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JOÃO RASTEIRO
ENCONTROS
Elegia do esquecimento

Não te conhecerá a víbora ou as oliveiras

nem os cães e os escorpiões da tua carne

nem as renovadas crias ou a sílaba fresca.

Não te conhecerá a fêmea nem o dilúculo

porque como cometa fulminante já és pó.

 

Não te conhecerá o dorso da argila viva

nem o linho onde assentou o sangue aceso

nem a memória mutilada do primeiro fogo.

 

As trovoadas em breve cantarão as chuvas

o pó subirá às árvores abrigar-se-á nos olhos

a noite onde te habituarás a ter a única noite.

O espaço em que se finge ter tido um destino

as constelações palpáveis dos dias dos animais.

 

Não te recordará ninguém nas pérfidas vozes

como todos os mortos que se olvidam perdoados

entre as têmporas orgulhosas de abutres apagados.

 

In, O Arquipélago do espanto(inédito)

Posto em linha a 20.11.2006
 
 

 



 



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