RUY VENTURA
HABITAÇÃO DO TEMPO
veneração
 

a porta esconde-se.
(um rosto entre as acácias. um rosto
dentro da face que a madeira
e a mão registam e apresentam.)

o sopro procura o silêncio
para fazer crescer a voz –
a carpintaria talhando, golpe a golpe,
esse rosto, essa porta,
na linha que se faz
com fragmentos de tecido,
de palavras, olhando pela janela
o campo – imenso.

a abóbada desceu
até junto do homem.
(deambula pela casa.)
foi preciso dividir a nave
entre a voz e o firmamento.
este corpo – a flor junto da imagem.

o rosto acompanha-nos.
a porta abre um universo inteiro.
permanece a veneração,
a nave vivendo o pão e o segredo.
dentro, a voz, o sopro,
edificam a palavra

neste lugar onde tudo se encontra:
um ramo, uma lâmpada,
o rosto, no jardim –

mais vasto do que o mar.

 

Portalegre –
igreja “velha” de S. Brás
(hoje Casa-Museu José Régio)

 

 




 



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