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CLAUDIO WILLER...
PALESTRA SOBRE SURREALISMO -
CONVOCAÇÃO DE CÚMPLICES (1)

15 de outubro de 2004

 

Já dei um sem-número de palestras, cursos, seminários sobre surrealismo. Normalmente falo. Mas, desta vez, vou ler um texto escrito, pois esta palestra é histórica, por dois motivos.

Um deles, por marcar a decolagem do Grupo Surrealista DeCollage. Outro, pelas efemérides: os 80 anos do Manifesto do Surrealismo e também 150 anos do nascimento de Rimbaud. São efemérides interligadas, indissociáveis. Conforme ensaio que publiquei na revista Cult deste mês (nº 85, outubro de 2004), há continuidade entre ambas, pois a descoberta de Rimbaud por Breton em 1916 constitui o surrealismo. Coincide com Breton, Aragon e Soupault, então servindo no exército durante a Primeira Guerra Mundial, se conhecerem.

Os 80 anos do Manifesto do Surrealismo não são necessariamente 80 anos de surrealismo. O manifesto de Breton é uma afirmação do que vinha sendo feito desde 1919, com as primeiras experiências de escrita automática, que resultariam em Les Champs Magnétiques, de Breton e Soupault. Essa datação, sugerida por Sarane Alexandrian em seu André Breton, par lui même (1), mostra ser incorreto entender o surrealismo como desdobramento de Dadá: o frenesi inaugural de Breton e Soupault precede o contato com Tristan Tzara, o convite para que este viesse a Paris, e a presença dadaísta em Littérature. E mais: iniciando o surrealismo em 1924, teríamos que considerar pré-surrealistas obras importantes de Breton como Clair de Terre , de Aragon, como Le Libertinage, de Éluard etc. É comum se ensinarem equívocos, como esse, da história da cultura no século XX retratada como série de "ismos", movimentos artísticos se sucedendo e suplantando. São, antes, sincrônicos.

Há conseqüências a serem extraídas dessa coincidência, ou melhor, conjunção de datas, do Manifesto e do nascimento de Rimbaud. Em Breton, a conjunção, no sentido astrológico, é uma categoria importante, ligada àquela do acaso objetivo, do modo como o simbólico se projeta magicamente no real. Ele parecia atribuir valor de verdade à astrologia, a ponto de, no Segundo Manifesto do Surrealismo , referir-se à conjunção de Urano e Netuno presente no céu de nascimento de Baudelaire, e colocar o surrealismo sob influência de uma conjunção de Saturno e Urano, que só se dá a cada 45 anos, entre 1896 e 1898, coincidindo com seu nascimento, e os de Éluard e Aragon (em uma extensa nota de rodapé do Segundo Manifesto , observando que a edição mais recente dos manifestos, da Editora Nau, mais completa que a anterior, da Brasiliense, apresenta, contudo, um grave problema editorial: essas notas de rodapé de Breton nunca poderiam ter sido transformadas em notas de fim do livro).

O mapa dessa conjunção também ilustrou em 1930 a capa do primeiro número de Le s urréalisme au service de la révolution : astrologia na capa de uma publicação que marcava a adesão à revolução, ao marxismo e ao comunismo, em um dos estimulantes paradoxos do surrealismo. Em Les vases communicants , também de 1930, sugeriu que a ciência soviética reconhecesse a astrologia como ciência, desde que fosse admitido como postulado aquilo que é postulado . Em O Amor Louco , diria que a conjunção de Vênus e Marte em seu dia de nascimento talvez o fizesse sofrer discórdias no seio do amor. Dataria um acontecimento revelador, que lhe parecia corresponder à noção de beleza convulsiva , deste modo: a 10 de abril de 1934, em plena "ocultação" de Vênus pela Lua (episódio esse que só acontecia uma vez por ano).

A primeira das idéias extraídas dessa conjunção é a de linha, linhagem, continuidade, seqüência no tempo, simbolizada pelas datas: 1854, 1924 e 2004. Linha também é uma noção presente em Breton. Em Prolegômenos a um terceiro manifesto do surrealismo ou não , de 1942, contrapondo-se ao alinhamento dos partidos políticos, diria com quem se alinha: Mas, se a minha própria linha, bastante sinuosa, admito, mas quando menos minha, passa por Heráclito, Abelardo, Eckhardt, Retz, Rousseau, Swift, Sade, Lewis, Arnim, Lautréamont, Engels, Jarry e alguns outros? Assim equipara místicos, transgressores, pensadores e poetas. Trata-se de uma linha sinuosa, pois o surrealismo não é sistema fechado. Pode-se ficar com observações como a de Anna Balakian, de que ... há de fato variações dinâmicas na poética de Breton, que seus principais poemas traem muitas de suas premissas teóricas, e que há afinidades entre Mallarmé e Breton em termos de premeditação estrutural e progressão metafórica na construção da imagética palimpséstica, a despeito das grandes diferenças de estilo de vida e atitudes sobre a vida que os separaram . Balakian comenta, ainda, autores que apontaram inconsistências no uso por Breton das palavras "surrealismo", "realidade" e "razão" pelos padrões da lógica normal (2). Essas oscilações, inconsistências e variações (e aqui também acompanho o pensamento de Balakian) não devem servir à argumentação para desqualificar o surrealismo. Ao contrário; são qualidades. O surrealismo pode parecer inconsistente por ter sido dinâmico e aberto, do modo como também o sugerem Béhar e Carassou: o surrealismo defende uma estética do irresoluto, do espontâneo, do inacabado (3).

Breton sempre procurou traçar essas linhas sinuosas, mostrando continuidades. No Segundo Manifesto do Surrealismo , refere-se aos esforços conjugados desses homens a quem damos a primazia porque eles realmente quiseram dizer algo - Borel, o Nerval de Aurélia, Baudelaire, Lautréamont, o Rimbaud de 1874-1875, o Huysmans da primeira fase, o Apollinaire dos "poemas-conversas" e das Quelconqueries. Põe na mesma seqüência Hegel, Feuerbach, Marx, Lautréamont, Rimbaud, Jarry, Freud, Chaplin, Trotski. No ensaio-manifesto Flagrant délit , de 1949 (4), texto importante na defesa da integridade de Rimbaud, identifica-se a uma tradição ao mesmo tempo poética e esotérica: Sabe-se, com efeito, que os gnósticos estão na origem da tradição esotérica que consta como tendo sido transmitida até nós, não sem se reduzir e degradar parcialmente ao correr dos séculos. (...) ... todos os críticos verdadeiramente qualificados de nosso tempo foram levados a estabelecer que os poetas cuja influência se mostra hoje a mais vivaz, cuja ação sobre a sensibilidade moderna mais se faz sentir (Hugo, Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé, Jarry), foram mais ou menos marcados por essa tradição. Vincula-se, portanto, nem tanto à literatura, mas a uma sensibilidade e um pensamento subterrâneos, alternativos com relação a nossa civilização. Fala da heresia, e da poesia como sua expressão. E, n o Segundo Manifesto do Surrealismo , afirmou que o centenário do romantismo é sua juventude, que isso, que se chama erradamente de sua época heróica não pode mais, honestamente, passar senão pelo vagido de um ser que mal começa a dar conhecimento de seu desejo através de nós, e que, admitindo-se que aquilo que foi pensado antes dele - "classicamente" - era o bem, quer, incontestavelmente, todo o mal .

Nesse sentido, nós somos rebeldes românticos - e, por isso, surreais. Trata-se de uma linha sinuosa, mas que estabelece uma relação de continuidade, à qual, por isso, podemos perfeitamente nos ligar.

A propósito, cabe insistir na crítica às histórias da arte e literatura como série temporal, sucessão de "ismos". Isso é puro marketing, é a lógica do consumo transposta para a criação. Modelos de automóveis e cortes de vestuário podem suceder-se, um substituindo ou suplantando o outro. Cultura, não: seu fundamento é a memória, é transformar o presente, renovando-o e, ao mesmo tempo, em um duplo movimento, resgatar o passado, aquilo do passado que foi esquecido, ou seja, em termos freudianos, reprimido.

A outra noção importante que podemos extrair da aproximação de Rimbaud e do surrealismo é a de integridade, de consistência, exemplificada pela defesa surrealista de Rimbaud, pela crítica ao que chamei, no artigo citado de Cult, de Rimbaud de cada um: dos católicos, dos formalistas, dos populistas, dos academicistas.

Nesse artigo na Cult , refiro-me às traduções de Rimbaud no Brasil, tomando o caso de Vogais . Detalho o que havia dito. O U, cycles, vibrements divins des mers virides,/ Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides/ Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux de Voyellels, Vogais , torna-se, em Rimbaud Livre , de Augusto de Campos (5), U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,/ Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos/ Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos.

Vai-se o alquimista, o místico, e o cerne desse poema. N a tradução de Ivo Barroso, temos: U, ciclos, vibrações dos mares verdes, montes/ Semeados de animais pastando, paz das frontes/ Rugosas de buscar alquímicos refolhos (6). E, finalmente, por Daniel Fresnot: U, ciclos, vibrações divinas do verde mar,/ Paz dos pastos semeados de animais, paz das rugas/ Que a alquimia imprime na fronte a estudar (7).

 
 
Notas

1. Na coleção Écrivains de toujours , Éditions du Seuil, Paris, 1971

2. Na introdução a André Breton today , editado por Anna Balakian e Rudolf E. Kuenzli, Willis, Locker & Owens, Nova Iorque, 1989

3. Le surréalisme, de Henri Béhar e Michel Carassou, Le Livre de Poche, Paris, 1984 e 1992.

4. Publicado na coletânea La clé des champs , Le Livre de Poche, Paris, 1979.

5. Rimbaud Livre, tradução e introdução de Augusto de Campos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1993

6. Em Rimbaud, Arthur, Poesia Completa , organização e tradução de Ivo Barroso, Editora Topbooks, Rio de Janeiro, 1994.

7. Em Marsicano, Alberto e Fresnot, Daniel, Rimbaud por ele mesmo , Editora Martin Claret, São Paulo, 1996.

 
   

 

 

 


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