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::::::::::::::::::::::::::::::::::MARIA DO SAMEIRO BARROSO

A METÁFORA DOS DIAS

É tempo de acordar o inverno, as neblinas errantes.

Pelos dedos túmidos, o sangue-fogo dos vestígios.

Sob os destroços, o sol resplandece,

as harmonias triunfam.

Com harpas puras, vinho e ciprestes, assim me embriago.

Pelas neves imensas, a música.

Junto aos nardos, as aves canoras.

O silêncio floresce.

 

Nas nuvens ecoa o hausto secreto dos hipogeus sagrados,

os rios desenvolvem-se, os sonhos multiplicam-se.

Pelo silêncio que petrifica, com o céu me envolvo,

entre árvores sagradas, gotículas de incenso.

Pela metáfora dos dias, estranho é o ar e o coração

é uma onda que paira.

 

O sangue afaga o sol, a luz e os seus segredos.

Na candeia dos teus olhos, o céu dilata-se,

e o vento desencadeia as valsas, os sons, as taças

cheias de éter.

Na candeia dos segredos, os nós enlaçam-se.

 

Há dias, lia algo sobre Álcman* e os himeneus;

floresciam os liláses e o sangue-luz surgia.

Na estação dos rios, as candeias eram metáforas

ardentes.

O sangue afagava o sol, os seus lânguidos vestígios.

Circulavam os tamarindos, flores aromáticas,

ébano e perfume, pelos céus de gengibre.

 

Nas florestas de cinza, as nuvens, o mar, as ânforas,

os limbos acordavam leves,

os filtros rondavam os nomes, o céu resplandecia,

entre o fogo, a Geena.**

 

Num céu triste, o sangue corria veloz,

o coração usurpado cobria-se de violinos.

As candeias acendiam-se.

E a vertigem era branca, luminosa, como um natal

de outrora.

 

*Poeta grego do séc. VII a. C..
** Vale do Hinon, perto de Jerusalém, designa o inferno, na linguagem bíblica.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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