TEATRO NATURAL
Andrés Galera
Deptº Historia de la Ciencia,
Consejo Superior de Investigaciones Científicas
Madrid


Quem foi Francisco Newton? Equivoca-se quem disser que não foi filho de Isaac Newton. Não falamos do físico inglês autor dos Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, aí pelo século XVII, sim de um reputado colector de plantas português, colaborador do Jardim Botânico de Coimbra, dois séculos mais tarde. Usamos esta subtileza onomástica para enunciar a principal característica da vida e os milagres de Francisco: a confusão. Confusão, intencional e fortuita, necessária para encobrir o engano, a ficção científica recolhida pelos documentos. Por exemplo, segundo algumas fontes, o viajante português nasceu em 1864; contudo, outros testemunhos afirmam que, por essa altura, já tinha percorrido as ilhas de Timor, Java, Celebes e S. Tomé. O certo é que os exemplares zoológicos e botânicos coligidos por Newton foram utilizados por naturalistas como Barboza du Bocage, Júlio Henriques, Antero de Seabra, Amélia Bacelar, para descrever novas espécies, fictícias e reais.

O relato trouxe-me à lembrança  um recomendável estudo publicado há mais de quarenta anos pelo biólogo francês Jean Rostand, com o título de Science Fausse et Fausses Sciences (Paris, Gallimard, 1958). Rostand narra diversas aberrações científicas ocorridas no século XX - o descobrimento dos raios N por René Blondlot; o esquema genético lamarckiano promovido pela escola soviética a partir dos trabalhos de Mitschurin; e a prática pseudocientífica da radiestesia - para mostrar como a investigação é sensível aos erros humanos, como se manipula a ciência, se adultera, ao serviço de ideologias e interesses particulares.

A história do intrépido e ubíquo viajante Francisco Newton é uma epígrafe mais neste capítulo de falsidades, surgidas da relação entre ciência e sociedade, e a sua odisseia expedicionária pertence à trama de luzes e sombras que caracteriza a história da ciência. A chave política da aventura newtoniana expô-la com acerto José António de Sá, no seu Compêndio de observaçoens que fórmão o plano da viagem política e filosofica que se deve fazer dentro da patria, publicado em Lisboa por Francisco Borges de Sousa em 1783. O objectivo da viagem é inventariar as riquezas e descrever a situação dos domínios portugueses, e para tal deve o viajante reunir as qualidades de político e de filósofo (p. 45).

Cem anos mais tarde, Newton não dissimula esta ambiguidade, acentua-a, o que não supõe nenhuma novidade. Desde antanho a ciência significa poder, e governar a natureza é um sonho que sempre perseguimos. A história repete este ideário, só muda o modo e a forma de perspectivar o problema. É do domínio público, por exemplo, que, segundo Galileu, o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos. Não devemos então estranhar que um projecto naturalista que alcança o século XX fosse sensível à corrente científica dominante e que os objectos naturais encontrados, reais e imaginários, sejam os frutos da árvore da evolução: lamarckismo e darwinismo. Novos géneros e novas espécies que identificam a infinita sequência de mudanças preditas pela teoria para a história viva da Terra. São as personagens da fábula evolucionista. Este teatro natural tem como pano de fundo uma semi-obscuridade em que se fundem realidade e fantasia, mecanismo mediante o qual os biólogos compuseram uma natureza errática, a representar a ordem evolutiva passada e presente.

Seguindo a pauta marcada em obra precedente (Carbonários, Operação Salamandra, Setúbal, Contraponto, 1998), Estela Guedes escreveu um livro audaz, que entesoura inteligência, talento literário e ambição científica, e cujo desenvolvimento histórico é consequente com um rigoroso processo analítico, desdobrado sobre uma extensa base documental. Empirismo, criticismo e plasticidade narrativa são as qualidades da sua historiografia, definida no marco científico inerente e exigível a qualquer projecto de investigação, pertença ele à história ou proceda do campo experimental. Seguindo estas directrizes, o estudo aborda dois temas vinculantes e independentes. Assim, os diferentes capítulos da obra compõem uma precisa biografia, que resgata Francisco Newton do olvido e da ignorância, e um impecável estudo sistemático dos objectos naturais coligidos nas suas viagens. Descobertas zoológicas e botânicas que se repercutiram na taxonomia da época, e cuja influência alcança o século XXI. 

O documento manuscrito (compilaram-se e transcreveram-se 142 cartas pertencentes ao lisboeta Arquivo histórico do Museu Bocage) e o impresso (mais de uma centena de publicações com os resultados científicos das colheitas de Newton) são o suporte prático desta reconstituição histórica, que em simultâneo relata a biografia e faz a interpretação biológica; mas o caso de Newton é também o fio condutor de uma reflexão, implícita, sobre o status científico. O naturalista, o investigador, despojado da aura mágica outorgada pelo conhecimento, apresenta as virtudes e os defeitos comuns a todos os indivíduos da sua espécie, é um sujeito que olvida facilmente a sua qualidade terrenal ao amparo de uma sociedade necessitada de líderes. A ciência, pela sua parte, afastada do seu utópico ideário de progresso e perfeição, converte-se num eficaz instrumento de promoção social, é, definitivamente, um componente mais da nossa sociedade.