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CLAUDIO WILLER...
PALESTRA SOBRE SURREALISMO -
CONVOCAÇÃO DE CÚMPLICES (2)

 

A comparação mais detalhada, levando em conta a íntegra do original desse poema escrito no período em que Rimbaud efetivamente estudava alquimia, e de suas traduções, mostraria que aquela de Daniel Fresnot é a mais fiel à intenção do autor. A tradução de Augusto de Campos mereceria algo como nota 10 em ritmo e prosódia: mas é como se houvessem dado um banho em Rimbaud, cortado e penteado seu cabelo, lavado e passado suas roupas, acertado o nó de sua gravata, e engraxado seus sapatos (a comparação não é despropositada, levando em conta o modo escandaloso como o poeta-adolescente se conduzia e apresentava em sua estada parisiense). É o Rimbaud clean, sem as asperezas e irregularidades que tornam mais difícil ainda sua leitura e compreensão.

Integridade, na concepção surrealista, significa muito mais. Entre outras coisas, é uma crítica ao dualismo, e a conseqüente defesa da unidade de poesia e vida.

Essa busca da unidade é o fundamento do surrealismo, afirmado na frase de Breton ao final da palestra-manifesto Posição Política do Surrealismo, de 1935: "Transformar o mundo", disse Marx; "mudar a vida", disse Rimbaud: estas duas palavras de ordem, para nós, são uma só . É declarada na afirmação que se tornou famosa, no Segundo Manifesto. Nele, Breton, depois de denunciar as velhas antinomias destinadas hipocritamente a prevenir toda agitação insólita por parte do homem , diz que: Tudo indica a existência de um certo ponto do espírito, onde vida e morte, real e imaginário, passado e futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo, cessem de ser percebidos como contraditórios .

A busca da unidade, ou da superação da contradição entre sujeito e objeto, mundo das coisas e dos símbolos, "real" e imaginário, tem uma gênese em Baudelaire. Em A Arte Filosófica , Baudelaire já propunha nada menos que a superação da dualidade entre sujeito e objeto, entre o mundo dos símbolos e das coisas, do imaginário e do "real": O que é a arte pura segundo a concepção moderna? É criar a magia sugestiva que contenha ao mesmo tempo o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista (1).

É possível uma crítica surrealista, ou seja, uma leitura de obras que leve em conta essa unidade? Sim, e Breton nos dá bons exemplos dela, ao comentar Baudelaire, em Le merveilleux contre le mystère: Baudelaire só nos subjuga a esse ponto porque, dentre os poetas franceses, é o último, cronologicamente, a traduzir em uma linguagem sensivelmente direta, em uma linguagem que as molda, sem se deixar quebrar por elas, as emoções todo-poderosas que o possuem. Com ele, a coisa exprimida ainda não se distingue, quase nada, daquele que a exprime: ela preexiste, isto é o que importa observar, ao modo de sua expressão (2).

Note-se: há uma coisa exprimida que preexiste , que antecede a expressão, a separação entre a criação e seu autor. A integridade baudelairiana entre o que escrevia e fazia também foi examinada por Breton na Anthologie de l'Humour Noir, (3) obra em que perfis dos autores selecionados são inseparáveis dos comentários dos textos. Observando seu dandismo, o exibicionismo das luvas rosa-pálido de sua juventude faustosa, da peruca verde exibida no Café Riche, até o chale de seda aveludada escarlate, vestimenta suprema de seus maus dias, menciona as provocações, como aquela a um burguês que se gabava das qualidades de suas duas filhas: e qual dessas duas jovens pessoas o senhor destina à prostituição? E chega a seus últimos dias, quando, mudo e afásico, corroído pela sífilis cerebral, ao passar diante de um espelho sem reconhecer-se na imagem, cumprimentava-a; e quando, vencido pela afasia, depois de um silêncio de meses, pronunciou suas últimas palavras: à mesa, pediu, com total naturalidade, que lhe passassem a mostarda.

Por isso, conclui Breton, o humor negro, em Baudelaire, assim revela sua pertinência ao fundo orgânico do ser. É nada compreender de seu gênio fazer de conta que não se toma conhecimento dessa disposição eletiva, ou passar por ela com indulgência. Ela corrobora toda a concepção estética sobre a qual repousa sua obra, e em ligação estreita com ela é que se desenvolve, no plano poético, a série de preceitos que irá transtornar toda a sensibilidade posterior .

Essas idéias, de conjunção, linha sinuosa, continuidade, coerência, integridade, unidade, elas contribuem para a discussão de nosso tema, Surrealismo Hoje ?

Comecemos pelo transformar o mundo e mudar a vida de Breton: é mesmo possível converter essa disjunção em conjunção? Os pólos da rebelião e da revolução, adotando o sentido dado a eles por Octavio Paz em Signos em Rotação , eles são, neste momento, antagônicos ou sincrônicos? Durante um período de uns duzentos anos, a vida política das sociedades e das partes do planeta que, genericamente, correspondem ao Ocidente, foram regidas pela polaridade entre esquerda e direita, revolução e reação, defesa da ordem estabelecida. Isso, desde a época da revolução francesa até - até quando..? Até 1989 e a queda do Muro de Berlin? Até 1991 e o fim da União Soviética? Ou até 2003 e a posse do governo Lula no Brasil..?

Em 1935, André Breton já havia argumentado (em Posição Política do Surrealismo ) que o estalinismo se identificava aos valores mais tradicionais, a começar pela defesa irrestrita da família, da pátria, de um moralismo fechado. Desde então, foram muitas as críticas ao pólo revolucionário a partir de uma perspectiva anti-autoritária, argumentando que este se converteu em substituto da religião. Octavio Paz em Os Filhos do Barro usa a expressão catecismos leigos , que prometem paraísos geométricos para o futuro, ao postularem uma racionalidade e conseqüente previsibilidade do devir histórico. Insistiu na crítica às ... religiões envergonhadas, sem deuses, mas com sacerdotes, livros santos, concílios, beatos, hereges e réprobos . (...) A crítica da religião desalojou o cristianismo, e em seu lugar os homens se apressaram em entronizar uma nova deidade: a política . (...) O tema mítico do tempo original converte-se no tema revolucionário da futura sociedade (4).

Um dos poemas de maior fôlego de André Breton é a Ode a Charles Fourier de 1943 (5), sobre o precursor do "socialismo utópico" e de uma visão da sociedade regida pelo pensamento analógico, pelas correspondências. Em outro poema da mesma série, Les états géneraux , invoca "iluminados" do século XVIII: Fabre d'Olivet e sua idéia de uma linguagem universal, e Saint-Yves d'Alveydre e seus estados gerais , reflexo mundano da ordem cósmica. Onde Michel Löwy em um livro recente, A estrela da manhã - Surrealismo e marxismo (6), vê continuidade e convergência no surrealismo e marxismo, não haveria, da década de 1940 em diante, antes uma inflexão, uma mudança na base do ímpeto revolucionário , no pensamento que o sustenta? Adotar Charles Fourier equivale a adotar Marx? Ou são antitéticos? Qual a chance de compatibilidade entre "socialismo utópico" e "socialismo científico"? Nenhuma, para Marx. Ver marxismo em Arcano 17 , nos dois últimos manifestos, e em Les états géneraux não equivaleria a demonstrar que o taoísmo é um marxismo? Que Lao-Tsé é precursor de Marx? Ou que, escavando através de camadas de racionalismo de Marx, Engels, Lênin e Trotski, pode-se encontrar a imagem do mundo regida pelas analogias e correspondências de Swedenborg, dos "iluminados" do século XVIII e de Éliphas Lévi?

Enfim, qualquer tentativa de realizar politicamente, hoje, a rebelião representada pelo surrealismo, nos leva a olhar na direção da retomada do socialismo utópico, antagônico com relação ao "socialismo científico", que parece ter esgotado o ciclo de suas realizações.

Ainda no tópico Surrealismo Hoje : E o surrealismo no Brasil? E nós? Somos um surrealismo tardio? Conforme já disse, periodizações em ciclos e gerações podem ser uma bobagem. E daí que Philip Lamantia, o principal poeta surrealista norte-americano, é 15 anos mais velho que eu? E Cesariny, o grande surrealista português, 20 anos? E o colombiano Raúl Henao, por exemplo, ser quatro anos mais novo do que eu? E alguns dos presentes, 40 anos mais novos do que eu? Temos que pensar em sincronias, e não em uma sucessão de "ismos".

No século XX brasileiro, vemos afinidades isoladas com o surrealismo: em Flávio de Carvalho, por exemplo, ou em Campos de Carvalho (não só em sua escrita, mas em sua atitude, ao voltar as costas para o mundanismo literário). Um marco inicial, não só de uma produção afim ao surrealismo, mas de uma atitude surrealista no Brasil, pode ser a série de manifestos de Roberto Piva datados de março de 1962 (7), precedendo o lançamento de Paranóia (1963), distribuídos em cópias de mimeógrafo. Assinados de modo coletivo, por Os que viram a carcaça , e distribuídos por nós, foram integralmente escritos por Piva. Declaram uma poética e uma escala de valores: somos contra a mensagem lírica do mimo; e também contra Eliot pelo Marquês de Sade. Apresenta uma filosofia de vida: contra as responsabilidades pelas sensações. Por isso, diz Piva, Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambreta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo box etc, e também contra a mente pelo corpo e ainda contra a lógica pela Magia. O nonsense é acentuado em disjuntivas: contra o governo por uma convenção de cozinheiros; e na invenção de figuras como a do cafajeste com hemorróidas. Os que viram a carcaça são manifestos surrealistas, inclusive no fecho: contra tudo por Lautréamont. Diferem dos de Breton pela supressão da argumentação e pelo caráter elíptico, e não hiperbólico, permitindo paralelos com os manifestos surrealistas de Antonin Artaud em 1925, pelo tom - A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo do Desastre - e pela alusão - contra Hegel por Antonin Artaud. Também lembram, na rapidez telegráfica do texto, os manifestos dadá de Tristan Tzara, os precedentes manifestos do futurismo de Marinetti, e os subseqüentes manifestos da Poesia Pau-Brasil e Antropófago de Oswald de Andrade.

A partir dessa data, pode-se ver, com maior nitidez, o surgimento de uma vertente imagético-surreal, até então notavelmente representada por Jorge de Lima e Murilo Mendes, na poesia brasileira. Em 1979, a crítica começa a reparar afinidades entre Piva e eu, e Afonso Henriques Neto. Sincronia, portanto, pois nem nos conhecíamos na década de 60. A vertente imagético-surreal deve incluir, dos que começaram na década de 60, entre outros, Piva, Rodrigo de Haro, Péricles Prade, Maninha, Leila Ferraz, Péricles Prade, Raul Fiker, Sergio Lima. E Afonso Henriques Neto. Cresce, a partir dos anos 80, com Floriano Martins, e dos anos 90, com Jorge Lúcio de Campos, Contador Borges, Sergio Cohn. E, cometendo omissões, mais recentemente mencionaria os autores diretamente ligados ao DeCollage, como Alex Januário e Daniel Vicoli, mais Gledson Souza, Mauro Jorge Santos, Dilamar Jahn, Geraldo Neres. Através dessa minha seção de autores novos na revista Cult, tenho tido muitas boas surpresas, em matéria de imagéticos e surreais.

 
Notas

1. Em Charles Baudelaire - Poesia e Prosa , , organizada por Ivo Barroso, diversos tradutores, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995.

2. Texto que abre a já citada coletânea La Clé des Champs .

3. Breton, André, Anthologie de l'humour noir , Jean-Jacques Pauvert, éditeur, Paris, 1966.

4. Paz, Octavio, Os Filhos do Barro , tradução de Olga Savary, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984.

5. Em Signe ascendant , coleção Poésie, Editions Gallimard, Paris, 1975.

6. Editora Civilização Brasileira, 2002.

7. Publicados na Antologia Poética , L&PM, 1985.

 
   

 

 

 


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