RUY VENTURA
HABITAÇÃO DO TEMPO
encarnação
 

em que palavras leste a semente desse brilho?
no verbo que ele guardou no teu silêncio?
no coração, ardendo na memória?

ergues os olhos, saciando
o cálice em que deixámos a nossa sede.

sobre o ouro, sobre essa madeira,
brilha uma mão que a luz soprou no mar,
iluminando a seiva dessa árvore.

(não guardo mais que o brilho -
na memória.)

outra árvore encarnou no tronco antigo
- nesse lugar, sem nome, tão presente.

que água nova bebeste na palavra,
no sopro e no segredo da manhã?

mesmo sem sede, bebeste a chama viva
que incendeia esta imagem.
mesmo sem fome, guardaste no teu seio

a luz e o sangue,
o vinho - e o coração.

 

Bordeira –
Virgem da Anunciação,
escultura em madeira policromada (sécs. XVI-XVII)

 

 




 



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