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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
Jardins Imperfeitos*

Era uma janela aberta, incandescente
Aves/Labaredas
Quarteto de cordas
Crítica

ERA UMA JANELA ABERTA, INCANDESCENTE

Era uma janela de Setembro. O outono cobria-se de medo e de véus.

O silêncio repartia-se nas ervas da eternidade, separando de mim

a memória de consumar o fogo,

no peso desarmado do sol sob o cansaço, melodia de fios de cimento

e névoa na cidade perto do mar.

O céu nocturno moldando a paisagem, os disfarces, o hálito das trevas.

 

Era na água que voavam,

e as asas vibravam na areia dos nomes antigos,

a poluir a superfície de uma janela aberta incandescente,

perfurando as vísceras, as agulhas, desfazendo os nós concêntricos,

a esfera cromada no metal das sombras,

na densidade selvagem das palavras, coordenadas de oiro e cinza.

Estrelas gastas. Pássaros escuros

que ouvia na rede imensa de cogumelos frios que desciam da montanha,

envoltos em chuva.

 

Era outono. Repousavam os arados na terra que adormecia,

entre o céu e as nuvens.

Na mesa acidentada da escrita, papéis moldados no fogo revolviam luz,

a escuridão, a linhagem dos despojos,

na ilusão de moldar a sede indecifrada, azul, e reter o esplendor vagaroso

que visita as cores, dizendo do insólito destino dos sons

que atapetam a plenitude e o silêncio.

A água descia das represas exangues, desprendendo coágulos de flores,

lama subterrânea, ao som dos alaúdes, na aragem que refrescava

o corpo, a mesa ébria.

 

Quanta perturbação cosida à pele nas sombras de musgo

que me traziam a água, ralos de verão, ecos de orvalho,

galáxias em desordem, na visão mirífica que precipitava o sonho,

o ritmo e desenvolvia os cogumelos da escrita,

na ortografia telúrica que era preciso soltar,

numa gota de água que contivesse o mundo, escadas de areia,

laços errantes, exercícios do acaso, decifrados,

entre meteoritos sedimentados que se abriam,

na luz levíssima das avencas.

 

Eram janelas brancas, repetidas na poeira dos astros insolúveis,

onde ouvia as vozes transparentes, entre pedras, precipícios,

anémonas, antigos vegetais marinhos,

que refaziam a noite estrangulada nas paisagens de húmus,

no corpo salpicado de violoncelos,

cadáveres estelares, sombras secretas,

florestas marinhas que acordavam, na súbita manhã,

as artérias, o fôlego e o coração,

na luz que brilhava até aos ossos, cobertos de fuligem,

crateras de vulcões acesos, rastos extintos.

 

Um dia serei a linfa orvalhada e escreverei a vida, a terra e o mar,

o leite de sabor intenso;

o sol ligado à cal subterrânea de supremas metamorfoses.,

uma orquestra em desordem, onde me penso,

nas entranhas da alma acesa que alimenta criaturas de sangue

e desvenda a matéria concêntrica que gira em arenitos lentos;

espelhos convexos, lentes enormes;

nos oceanos da alma deslumbrada,

onde escrevo o corpo tatuado, emblemas, nervos siderais,

entre um marco, uma órbita, o sol deitado;

fazendo da dor um bailado lânguido dançado até ao fim,

na luz que se extingue em tempestades eternas

de neve e granizo, icebergues enormes de luz e alabastro,

nuvens de vapor desfazendo-se, na terra que permanece,

entre as marés.

 

Numa palavra direi a devastação, o rosto tranquilo

(para não dizer a morte),

as mãos para difundir os gritos,

no peito de girassóis e peixes insaciáveis,

cobrindo de ouro as grandes altitudes, amarelas como íris

(essência de sangue e terebintina),

vértebras profundas de um universo ilegítimo,

onde uma luz imensa ocorre para aclarar o mundo,

recolhendo as flores, os frutos,

numa espécie de ardor que rodeia a morte e explode,

numa candeia que começa a brilhar,

no ar soturno, desmembrado,

 

enquanto as minhas mãos futuras,

pássaros quebrados no perfume do orvalho,

gritam a névoa e o queoixume,

entre catedrais enormes, gémeas do anoitecer,

............................................................no silêncio dos limbos.

 
*Jardins Imperfeitos, Universitária Editora, Lisboa, 1999.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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