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José Roberto Batista
Fé e parapsicologia

Não tem fé. – Mas tem superstições. Deu-nos
riso e vergonha aquele homem importante que
perdia a sua tranqüilidade ao ouvir determinada
palavra, em si indiferente e inofensiva – para ele
de mau agouro – ao ver duas facas cruzadas.

Josemaría Escrivá

Oscar Gonzalez-Quevedo tem se referido, inúmeras vezes, ser o Brasil um dos países, ou o país, mais supersticioso da América do Sul.

De fato, se observarmos o dia-a-dia do brasileiro, veremos que Quevedo tem razão.

Ocorrências casuais, como furar o dedo ao pregar-se um botão, são muitas vezes atribuídas a dívidas com este ou aquela orixá (1).

Uma senhora sexagenária, por exemplo, que já não conseguia sequer ler manchetes de jornal, sem o auxílio dos óculos, atribuía a Iansã (2) pequenas e constantes perfurações, nos dedos das mãos, ao costurar sua roupa ritualística de umbanda. Jamais atribuía tais ocorrências à sua visão já enfraquecida pela idade. Era Iansã que a lembrava de uma dívida não paga. Dores de cabeça, diarréias, quedas, tudo, absolutamente tudo, era atribuído a dívidas ainda não sanadas e controladas pela contabilidade de espíritos que habitam um mundo estranho para nós, (nem tanto para os brasileiros, concordo) mas, apesar da estranheza, não menos instigante.

Longe dos terreiros, demônios assolam a população em igrejas superlotadas e são afugentados, sob a ameaça do nome do Senhor, por homens com uma bíblia em punho. O povo delira pela vitória do Senhor Jesus. Tudo seguido de aplausos e risadas, aparentemente, histéricas.

Amuletos e talismãs são vendidos tanto nas ruas como em igrejas. O dia do juízo final é lembrado a todos os infiéis (e também aos fiéis). Curvai-se perante o Senhor. É a fé. A fé em tudo. Talvez uma fé particularmente brasileira, contraditória, mas, ainda assim, fé.

Ao mesmo tempo, mantêm-se imagens dentro das casas, fetiches nos bolsos, bíblias de todas as cores e de todos os tamanhos sob os braços, persigna-se frente à igreja, saúda-se o orixá na entrada do terreiro, comunga-se, aos domingos, na igreja católica apostólica romana, e espanta-se o demônio, às terças-feiras, na evangélica. Sexta-feira é dia de defumar-se, para espantar o mal, no terreiro. Várias praças públicas são ocupadas por crentes de todas as crenças. Avenidas são interditadas, vez ou outra, por seguidores de Krishna, com suas roupas coloridas e alegria contagiante. Incensos são “vendidos”. Haja fé. Fé que não se esgota. Bendita fé.

Considerem-se, ainda, os espíritos brincalhões que movimentam objetos, assombrações que insistem em habitar várias casas tirando o sossego de seus moradores, possessões, tudo provocado pelos espíritos errantes dos mortos. Oferendas são realizadas nas matas, nos cemitérios, no mar; outras, deixadas nas encruzilhadas, inclusive com galos e galinhas que poderiam matar a fome de centenas de crianças abandonadas e que vivem da caridade em orfanatos sem estrutura. Some-se, a isso tudo, viajantes espirituais que se desprendem de seus corpos e viajam para o “outro lado” da vida. Fantásticas viagens são relatadas, o mundo do além túmulo é descrito com minúcias espantosas. Cursos, com as mais variadas técnicas, ensinam como realizá-las.

Ruis Barbosas, Fernandos Pessoas, Galileus, Lampiões, vez ou outra, nos visitam e deixam suas mensagens através de mediadores responsáveis pela “ponte” entre o mundo dos que já se foram e o mundo dos que aqui permanecem. Essa “comunicação” é a prova inconteste que a vida continua. O homem não é – certamente que não – nem poderia ser finito. Este é o pensamento que insiste em não ceder lugar à incerteza. O homem é o ser especial da criação. Sua grandeza e particularidade supera a própria morte. Vai além. A morte é apenas uma passagem. Não há limites para o homem. Faz-se, assim, um semideus.

Vários livros, escritos tanto pelos espíritos dos mortos, como pelos vivos, ensinam o que é a morte. Provavelmente saibamos, nós os vivos, mais sobre a morte do que os próprios mortos. A Ciência mantém-se cética. Afinal essa não é uma questão da Ciência. É uma questão religiosa.

A Parapsicologia arrisca algumas explicações para isso tudo. É enchovalhada e atribuído a ela o rótulo de pseudociência. Todos são entendidos em Parapsicologia. Até aqueles que nunca leram sequer um texto sobre Parapsicologia, arriscam-se a opinar e, muitas vezes, com uma autoridade acima do bem e do mal.

Alguns críticos da Parapsicologia orgulham-se em atacar parapsicólogos que usam o conceito de hipnose anterior a Charcot, embora esses mesmos, usem o conceito de clarividência anterior a Rhine. Criticam a observação como sendo desprovida de valor e esquecem-se que qualquer observação inicial deve ser submetida a uma rigorosa crítica para depois disso, e só depois disso, ser utilizada como evidência para uma investigação. Defendem a Ciência e esquecem-se de que em ciência o ônus da prova recai no alegador; e quanto mais extraordinária uma alegação, mais pesado é o ônus da prova exigido. (3)

Temos ainda aqueles que criticam os parapsicólogos por agravarem problemas de saúde mental em virtude de seus tratamentos inadequados e sua falta de conhecimento da complexidade humana.

Ora, a Parapsicologia não é uma área da saúde, nunca foi e nem tem a intenção de sê-lo. A história da Parapsicologia confirma isso. Críticas, nesse sentido, apenas demonstram o despreparo de quem as faz. Isto por que o parapsicólogo não está autorizado a tratar ninguém. Quem assim procede deve ser denunciado. Só isso. Não é novidade a ninguém que a Parapsicologia, assim como a Psicanálise, apenas a título de comparação, não é profissão regulamentada no Brasil, como também em qualquer lugar do mundo. Todos sabem disso ou, pelo menos, deveriam saber. Contudo, não significa que, por não estar regulamentada, enquanto profissão, seja menor. A Informática, enquanto uma área de conhecimento, que tantos serviços têm prestado, de incalculável valor, para todas as outras áreas de conhecimento, indiscriminadamente, não sofreu, até o momento, nenhum tipo de regulamentação profissional. Isso não diminuiu sua importância que cresce dia-a-dia.

A Parapsicologia é um campo de estudos que usa instrumental das mais variadas áreas, como tantos outros campos de estudo existentes. É nesse sentido multidisciplinar. Atacá-la de forma atabalhoada, sem conhecimento, é prestar-se ao ridículo. Qualquer profissional, por mais competente que seja na sua área de atuação, é um leigo nas outras áreas. Não é diferente quando se trata de Parapsicologia. Mesmo por que a Parapsicologia não é uma “terra de ninguém”, que qualquer pessoa possa falar aquilo que “acha” sem um estudo prévio. Não podemos dizer que pessoas que se “disseram” parapsicólogos foram entrevistadas e disseram isto ou aquilo e, a partir disso, generalizarmos. Não podemos, também a título de comparação, tratar publicamente de questões que envolvem a medicina com pessoas que se “dizem” médicos, tratar de psicologia com pessoas que se “dizem” psicólogos ou, ainda, de lingüística com pessoas que se “dizem” lingüistas, etc.

As perguntas precisam, necessariamente, serem feitas às pessoas certas. Os que agem diferentemente, trazendo respostas erradas, como sendo a última fornada do conhecimento, nada mais fazem do que construírem um discurso de efeito que muito agrada ao seus iguais. Diga-se, ainda, que tais discursos são ditos, muitas vezes, como inofensivos. Contudo, nada têm de inocentes. Ao contrário, acabam, subliminarmente, fortalecendo, no contexto aqui abordado, práticas supersticiosas em grupos já fragilizados, muitas vezes por essas mesmas práticas, e, nesse sentido, acabam por se transformar em mecanismos, embora disfarçados, de submissão.

Por fim, cabe dizer que a Parapsicologia não está para destruir a fé. Mesmo por que, no contexto parapsicológico, a fé, no sentido mais amplo que possamos dar à palavra, tem uma importância particular. Entretanto, isso não significa dizer que, em nome dessa fé, possamos ser enganados, ludibriados, subjugados.

A Parapsicologia, em muitos casos, convida para rever a fé. É diferente. À medida que explica determinadas ocorrências, atribuídas ao sobrenatural, como sendo ocorrências puramente humanas, ajuda a libertar o homem da superstição. É nesse sentido, uma, dentre outras, concordo, alavanca para a emancipação do homem. Dizer-se que o homem precisa viver com ilusões é diferente de dizer-se que o homem precise de falsas ilusões para viver. Isto seria desumano.

Essa “batalha”, de fato, ainda está longe de terminar. Afinal, é mais fácil descobrir a verdade do que prová-la. Considere-se, ainda, que quando um dedo aponta para as estrelas, muitos, ainda, continuam a olhar para o dedo que aponta. É a vida.

 

(1) Orixás são divindades criadas por Olorun, deus supremo, na Mitologia Yoruba, para representar todos os seus domínios aqui na terra.

(2) Iansã, na Umbanda, religião formada dentro da cultura religiosa brasileira, é sincretizada por Santa Bárbara, Senhora dos Raios. Saúda-se Iansã com a expressão Eparrei.

(3) Marcello Truzzi. Sobre o Pseudo-ceticismo. Publicado no The Zetetic Scholar. 12-13, 1987.

José Roberto Baptista é diretor do Instituto de Estudos Psicobiofísicos de São Paulo - IEP-SP. www.iepsp.com.br

 

 




 



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