RISOLETA PEDRO
Inês II
Mísera, mesquinha, morta, rainha
rei, capitão, soldado, ladrão
mísera, rainha, soldado, mesquinha
morta, sardinha, menina, Inesinha
quem te matou
foi quem te amou
quem te coroou
foi quem te usou
quem te enterrou
foi quem te salvou.
Era uma vez
uma Inês
tanto foi e tanto fez
Inês
uma vez
e outra vez
e já vão três
Inês.
E não bastara
o que já fora
um nevoeiro
lhe inventaram
para que nem na terra
nem no céu
pudesse Inês
romper o véu.
Redimir Inês,
denunciar o funerário
rito
anunciar o fim
do mito
o infinito
para que nunca mais
nenhuma poeta diga
estavas triste Inês
em tal desassossego
e só por isso
pudeste tu amar
pensar amar
tal desconchavo
um tal labrego.
Conta a história
conta o mito
que Inês
partiu um dia
para que uma morta
pudesse sentar-se no trono
dos mortos
Não conta a história
que Inês
nunca conheceu
o verdadeiro
Pedro
o fraco
o doente
o demente.
A cobardia de um príncipe
inerte não conheceu
a ingénua Inês.
Assim se salvou
de uma cerimónia original
de coroação
sem coração
em que um trono
se elevou
ao antigo vício:
O altar
de sacrifício
 
 

 




 



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