RUY VENTURA
AS PALAVRAS DE BENTO

Não me surpreendeu a reacção, islâmica e ocidental, à lição de Bento XVI proferida na Alemanha. Habituados, de um lado e de outro, a uma diplomacia de falinhas mansas e de panos quentes, pós-moderna, tinham que reprovar as palavras de um teólogo que, muito mais para dentro do que para fora, não hesitou quando teve de denunciar a ausência de Deus na nossa sociedade e entre aqueles que invocam o Seu nome para praticarem actos de violência premeditada. Porque o conhecimento de Deus parte da razão e, sem ela, todo o entendimento que possamos ter do Seu caminho é errado ou pouco claro.

Quem se dá ao prazer de ler integralmente as palavras do papa Ratzinger percebe que este se dirige para dentro das paredes do Ocidente e da Igreja, e só marginalmente para fora. Embora utilize o raciocínio de um autor ortodoxo, estabelecido a partir de uma leitura do Alcorão e do devir histórico do islamismo, a Bento XVI interessa o restauro da racionalidade entre os membros da confissão a que preside, tão ameaçada anda pelo relativismo de raiz nihilista e/ou positivista, que reivindica um falso multiculturalismo e uma pseudo-tolerância, que nada hierarquiza, nem mesmo os mais elementares alicerces da existência digna do Homem.

Infelizmente muitos e muitos não as leram – e foram os primeiros a criticá-lo, a atacá-lo, a injuriá-lo, a difamá-lo, a queimarem-no em efígie por esse mundo fora. Motivos? Cada um conhecerá os seus. Talvez ignorância, talvez preguiça, talvez preconceito, talvez maldade.

Isto torna o texto de Bento especialmente profético. Ao criticar a ausência de racionalidade na relação entre os seres humanos e Deus, o bispo de Roma conseguiu – sem esperar, talvez – inquietantes manifestações de irracionalidade, bastante comuns, aliás, no nosso tempo, em que as opiniões valem mais do que os factos, em que as suposições valem mais do que provas inequívocas, em que a manipulação e a ficção valem mais do que a verdade e a realidade. Nestes tempos de regressão civilizacional, isto deveria preocupar todos os homens de boa vontade. Mas não; preferimos continuar como avestruzes, enterrando a cabeça na areia.

Dos que atacaram Bento pelas suas palavras, tomaram especial visibilidade quantos prontamente referiram os momentos negros na História da Igreja Católica. Esqueceram (terão esquecido?) que os terroristas islâmicos, perante o texto do papa, não ameaçaram somente os católicos, mas todos os “adoradores da Cruz”, com obediência ou não a Roma. Esqueceram ainda que a hierarquia católica foi, até ao momento, a única que levou o entendimento da sua História ao ponto máximo, promovendo, depois de um exame de consciência, uma confissão pública e expressando um propósito de emenda, fundado em confiança na ajuda de Deus. A Igreja Católica é pecadora? Decerto. É constituída por seres humanos imperfeitos. Teve no seu seio homens pouco racionais. Em várias ocasiões foi “tomada de assalto” por personagens duvidosas ou por classes (a nobreza europeia, por exemplo, durante largos séculos) que, não acreditando decerto na existência de Deus, viram na sua estrutura um bom instrumento para a concretização da sua ânsia de poder ou do seu desejo de rapina.

Os julgadores de Bento e da Igreja merecem, por isto, uma avaliação pelos mesmos parâmetros. Vendo pecado nos outros, estarão eles isentos de manchas? Estarão dispostos a apresentarem-nas e a manifestarem sinceramente um propósito de emenda, seguindo o exemplo de João Paulo II e se Bento XVI? Terão a mesma coragem na denúncia das monstruosidades concretizadas pelas doutrinas (religiosas, políticas e/ou sociais) em que acreditam ou acreditaram? A superioridade dos cristãos sinceros não está na sua pureza, que não existe. Está, antes, na demanda da perfeição, que implica uma consciência diária dos defeitos e um propósito firme de aperfeiçoamento. Quem assim não age, por mais que se afirme cristão, nunca o será verdadeiramente – tenha o lugar que tiver na estrutura da Igreja (que, como muitos desejam esquecer, não se limita ao cume da pirâmide).

Entre os deveres do cristão, está o do testemunho. Para que o concretize, tem de vencer a cobardia e o medo, isto é, não pode ser politicamente correcto nem diplomaticamente hipócrita. “Se o teu irmão te ofender, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe”, afirma Jesus no Evangelho segundo S. Lucas (Lc 17, 3). Contra a opinião de muitos (inclusivé católicos), Bento XVI cumpriu esse dever, dando um exemplo de coragem a todo o mundo, cristão ou não-cristão. Conhecendo o irracionalismo no entendimento de Deus que dominou muitas épocas, recentes ou recuadas, da História do Catolicismo, do Islamismo, do Judaísmo ou de outras confissões, poderia ter lavado as mãos como Pilatos, poderia ter sido um Bartleby adaptado à religião (“preferiria não denunciar...”) ou uma Suíça feita homem, sempre neutral e sempre disposta a legitimar todas as monstruosidades políticas e financeiras do mundo. Preferiu no entanto seguir o exemplo de Jesus (que não teve medo de denunciar a hipocrisia dos fariseus do seu tempo), como o fizeram, noutros momentos da História, Francisco de Assis, Bartolomé de las Casas, António Vieira, António Ferreira Gomes ou o seu antecessor João Paulo II (que apresentou ao mundo, na altura certa, os crimes da dominação comunista). Joseph Ratzinger terá defeitos, como todos nós, mas não me parece que seja cobarde (e sê-lo-ia se calasse a sua visão do mundo cristão, islâmico, judaico, ateu, etc.). (Cobardia ou calculismo mostraram muitos que o criticaram ou nada disseram para o defender, nomeadamente os líderes europeus, como apontou e bem José Manuel Durão Barroso.) E não digam que o papa apenas critica o exterior da sua Igreja. Ainda na Páscoa de 2005 o ouvimos afirmar: “Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar [...]. [...] O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre [...]. Tende piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua a cair. Com a nossa queda, deitamo-Vos ao chão, e Satanás a rir-se porque espera que não mais conseguireis levantar-Vos daquela queda; espera que Vós, tendo sido arrastado na queda da vossa Igreja, ficareis por terra derrotado.” Quem assim fala tem decerto o direito de proceder a uma firme correcção fraterna, decerto consciente de que a mensagem do Cristianismo, quando correctamente entendida, pode provocar a divisão entre os que a aceitam e quantos a rejeitam.

Bento XVI afirmou, já depois da sua conferência na Alemanha, inequívoco respeito pelos fiéis sinceros de todas as confissões religiosas, nomeadamente do Islão. Ora, respeitar algo ou alguém não implica uma miopia histórica nem obriga à aceitação de tudo quanto o outro pratica, por mais abominável que seja. Como refere G. K. Chesterton no seu livro Ortodoxia, entendendo bem a mensagem transmitida pelos Evangelhos, se um cristão deve perdoar infinitamente aos criminosos, tem por outro lado a obrigação de denunciar e de combater sem descanso, sem hesitações e sem hipocrisias calculistas os crimes que este cometa. Por mais voltas que queiramos dar à polémica, não conseguimos apagar da memória do mundo que a violência in nomine Dei tem andado sempre de braço dado com a civilização muçulmana. Constatar isto não significa que não reconheçamos os eventuais aspectos positivos de muitos movimentos da religião maometana. Mas não podemos esquecer que, como lembra qualquer volume sobre a História do Islão, desde o início a expansão dos seus princípios se deu à custa de muitas vidas e de vitórias militares e que essa dimensão guerreira está expressa, legitima ou ilegitimamente, nas linhas do Alcorão. Que isto corresponde a uma errada interpretação da vontade divina, parece-me inequívoco, como aliás parece inequívoco a muitos muçulmanos, como por exemplo ao imã da mesquita de Lisboa, que ainda no 5º aniversário do 11 de Setembro afirmou, sem hesitações, que quem mata em nome de Alá não acredita certamente nele. Bento XVI afirmou algo de diferente? Julgo que não.

Se as palavras de Bento XVI coincidem com as palavras de muitos cidadãos de boa vontade, inclusivé muçulmanos, como podemos então compreender tanta polémica? Se lermos cuidadosamente a afirmação do imperador bizantino Manuel II, perceberemos o que está por detrás de tudo. Quando o Paleólogo se dirige ao seu interlocutor persa convidando-o a mostrar “o que Maomé trouxe de novo” e acrescentando que “só encontrar[á] coisas más e desumanas, como o seu mandamento de difundir pela espada a fé que pregava”, não se refere propriamente à fé islâmica, mas implicitamente à manipulação política do nome de Deus (que o utiliza como estandarte guerreiro), consciente de que “Deus não ama o sangue”, mas a misericórdia e a mansidão. Racionalmente, Manuel não refere “Alá” ou “Islão”, mas Maomé que, de facto, usou a guerra para alargar os territórios que dominava, abrindo caminho para a inclusão no livro sagrado dos muçulmanos de uma norma apelando à “guerra santa” como instrumento não de conversão religiosa, mas de domínio político e geo-estratégico. Só assim se explica a relativa tolerância inicial dos conquistadores em relação aos conquistados. Não lhes interessava tanto a difusão da mensagem de Alá, mas sobretudo o domínio do território pelas armas, embora o pretexto apresentado fosse o da “guerra santa”. Ameaçado pelos otomanos, o imperador de Constantinopla sabia onde residia a raiz do problema que, pouco tempo depois, aniquilaria o seu império. Não estava na religião, mas no entendimento irracional e/ou na manipulação política da mensagem de Alá, iniciados por Maomé, segundo contam as crónicas muçulmanas e os livros de História. Se a violência exercida em nome de Deus é ilegítima, como referiu e bem David Munir, então somos obrigados a reconhecer que o profeta do Islão terá sido, ele próprio, infiel à palavra que proclamava. Bento XVI não vai tão longe, mas afirma algo que deveria ser consensual: para que exista um diálogo inter-religioso frutuoso, é preciso que todas as confissões abdiquem do princípio da “guerra santa”.

Já em 1991 o então cardeal Joseph Ratzinger, numa obra intitulada A Igreja e a Nova Europa, diagnosticara – num pensamento lúcido, contra a corrente – as causas da “compreensão” do “ideal” terrorista, nascida em certos sectores políticos ocidentais de uma “simpatia filosófica” pelo carácter “revolucionário” dos praticantes de uma violência indiscriminada e deliberada. Nas mesmas páginas aponta que o trabalho legítimo de edificação de um mundo pacífico não pode levar a novas formas de violência que construam não a paz desejada, mas novas formas de guerra ainda mais violentas, física e psicologicamente. É que certos aspectos do “pacifismo” são muito perigosos, por serem condescendentes e quase sempre tolerantes em relação a muitas formas de totalitarismo, constituindo quantas vezes uma frieza em relação ao sofrimento de tantos seres humanos.

Que tem tudo isto a ver com o tempo em que vivemos? Muito, infelizmente. Vivemos, como é sabido, sob a ameaça de um terrorismo expansionista que, invocando o nome de Deus em vão, tem em vista dois objectivos, expressos em vários documentos fidedignos: 1) recolocar sob domínio islâmico todos os territórios que alguma vez na História foram conquistados por muçulmanos (isto inclui a Península Ibérica, a Grécia e todos os Balcãs); 2) destruir, pela violência indiscriminada e pelo medo, o modo de viver ocidental, sobretudo a democracia e os direitos do Homem.

Só venceremos a monstruosidade do terrorismo e impediremos a concretização dos seus objectivos se rejeitarmos a cobardia se os denunciarmos sem receios nem calculismos, utilizando os instrumentos da racionalidade, sendo capazes de estabelecer uma hierarquia de valores e uma proposta ética que rejeite o relativismo pós-moderno que tudo aceita. Como refere Joseph Ratzinger no seu ensaio: “Os aspectos positivos da modernidade devem ser reconhecidos sem reservas: estamos todos muito gratos pelas possibilidades grandiosas que esta abriu ao homem e pelo progresso em humanidade que nos permitiu. [...]. [...] apesar de toda a alegria experimentada face às possibilidades abertas à humanidade, vemos também as ameaças que emergem dessas possibilidades e devemos perguntar-nos como podemos ultrapassá-las. Só o conseguiremos se a razão e a fé se unirem de uma nova maneira [....]. Só assim passaremos a ser capazes de um verdadeiro diálogo entre as culturas e as religiões – um diálogo de que temos necessidade urgente. No mundo ocidental, predomina largamente a opinião de que só a razão positivista e as formas de filosofia que dela derivam são universais. Mas as culturas profundamente religiosas do mundo vêem nessa exclusão do divino da universalidade da razão um ataque às suas mais profundas convicções. / Uma razão que é surda ao divino e que relega a religião para o nível das subculturas é incapaz de participar no diálogo das culturas. [...] / O Ocidente é desde há muito ameaçado pela sua aversão às questões que sustentam a sua racionalidade e, por isso, só pode sofrer grandes danos. [...] ‘Não agir segundo a razão, não agir com o ‘logos’, é contrário à natureza de Deus’, declarou Manuel II ao seu interlocutor persa, a partir do seu entendimento cristão de Deus. É para esse grande ‘logos’, para essa imensidade da razão, que convidamos os nossos interlocutores no diálogo das culturas. [...]” Esta posição viu-se confirmada e esclarecida nas palavras que, no passado dia 25 de Setembro, dirigiu aos embaixadores dos países islâmicos, tanto na passagem em que cita Karol Wojtila – “[…] o respeito e o diálogo requerem a reciprocidade em todos os domínios, sobretudo naquilo que respeita às liberdades fundamentias e mais particularmente a liberdade religiosa” – quanto no momento em que afirmou ser “imperativo que cristãos e muçulmanos se comprometam em conjunto para enfrentar os numerosos desafios que se apresentam à humanidade, nomeadamente naquilo que respeita à defesa e promoção da dignidade do ser humano e dos direitos que daí derivam. Quando crescem ameaças contra o homem e contra a paz, ao reconhecerem o carácter central da pessoa e trabalhando com perseverança para que a vida seja sempre respeitada, cristãos e muçulmanos manifestam a sua obediência ao Criador”.

Tudo isto me recorda alguns escritores europeus que, contra a corrente dominante, têm diagnosticado na sua obra o caminho da sociedade ocidental em direcção às margens do abismo. Conto, entre eles, a jornalista Oriana Fallaci e filósofos cimeiros, como Fernando Gil e Fernando Savater. Este último, no seu livro Os Mandamentos no Século XXI, apresenta ideias que, embora com nuances distintas, me parecem complementares das defendidas pelo papa Bento XVI. Com elas termino este conjunto de apontamentos: “Quando vivemos numa sociedade multicultural, temos de assumir que existe o direito a ter-se religião, a terem-se crenças, e isso comporta o facto de se terem que suportar também alfinetadas por parte da realidade. [...] / Mas isto é, por outro lado, acompanhado de uma leviandade que é perceptível por toda a parte e que se exprime através da máxima que diz: ‘todas as opiniões são respeitáveis’. O que é um disparate. Nem todas as opiniões são respeitáveis. Se assim tivesse sido, a humanidade não teria podido dar um único passo em frente. Não se podem respeitar as ideias totalitárias, xenófobas, racistas, exclusivas, que violem os direitos humanos elementares. [...] / Que respeito merecem as ideias por detrás das quais se acoitam os terroristas de diferentes sinais? [...] / [...] Não podemos respeitar os desrespeitadores.”

 

QC, Setembro / 06

 

 




 



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