu Inês pela primeira vez a 30 de Agosto de 1340 e pela última vez a 7 de Janeiro de 1355, dia da sua morte. Amou-a e acompanhou-a durante 15 anos, que foram longos e decisivos; os primeiros cinco triangulados por Constança e os restantes sozinho com ela, com os filhos e com a sombra do pai ao fundo. Agora, é o primeiro encontro entre Inês e Pedro. Também Inês nos aparece pela primeira vez neste conto como apareceu outrora a Pedro. Ó mulher que não és a pecadora cheia de poderes e seduções, a maga imortal, mas o pecado tímido, quente, inocente, sofrido. O teu pescoço nessa arca fria de Alcobaça ainda hoje me faz nadar em lágrimas de piedade e respeito; não sou capaz de o ver sem me ajoelhar ao teu lado, para me recolher em silêncio diante do teu sofrimento e da inocência da tua idade e do teu ser. Foste a pomba que Deus degolou a seus pés quando criou o mundo; o sangue que correu do teu pescoço é o vermelho sagrado que alimenta o verde da terra e a transparência do mar. É por tua causa, Inês, que a Terra, quando rola no espaço, mostra a cor azul. És o arcano primitivo e definitivo da beleza feminina no mundo.

A partida de Afonso IV e do agrupamento português contou com as facilidades de Setembro. Em poucas semanas, as colunas alcançaram sem novidade e em boa formação a linha do Guadalquivir; o exército tomou lugar na faixa ocidental, ao lado do castelhano, que ocupava a parte central da formatura. Os três reis e os conselheiros formavam uma linha móvel e distinta. O exército do sultão de Fez quase não se mexeu; deixou-se ficar diante duma Tarifa exausta, preparando as defesas, de modo a atenuar o embate. Contava com o rio Salado como trincheira natural de protecção. Foi a força dos três monarcas peninsulares que o procurou, deixando o Guadalquivir, subindo e descendo penosamente as pequenas elevações da margem esquerda do Guadalete, atingindo finalmente Medina Sidónia e o Barbate, donde se avistava Tarifa alcandorada.

O embate deu-se alguns dias depois, perto da cidade sitiada. O Salado não serviu de verdadeiro obstáculo e rapidamente as mesnadas portuguesas, castelhanas e aragonesas o transpuseram. O sultão viu-se encurralado entre os muros brancos da cidade, o mar e as investidas furiosas das hordas a cavalo. Não lhes conteve o ímpeto e o seu acampamento começou a ser selvaticamente saqueado. As mesnadas entravam com os cavalos pelas tendas dentro, degolando, retalhando, amassando, incendiando. Eram homens rudes, de pêlo crespo como o das cabras e compridas e piolhentas barbas pretas, como as usavam os Hospitalários e outros professos das ordens militares da época. A resistência apagou-se e em pouco tempo o que restava do exército do sultão era uma multidão caótica que procurava escapar com vida. Os besteiros preparavam os virotões e disparavam a seco sobre os fugitivos; os haréns foram vandalizados, na onda que destruiu o alfanaque do sultão. Foi uma sangreira estúpida e brutal, em que se mataram sudaneses desarmados à massa, ao pé do rio Guadamexil, e se degolaram mulheres cultas, lidas em Averróis, que acenavam clemência com
um lenço branco. O saque foi tão importante que o oiro e a prata se desvalorizaram em Roma, mas essa vitória foi uma pesada derrota da Península.

Foi na esperança dum outro Salado, sem vencedores e sem vencidos, que a Península se criou; o que se esperou foi sempre a convivência larga, não a exclusão dos povos, a guerra de conquista ou de religiões. Por isso, batalhas como as do Salado são equívocos, que só não devem ser esquecidos nem ignorados, para que deles não se perca a lição. O Salado foi uma das quatro datas fatídicas da Península. As outras três foram: 1086, com a batalha de Zalaca, que foi um Salado ao contrário; 1492, com a queda do reino de Granada e a expulsão dos judeus; 1609, com a expulsão dos mouriscos.

Bravo, o quarto Afonso da nossa História? Talvez, mas mais por ter salvo dois coelhos dum laço, que por ter feito a guerra ao pai, ao meio-irmão, ao vizinho castelhano, ao mouro de dentro e de fora, ao filho e, sobretudo, pecado dos pecados, a Inês. Ó bruto e fero matador, sempre a espadeirar, de barbas permanentemente espirradas de sangue, que te atreveste a levantar a mão armada contra uma fraca e inofensiva donzela, cuja delicadeza, correcção e inocência fariam inveja às madonas de Botticelli. Da guerra e do sangue que trouxeste a Portugal, esquecendo do teu pai e do teu avô as letras e as artes, melhor tirarias tu o nome de ignaro ou de sofrido, ainda que a tua contenção possa por vezes parecer rasteira para passar por trágica. Mas, o próprio da tragédia é o cálculo baixo da morte. E por isso tu, Afonso, filho das areias de Portugal e das serranias de Aragão, ombreias com as personagens de Sófocles e Shakespeare.

 
 

 




 



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